29 de nov de 2007

Cap 21: Contrato (Cris)

Abri a geladeira e só encontrei água e batatas. O furacão que soprara em minha vida deixou áreas devastadas. Eu me esqueci de fazer compras. Quero dizer, na verdade, eu não tinha dinheiro para elas.

Sentada à mesa, com minha gata ao meu pé, olhei através da janela o trem passando na ferrovia com um céu avermelhado de fundo. Não demoraria muito para eu receber a ordem judicial de despejo. Isso me atormentava mais que a falta de comida.

Voltar para casa da minha mãe seria perder todas as liberdades conquistadas. Amava-a de todo o coração, mas não estava disposta a entrar nas suas regras e representar o papel de filha que deve respeito à sua autoridade, o que inclui comer, dormir e chegar na hora que lhe agrada.

Igor, por um lado, estava certo: eu não tinha como negar que sua proposta era legalmente correta. Eu teria um emprego temporário, escreveria, coisa que gosto de fazer, ganharia por isso e pagaria minhas contas. Quanto a “estar perto de alguém que sempre admirei” era arrogância sua. Tudo bem, tudo bem, eu vou admitir, isso me deixava arrepiada só de pensar. Caramba, eu dividiria toda a sua intimidade em uma posição de honra! Era um sonho quase que infantil, a cura de um recalque, a volta aos tempos de fã!

Só que, agora, eu não era mais aquela adolescente sem ideal, pronta a passar as tardes gravando suas novelas. Eu tinha uma profissão que envolvia uma posição ética. Finalmente, eu era uma mulher madura, vivida, centrada. Não queria mais lembrar daquela Cris bobinha e fanática. Quando penso nos absurdos que fiz por ele, me sinto tão patética e ridícula que dá até vontade de rir; mas, rapidamente, afasto o pensamento por não agüentar a carga de vergonha.

Se bem que eu não precisava entrar nisso sendo a fã que tem o privilégio de entrevistar seu ídolo. Eu posso perfeitamente encarar como um trabalho friamente técnico, com todo o distanciamento que a tarefa pede. Eu tinha estudado e me profissionalizado justamente a fim de incorporar o papel de mediadora dos fatos. Eu seria a ligação entre Igor e suas fãs, sem ser nem sua fã, nem sua amiga. Apenas um canal.

Aquele momento de dissonância cognitiva, em que eu me dava justificativas confortáveis para não contradizer os meus ideais, era importante para chegar a uma decisão.

***

_ Aqui estão sublinhadas suas falas. _ Karen entregou-me o fichário com as folhas do script para eu memorizar.

Tomei o suco de laranja tranqüilamente, sentado à cozinha. Não estava com vontade de olhar aquilo agora.

O interfone tocou e ela apertou o botão para atender.

_Pode mandar entrar e esperar na sala. _ autorizou e colocou o fone no gancho. Voltou sua atenção para o lap top aberto à sua frente. _ Marquei sua visitação ao monsteiro. Será um ótimo lugar para você começar o laboratório. É importante montar o personag...

_Quem era?

_Ãnh?

_Quem era no portão? _ perguntei.

_Ah! Aquela jornalista. Mas ela pode esperar.

_Cris? _ levantei-me, prontamente.

_Hei! Aonde você vai?

_Eu vou falar com ela e já volto. Aproveita para olhar o meu e-mail e fazer aí o que tem pendente... _ aconselhei-lhe.

_Mas...

Caminhei pelo corredor e vi Cris de costas, olhando através da porta de vidro da sala. Parecia concentrada em algum ponto do jardim.

_Pensou bem rápido. _ comentei e ela virou-se.

_É. _ sorriu sem muita motivação.

Vestia a mesma roupa de quando a encontrei pela primeira vez, uma calça preta e blusa branca de babadinhos na frente. Uma postura sempre distante, que colocava uma barreira entre nós. Pensei em estender-lhe a mão, mas não senti que ela queria contato.

_Eu vim aqui...

