31 de out de 2007

Cap 1: Nos bastidores do poder (Cris)

_ Você está ótima! _ elogiei Rebeca, que havia acabado de chegar na redação depois da sua licença maternidade.

_Ah! Obrigada, querida, vou precisar desse apoio moral para comer bastante matinho e voltar a ter aquele corpinho ginasial! _ riu e pôs sua bolsa sobre a mesa.

Tê-la ao meu lado era uma segurança sempre muito bem vinda e que já me fazia falta. Apesar da sua maior experiência, nunca me rebaixara ou tentara me passar a perna.

_Oi! Como está a mais nova mamãe? _ Ludimila trocou dois beijinhos com ela e depois me cumprimentou com apenas um olhar.

Não gostava muito da nossa editora-chefe, ela me soava tão falsa quanto os guarda-chuvas de camelô, quando você pensa que ela vai te tirar de uma tempestade, te deixa na mão.

_Rebeca, temos aqui para você hoje... _ ela olhou no papel. _ ... Um cadáver foi encontrado carbonizado dentro de um “microondas” feito de pedras no morro. E quero fotos e nota sobre os dois corpos espedaçados que acharam em um chafariz no centro da cidade. Tudo bem para você?

_Claro. _ ela pegou as pautas e a esperou ir embora para cochichar comigo. _ Eu acabo de arrumar o quarto do meu bebê com ursinhos e cheiro de lavanda e ela me manda cobrir corpos picados? “Está tudo bem para você?” _ imitou a voz de Ludimila.

Eu ri baixinho.

_Ah! Cris... _ Ludimila voltou com os papéis para mim. _ Faz uma matéria sobre esmaltes, cabelo, cremes ou alguma coisa assim para a gente atualizar a página da Francine, ela está gripada.

Revirei os olhos assim que pude.

_Quer me dar as unhas e ficar com os corpos? _ Rebeca perguntou sem olhar para mim, digitando no buscador para ver quantos sites da Internet já tinham dado a notícia.

_ Eu não gosto disso. _ suspirei e bebi meu café. _ Parece que eu não escrevo nada de importante, mas só tampo espaço em branco dos outros.

_ Vai chegar sua grande matéria. _ ela repetiu aquilo sem muita certeza, por puro incentivo.

Vimos um entregador de flores levar um buquê até a mesa de Ludimila. Ela olhou o cartão e sorriu quando vira o que dizia o remetente.

_Tem mulher com sorte... _ balancei a cabeça para os lados.

_Não. _ Rebeca corrigiu e abaixou a cabeça para que só eu ouvisse e ninguém pudesse ler seus lábios. _ Tem mulheres que nasceram com a perseguida de ouro!

Eu dei uma gargalhada.

_Minha filha, como acha que essa aí foi substituída para ser a editora-chefe? Me diz! _ franziu a testa e se levantou. _ Deixa eu cuidar desses corpos aqui. _ pegou a máquina fotográfica dentro do armário. _ Eu te contei?

_O quê? _ perguntei, sem pressa para começar minha inédita e grande matéria sobre esmaltes.

_ O Jorge colocou o vídeo do meu parto no YouTube.

_Ah! Que fofo.

_Fofo? _ ela voltou-se a sentar. _ Eu estava lá, com as pernas em 180º graus, uma abertura de diâmetro de melancia e um homem enfiando todo o braço dentro de mim. Se já não bastasse aquela situação, ao fundo Jorginho estava filmando: “Sorri para câmera, amor”. Tem noção que visão do inferno minha pele suada feito um porco, o cabelo todo desgrenhado e a cara pálida urrando de dor?! “Isso, amor, você é forte”!

_Ah! Agora esse momento está eternizado!

_Obrigada, mas eu não quero que o meu brinquedinho seja visto por todo o mundo com direito a comentários: “Lindo vídeo, adorei a música”.

Eu ri.

_Você ri? Quando ele for ao urologista e o médico falar: “Fica de quatro e abre a bunda”, eu vou estar lá com a câmera na mão: “Sorri para a gente, amor”! Aí, o médico vai enfiar o dedo no âmago dele, os olhos vão esbugalhar e sair das órbitas com um berro gutural. “Isso, amor, sorri para câmera que amanhã vou colocar o vídeo no YouTube para seus amigos do escritório verem”. E, depois que sair da sala andando com as pernas arcadas e sentindo que não pode sentar por uma semana, vou lhe mostrar a telinha da câmera: “Olha como você é forte!”.