_Sente-se. _ pedi.

_Eu cheguei a uma conclusão.

_E qual é?

_Vamos fazer...

_Ótimo. _ eu falei alto, feliz por sua aceitação, mas Cris não me pareceu da mesma forma exultante. _ Espero que goste do trabalho, não quero que seja nenhum suplício para você.

_Quanto a isso, é uma questão minha. Espero fazer o meu trabalho e você me pagar por ele. Será só um contrato.

_Um contrato. _ repeti em voz baixa, eu não conseguia enxergar do mesmo modo. _ E quais as cláusulas desse contrato?

_Bom, o meu nome vai estar nisso, então, eu quero ter poder de interferência.

_Que tipo de interferência? _ franzi a testa.

_Você está contratando uma jornalista e, não, uma datilógrafa.

_Ãnh?

_Há uma diferença entre uma pessoa que pensa e a que “bate bem à máquina”.

_Como seria isso?

_Eu imaginei que podemos gravar tudo em fitas. Depois, eu vou ouvir e digitar conforme eu acho que ficaria coerente e instigante. Não, necessariamente, na ordem cronológica que você contar.

_Ah! Quanto a isso, te dou a liberdade poética. _ ri, aliviado por entender que era algo mais simples. _Eu também terei minhas interferências.

_Quais?

_Eu vou falar tudo que vier a cabeça e depois posso acabar cortando alguns trechos.

_Com ajuda da sua censora?

_Quê?

_Acho que não vai ter como tirar a sua assessora do processo.

_Ãnh... _ eu pensei por um momento, não tinha refletido bem sobre isso. Não queria que Karen se metesse no livro com seu dedo acusador. _... Bom, posso até mostrar a ela, mas inicialmente minha idéia não contava com a participação de Karen.

_Por quê? Me parece estranho que...

_Você não ficaria à vontade. _ disse-lhe.

_Eu ou você? _ ela levantou as sobrancelhas.

_Nós. _ admiti.

_Com toda certeza. _ ela riu e abaixou a cabeça, pareceu-me menos imparcial, pela primeira vez.

_ Já falou com seus pais sobre isso?

_Não. Também não queria os “censores” por perto. _ usei a palavra com ironia.

_Suponho que isso não agradará muito ao seu pai. Na festa, sua irmã me falou que ele é uma pessoa mais reservada...

_Eu sei. Mas, há muito tempo eu quero falar um monte de coisas, quero colocar no papel situações que vivi, me expressar... Só que eu não sou muito bom de organizar as idéias. Por isso, acho que será bom ter você para fazer isso por mim.

_Vou tentar fazer o melhor trabalho possível.

_Bom, bom... Quais os seus horários livres?

_Todos.

Ela fez um ar de pesar, suponho que nunca desejou dizer aquilo, significava que estava sem trabalho algum, a ponto de ter que se dedicar a alguém que acabara de criticar duramente.

_ Posso fazer uma pergunta? _ ela pediu.

_Acho que é o que mais fará nos próximos meses.

_Esse livro é para apagar o que eu escrevi?

_Pode ver dessa forma, mas, é também para mostrar o que ninguém mostrou.

_Mostrar para quem? _ quis saber.

_Para todos.

_Todos? Todos mesmo?

_Para os fãs e...

_Para você e sua família? _ completou.

_Serão sempre inquietantes assim as suas perguntas?

_Foi você quem me escolheu. _ ficou na defensiva.

_Uau, me sentirei no paredão. _ ri.

_A fonte tem o direito de não querer responder. _lembrou-me.

_A fonte. _ repeti. _ Será que podemos ser mais próximos? Eu sinto que você está de um lado da ponte e eu de outro, nos falando por aquelas latinhas ligadas por um cordão de barbante. _ ri.

_Não vejo como. Eu não estou aqui para julgar, eu só vou escrever.

_Se você não colocar sentimento no que fizer, não sei como vamos conduzir o projeto.

_O que eu faço é jornalismo e jornalismo não é sentimento.

_Jornalismo é verdade e não acredito que a verdade precise ser assentimental. _ falei-lhe.

Cris levantou-se e pôs uma das mãos na cintura, me pareceu tomar fôlego. O seu incômodo estava começando a me deixar inquieto. Eu não queria torturá-la.

_Igor, eu faço o que quer. _ ela virou-se inesperadamente. _ Eu vendo a minha alma ao diabo, se for preciso...

“Vender a alma ao diabo?” Uau! Que horror!

_... Mas, eu preciso te pedir uma coisa que eu não queria, que eu até tenho vergonha de pedir, que...

_Pede logo!

_Eu preciso de um adiantamento.

_Ah... _ soltei o ar dos pulmões aliviado. Era isso?!

_É que eu tenho umas contas para pagar que não posso mais adiar. Eu nem acredito que estou tendo que pedir isso, mas...

_Tudo bem, isso não é problema.

_Desculpe... Eu não queria mesmo...

_Cris. _ levantei-me e me aproximei. _ Isso é o de menos.

_ Tá. _ ela sorriu e aquele era o primeiro sorriso verdadeiro que dera.

Li Mendi

28 de nov de 2007

Cap 20: É preciso pensar (Cris)

Igor continuou me olhando longamente, estudando minha provável reação. Se ele queria me ver ansiosa, não precisava mais fazer suspense, porque eu já estava quase agarrando-o pela gola da camisa.

_Eu queria que você escrevesse um livro sobre a minha vida. _ finalmente revelou.

Continuei apenas piscando os olhos, sem direito a qualquer interrogação. Ele certamente diria entre risos que era brincadeira. Mas, não o fez.

_Você está zoando com a minha cara, não é? _ perguntei.

_Não. _ disse sério e encolheu os ombros.

Eu levantei as sobrancelhas, ri e voltei a olhá-lo, incrédula.

_Eu nunca poderei fazer isso. _ falei-lhe.

_Pelo contrário, acho que é capaz.

_Eu não disse que não sou capaz. _ consertei. _ Eu disse que eu não posso.

_O que te impede?

_Tudo!

_Não estou entendendo...

_Eu vou desenhar para você, então. É o seguinte, eu acabo de escrever uma matéria sobre você que adota uma posição. Como, no dia seguinte, eu vou escrever sobre a sua vida falando o oposto?


_Eu vou pagar, não se preocupe. _ falou, como se isso por si só me fizesse agora dar um "sim".

_Igor... _ respirei fundo e tomei fôlego. _... Credibilidade a gente não compra. É a mesma coisa de eu falar mal de uma vizinha e, no dia seguinte, estar falando super bem.

_As pessoas podem mudar de opinião.

_Sim, elas podem. Mas eu é que faço elas terem uma opinião.

_Os jornalistas também são pessoas. _ argumentou.

_Você não entende nada. _ levantei-me.

_Eu acho que está na hora das pessoas saberem um pouco sobre mim.

_Por quê? Você vai morrer amanhã para querer uma biografia com essa cara de quem ainda cheira a leite?

_Quem sabe o pouco que eu vivi seja interessante? _ tentou vender sua idéia.

_É, as suas fãs vão consumir qualquer coisa que diga, até se contar como largou as fraldas.

_Faz diferença o que eu vou contar? Eu pago do mesmo jeito.

_Por que eu, Igor? _ franzi a testa, intrigada com sua vontade de me manter perto dele.

_Porque você me conhece bem, pelo menos me conhece do ângulo das fãs e ainda é jornalista...

_Está fazendo isso por compaixão? _ perguntei, cortando-o.

_Por merecimento.

_Não é ético. _balancei a cabeça para os lados.

_O que isso infringe o jornalismo?

_Eu preciso ter um distanciamento da fonte.