Eu continuei rindo, imaginando a cena e Rebeca saiu.

Abri meu e-mail do Yahoo e, na página de login, havia um comercial do servidor: “Rápido, ache um e-mail de uma paixão antiga. Encontre facilmente as mensagens que importam. Busque por remetente, assunto, anexos e muito mais”.

Quem fez isso aqui só pode ser masoquista! Eu não era do tipo que vivia de “Revival”. Se eu quebrava a cara no amor, queria mais que ele fosse pastar e exorcizava tudo que me lembrasse "antigas paixões", inclusive os e-mails. Mas, de que espécie de amor estou falando? Minha vida era um somatório de variantes iguais a zero. Rômulo era um ficante novinho que “preferia deixar as coisas acontecerem com calma”, ou seja, nunca. Pedro não queria se envolver com uma mulher depois do término recente do casamento, o que quer dizer, “galinhar indefinidamente”. Lúcio tinha “medo de me magoar", que é compatível com “só quero uma transa rápida sem café da manhã”. Como podem calcular, o resultado é nulo. Soma-se um montante de contatos quentes que dá em uma vida romântica glacial.

_ “Coletiva de imprensa com ator Igor Frinzy”. _ li em voz alta o assunto do e-mail que acabava de receber.

_ Sobre o que você vai falar? Suas férias em Bahamas, com mulheres peitos-de-melão na beira da piscina te dando suquinho de canudinho na boca ? _ conversei com a tela do computador.

Era tão estafante viver como a sombra dos artistas. Eles começam te seguindo como se fosse o bote salva-vidas e, depois, pisam e desprezam como se fôssemos o vírus ebola.

Mas eu tinha que imprimir minha marca em algo mais significante que esmaltes. Subir um grau na escala de relevância com Igor não seria um sacrifício tão grande.

Pedi a pauta para Ludimila que não negou, estava mais concentrada em suspirar para suas rosas na mesa.

Enfiei o cordão do crachá no pescoço e chamei o fotógrafo Iuri para cobrir essa comigo. Assim que chegamos na porta do hotel, onde o galã estava hospedado, nos deparamos com um grupo de garotas aos berros e se descabelando.

_Do que elas seriam capazes para tocarem nele? _ Iuri olhou para as fãs enlouquecidas.

_Comer uma dúzia de baratas de esgoto? _ cruzei os braços e encostei o bloco de anotações no queixo.

_Dormirem em uma caixa de acrílico repleta de cobras? _ ele ajudou.

_Não... Isso seria fichinha. _ fiz uma careta.

_ É porque elas ainda não viram que eu cheguei. _ Iuri estufou o peito.

_Claro, vou avisar. _ ri e dei-lhe uma tapinha nas costas.

_Só fala para elas não rasgarem minha roupa, eu sou tímido.

_Pode deixar. _ caminhei até o segurança e mostrei o meu crachá de imprensa.

Aquele pequeno cartãozinho azul e branco com a minha foto tinha a credencial para o mundo dourado e estelar que elas morreriam para fazer parte. Subindo pelo tapete vermelho e as deixando para trás, senti-me poderosa.

Há uma inveja do público que consome as revistas e jornais a respeito do nosso trabalho por estarmos nos bastidores do que acontece de mais importante. Naquele caso, não via nada de importante, mas para elas tinha um significado eterno. A diferença entre os artistas e nós é que eles ganham uma fortuna capaz de comprar meu apartamento trezentas vezes e serão lembrados pelo caderno de cultura a cada década da sua morte, enquanto eu vou contar as moedinhas para pagar o aluguel e ainda terei que me rastejar para não ser mandada embora a cada vencimento de contrato temporário.

_Povo mesquinho. _ Iuri pegou um pedaço de torrada com patê. _ Só trazem essas torradas com cimento para a gente comer.

_Vamos pegar um bom lugar... _ puxei-o pelo braço.


Li Mendi

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