_Mas nós estamos bem distantes, vide sua matéria! _ ironizou, se aproveitando da situação. _Você precisa de dinheiro, eu estou te dando um trabalho digno e prazeroso, pois imagino que goste de escrever. Poderá ficar perto de alguém que você sempre admirou e, ainda por cima, ter um emprego temporário. Desenho para você? _ foi sua vez de ser sarcástico.

_Parece prático demais, mas, para mim continua complexo.

_Do que você tem medo? _ perguntou.

_Eu? _ apontei para o meu peito.

_É, você. A gente só renega uma coisa se tiver um medo.

_Eu tenho medo de nada mais voltar a ser como era antes. _ revelei. _ Da minha carreira ir por um caminho que já não me permitiria retornar ao ponto onde estava para seguir outra direção.

_Pode ser muito melhor. _ tentou me motivar.

_Se for pior, será irreversível.


_Se continuar igual, será medíocre.

_Eu preciso pensar...
_ coçei a testa.

Li Mendi

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26 de nov de 2007

Cap 19: Proposta (Cris)

Sentei no sofá da sala e deixei a cabeça caída para trás, olhei o teto do meu apartamento. Depois de uma semana, eu estava revigorada do vírus que me deixara de cama. Era boa a sensação da ausência de dor. Acariciei o pêlo da minha gata deitada ao meu lado.

Como eu iria pagar o aluguel sem dinheiro? Acabaria tendo que voltar para casa da minha mãe. Mas, em meio a estes pensamentos preocupantes, me veio o rosto de Igor sempre sorridente à memória. Puxei a minha gata para o colo e beijei sua cabeça. Ele fora embora na primeira noite em que eu estava no hospital e não o vira mais. O que queria me pedir?

A campainha tocou e eu senti um frio na barriga, deveria ser o dono do apartamento cobrando o dinheiro. Levantei-me ao terceiro toque e atendi o interfone.

_Oi.

_Oi, é a assistente do Igor. É você, Cristiane?

_É, sou eu, já cheguei em casa.

_Pode me receber?

_Sim. _ apertei o portão e liberei a entrada.

Quando ficamos frente a frente, eu percebi que ela não estava muito contente por estar ali. Olhou-me com desdém e sem sorrisos.

_Sou a Karen, assistente do ator Igor Frinzy.

_Hum, sei. Eu estava na festa...

_Eu li sua matéria que, aliás, me deu um pouco de dor de cabeça.

Dei passagem para que entrasse.

_Fique à vontade. _ falei-lhe.

Sentei no sofá e indiquei um lugar para ela.

_Eu não vou demorar. Estou aqui a pedido do Igor. Ele quer vê-la.

_ Por que ele não me ligou? _ franzi a testa.

_Porque ele é um homem ocupado.

_Ãnh.

_Você poderia vir comigo?

_Agora?

_Eu imagino que não esteja fazendo nada, não trabalha mais.

O Igor tinha contado ou saiu em todos os jornais, durante a minha estadia no hospital, que eu era agora uma ferrada completa?

_Ele acha que eu sou uma marionete que pode conduzir como quer? Ele apita e eu saiu o correndo?

_Senhorita Cristiane, como eu falei, ele é um homem ocupado e está com a hora do almoço livre.

_O que ele quer?

_Não sei.

_Ele não é um homem ocupado? Achei que pensasse por ele também.

_Eu penso, mas, neste caso em particular, eu quero deixar claro que ele pensou sozinho, porque não apóio.

_Não apóia em quê?

_O motorista do táxi não vai querer ficar esperando muito tempo lá embaixo.

Olhei para os lados e pensei um pouco. Eu podia mandá-la embora, mas do que ela estava falando? O que Igor iria me pedir? Droga! Por que eu não conseguia conter minha curiosidade?

Levantei e fui até o quarto. Coloquei um vestido tomara que caia florido e peguei minha bolsa.

_Pensei que fossemos almoçar em algum lugar. _ comentei, quando percebi que estávamos na rua da casa de Igor.

_Em público? _ ela riu. _ Para verem vocês dois juntos? Obrigada, eu quero estar com este trabalho ao menos essa semana. Tenho muitas coisas a fazer para ter que bolar uma desculpa mirabolante para o fato de vo-cê estar almoçando com ele.

_Hum.

Saímos do carro e o segurança abriu o portão.

_De volta a essa casa... _ falei baixinho.

_Não foi por convite meu. _ ela rebateu, caminhando à minha frente. Abriu a porta e eu a segui.

Permaneci em pé na sala vazia e depois de dois minutos Igor apareceu com um sorriso largo.

_Melhor? Soube que saiu do hospital.

_É. Obrigada por ter pago a conta. _ encolhi os ombros e coloquei as mãos para trás.

_De nada. _ ele parou na minha frente e eu senti seu perfume. O cabelo molhado indicava que saíra a pouco tempo do banho. _Você deve estar curiosa para saber por que te chamei.

_A curiosidade é minha força e minha ruína, às vezes. _ sentei no sofá e ele sentou no outro, do lado oposto, longe de mim.

_Eu sei que você está sem emprego e também tenho consciência de que isso foi culpa minha.

_Como assim? Você agiu para que eu fosse mandada embora?

_Não assim tão friamente... Mas a pressão da minha assessora foi mais forte.

_Obrigada por me deixar ciente sobre os métodos de tortura que antecederam a minha morte.

_Dramática. _ riu.

_Não tem graça! Eu estou sem emprego, sem grana, posso ser despejada. Isso não é um joguinho, é a minha vida!

_Eu sei, por isso você está aqui!

_O que quer de mim, Igor?!

_Eu quero te propor uma coisa que pode resolver parte dos seus problemas.

_O que droga você quer me propor?! Fala logo!_ irritei-me.

Li Mendi

21 de nov de 2007

Cap 18: Devendo essa (Igor e Cris)

_Igor... eu vou ter que sair. _ a mãe de Cris apareceu na porta do quarto afoita. Ela tinha saído para atender o telefone e, pelo visto, não parece ter recebido boas notícias.

_Ah! Tudo bem... _levantei da cama onde estava sentado. _Mas a senhora não disse que não podia sair? _ perguntei, lembrando da justificativa que me dera essa manhã por telefone para não poder me encontrar pessoalmente.

_Já viu uma mãe negar socorro para uma filha?

_Aconteceu alguma coisa? _ perguntei.

_Acho que sim. _Cris acabou de me ligar, disse que está passando muito mal e que é para eu correr para lá. _contou-me muito preocupada.

_O que ela tem?

_Não sei! Não sei! _ irritou-se e levou as mãos à cabeça.

_Acho que a senhora não pode se exaltar...

_Não posso mesmo, mas fico pior, me falta até o ar!

_Acalme-se. _ pedi. _ Eu posso ajudar em alguma coisa?

_Quer mesmo? Então, me leva até lá o mais rápido possível.

_Bom, é o mínimo. Acho que devo isso à sua filha, apesar dos pesares...

_Então, eu vou aceitar. Fique aí, vou trocar de roupa.

Ela sumiu atrás de uma porta no corredor, mas não levou mais que dois minutos para estar pronta para sairmos.

_Eu sei que a Cris não vai gostar nada disso. _ confessou-me no elevador sua preocupação. _ Como vou explicar que estava com você?

_Se for tanto incomodo assim, eu deixo a senhora na porta e vou embora. É só não contar para ela...

_Isso não é certo. _ apertou a bolsa contra o peito e olhou para os números dos andares acendendo e apagando.

_Não vejo por que não é certo eu ajudar.

_Não é isso, pelo contrário, não é certo esconder que você me ajudou. Não tem por que você não entrar... a menos que não queira vê-la.

Eu fiquei sem saber o que dizer. Afinal, eu deveria querer manter distância depois da grande confusão em que Cris me colocara com sua reportagem. Ao mesmo tempo, seria indelicadeza da minha parte dizer que não me importava em ver como estava. Principalmente, sabendo que podia estar muito mal.

A porta do elevador abriu e nos encontramos mais uma vez com as duas garotas que me viram entrar no prédio.

_Nossa, ele parece mesmo com aquele ator. _ uma delas falou.

A mãe de Cris ia abrir a boca para contar a verdade, mas eu fui mais rápido e coloquei o braço sobre seu ombro. Guiei-a para a saída.

_Meu carro está ali. _indiquei.

_Você estava fugindo delas ou foi impressão minha? _ perguntou-me, quando eu já ligava o motor do carro.

_Para onde eu devo ir? Qual o caminho? _ perguntei, sem responder-lhe.

_Desça essa rua até o final e siga em frente pela principal.

Continuei dirigindo calado. Será que Cris disse para a mãe que tive aquele ataque de pânico ou era tão evidente que eu estava fugindo daquelas garotas? Não quis perguntar, afinal, se ela não soubesse, eu acabaria sem querer revelando. A mulher manteve o silêncio, o que era extremamente incômodo, pois parecia que faltava eu responder-lhe a pergunta ainda em aberto. Lembrei-me do constante conselho de Karen para eu nunca deixar de dizer nada, mesmo que seja uma simples declaração, pois o silêncio abre brecha para que as pessoas criem por elas mesmas suas conclusões.

_Às vezes, a gente quer viver a nossa vida pessoal e ser invisível. Mas, no meu caso, não dá. O personagem e o ator se misturam. As pessoas acham que eu sou aquele mocinho que aparece na novela. Nunca vão me ver como um simples profissional que está fora dos estúdios. _ disse-lhe e acho que ela entendeu que aquilo era uma espécie de explicação para a cena do elevador.

_Então, não pode negar que a matéria da minha filha foi verdadeira. _ aproveitou para alfinetar.

_Não sei se eu contaria daquele modo, se fosse eu quem escrevesse. _ tentei sair pela tangente.

_O que sente pela minha filha? _ foi direto ao ponto.

Eu ri. Ela esperava que eu sentisse o quê? Eu gostaria de saber qual a perspectiva que ela estava tendo da situação toda, porque, em certos momentos, me parecia que a mãe de Cris cobrava-me por ter uma atitude quase de namorado que precisa se arrepender do que fez.

_Não sei. _ dei de ombros e apoiei o braço na janela do carro contra o vidro, cocei a testa com o polegar.

_Isso é preocupante. _ ela falou vagamente e suspirou, olhando para frente.

_Eu não saber? _ franzi a testa.

_De certa forma. _deu de ombros.

_Como assim? _ perguntei, agora confuso de vez.

_Entre à direita. _ indicou-me com a mão. _ É melhor não falarmos disso. É a vida particular dela. Não gosto de me meter.

Ah! Que ótimo! Ela fala um monte de frases soltas e depois me deixar cheio de inquietações.

_ Engraçado falar isso._observei. _ Porque o que chama de "vida pessoal" da sua filha, no meu caso, é a minha vida profissional. O que nós dois tivemos foi apenas um contato profissional. _ tentei limitar para que pudesse entender que entre Cris e eu não havia nenhum enlace amoroso. A última coisa que eu precisava era que ficasse com uma imagem minha de cafajeste, já me bastava guardar a lembrança de eu ter sido o bêbado que desiludiu sua filha.

_Foi o ator ou o personagem que derrubou o vinho no vestido dela? Foi o ator ou o personagem que a ignorou no seu aniversário? _ perguntou-me, sendo tão especifica neste ponto que me deixara sem argumentos para fugir, pois conseguira me fazer ver que eu estava errado.

_Foi eu, o ator.

_Como eu dizia, preocupante. _ reiterou.

_Vamos mudar de assunto? _ri, nervoso e constrangido. Agora era eu que queria seguir seu conselho de não entrar em questões pessoais. _ Como posso chamá-la? _ tentei levar a conversa para outra direção.

_Marluce. _ respondeu.

_Dona Marluce... _ repeti. _ Para onde vou agora?

_Entra na segunda à esquerda.

Parei o carro na frente do apartamento de Cris e a sua mãe perguntou-me, antes de abrir a porta, se eu iria junto com ela.

Pensei no ataque de nervos que Karen teria, argumentando que seria uma pauta quentíssima para os jornais eu estar justo na casa da jornalista que se sentiu mal tratada na minha festa. Seria só uma “questão de vírgulas” para começarem a insinuar que tínhamos um caso. Mas, a voz do meu pai me mandando escutar meu coração me fez decidir.

_Vamos. _ fechei a porta do carro e conferi se tinha ficado travada.

Coloquei as chaves no bolso de trás da calça e olhei ao meu redor, conferindo se havia alguém. Quando voltei a olhar para a mãe de Cris, percebi que estava me encarando. Será que percebera minha obsessão de "conferência"? Se viu, não comentou.

Ela apertou o botão "306" do interfone e, depois de um tempo, ouvímos a voz de Cris informar que podia subir. O portão foi destravado ao som de um estalido metálico.

Subimos três vãos de escada em formato de caracol. Dona Marluce subia com dificuldade com suas pernas gordas e os braços caindo de pelancas, que balançavam a cada vez que puxava seu corpo para cima com ajuda do corrimão. Será que Cris ficará assim um dia? Ela me parecia bem magra. Talvez a obesidade de sua mãe fosse doença, já que tomava muitos remédios. Algumas são capazes de alterar o metabolismo.

A porta já estava entreaberta quando chegamos. Dona Marluce entrou no apartamento da filha. Eu segui mais atrás com um pouco de cautela. Entrei por um estreito corredor de dois metros coberto por um tapete vinho. Um gato cinza me olhou desconfiado e seguiu-me com a cabeça, quando passei por ele.

_O que você tem, minha querida? _ Dona Marluce inclinou-se sobre o sofá. Colocou as costas da mão no pescoço de Cris para medir-lhe a temperatura. _ Minha virgem Maria! Você está pelando em febre!

_Mãe... Estou muito mal. _ ouvi o sussurro de Cris.

_Nem precisa dizer, estou vendo. _ ela afastou o cabelo úmido de suor da filha.

Cris virou o rosto para o lado e se deu conta da minha presença ali.

_Eu estou tendo alucinações? _ riu. _ O Igor...?

_É ele mesmo, você não está vendo coisas! _ a mãe explicou.

_O que ele faz aqui? _ perguntou, como se eu não existisse ali.

_Depois a gente discute isso. Vamos para o hospital. Mas antes é melhor você tomar um analgésico. Onde você coloca?

_No armário da cozinha...

Dona Marluce deixou-me sozinho com Cristiane e ela olhou-me.

_O que ainda quer de mim?_ perguntou._ Já não basta eu ter perdido meu emprego por você, por ter me metido na sua vida? Como eu sou burra!

_Toma, minha filha. _ Dona Marluce apareceu com o copo de água e o comprimido.

_Como eu pude ficar tão mal? _ ela tomou e voltou a se deitar. _ Eu estou enjoada... _ Cris virou o rosto para o lado e vomitou no tapete.

_Acho que vou ter que explorar mais um pouco o seu favor. _ Dona Marluce olhou-me.

_Qual hospital que quer levá-la?_ prontifiquei-me a ajudar.

_Algum público.

_Público não! _ pedi.

_Mas nós não temos dinheiro! _ argumentou.

_Vocês vão ficar discutindo? Manda ele embora! Pega um táxi, mãe. _ Cris fez um esforço para ficar sentada e depois tentou se levantar. Caminhou dois passos em direção ao corredor que dava para a cozinha, encostou as mãos no portal e eu imaginei que iria desmaiar por causa da sua fraqueza. Em um reflexo, precipitei-me para frente e a segurei pelas axilas.

_Eu te ajudo. _ disse-lhe. Ela voltou à si depois de alguns segundos. _ Vem, eu te carrego.

_Não, eu não quero você._ resmungou ainda tonta.

_Não tem escolha. _suspendi-a nos braços.

_Meu corpo todo dói, meu Deus! _ ela gemeu e começou a chorar contra o meu peito.

_Vai ficar tudo bem, calma. _ falei-lhe e comecei a descer as escadas.

Dona Marluce fechou a porta e veio atrás de nós.

_Pega a chave no meu bolso de trás. _ pedi para a mãe de Cris. _ Agora, aperte o botão.

Ouvimos o sinal elétrico e a porta destravou. Coloquei Cris no banco de trás e sua mãe a amparou.

_Eu vou levá-las a um hospital particular. _ disse-lhes, ligando o carro.

_Mas nós não podemo...

_Não se preocupe, é por minha conta. _ cortei-a.

Sairia muito mais caro estar no meio de uma emergência lotada distribuindo autógrafos. Era mais fácil dar entrada em um hospital caro, vazio, onde eu pudesse exigir total discrição.

Assim que chegamos, pedi uma cadeira de rodas para levá-la para a emergência, pois não conseguia andar. A recepcionista respondeu-me sem me olhar que era preciso antes fazer uma ficha.

_Ela está muito mal. _ argumentei. _ Enquanto eu preencho tudo, você não pode providenciar que a coloquem no soro?

A mulher levantou o rosto e se assustou. Dei-me conta de que eu podia usar da minha condição para conseguir benefícios.

_Oi, tudo bem? Eu mesmo! _ fiz um sinal positivo com o dedo e ela continuou de boca aberta, petrificada. _ Então, tem como agilizar tudo?

_Claro! _ pegou o telefone e pediu que um enfermeiro viesse até a recepção.

Descobrimos que o motivo de Cris estar passando mal era um forte vírus que pegara. Ela precisaria ficar de repouso por toda a noite em observação, pois necessitava permanecer no soro.
_Só pode ficar um acompanhante. _ a enfermeira comunicou-nos.

_Tudo bem. Eu espero lá fora. _ falei-lhes.

_Podereia me dar um autógrafo? _ a enfermeira perguntou baixinho, tirando uma caneta e um bloco do bolso.

_Claro. _peguei a caneta. _ Qual o seu nome?

_Vânia.

Assinei o nome e fiz uma dedicatória.

_Obrigada, minha irmã não vai acreditar.

_Legal. _ sorri-lhe e caminhei para a sala de espera, que estava à meia luz e apenas a recepcionista assistia à novela das oito.

Fiquei com a cabeça encostada na parede. Estava muito cansado. Havia sido um dia e tanto.

_Quer ficar um pouco com ela? _ Dona Marluce apareceu meia hora depois, sentando-se ao meu lado.

_Será que ela vai querer?

_Isso é com vocês.

***

Abri os olhos. Estava melhor. O cheiro de éter forte e o ar condicionado gelado me causavam um ligeiro incômodo. Naquele ambiente pouco familiar me senti na condição de doente.

Olhei para o soro preso na minha mão e mal podia mover meu braço. Todo o meu corpo doía, como se tivesse sido atropelada e meus ossos triturados.

Vi Igor entrar pela porta e se aproximar. Ficou em pé ao meu lado. Senti o cheiro do seu perfume e o calor do seu corpo próximo ao meu.

_Melhor agora? _ perguntou.

_Melhor? _ sorri. _ Deixa eu ver... perdi o emprego, estou sentindo meu corpo todo dolorido e... estou com você.

_Eu posso ir embora. _ afastou-se um passo atrás.

_Não. _ pedi. _ Minha mãe disse que eu tenho que lhe agradecer e também acho que te devo isso. Obrigada.

_Se não sentir vontade, não precisa me tratar bem. Eu sei que nós passamos por dois dias estressantes e...

_Estamos de novo juntos. _observei.

_É. Estava justamente pensando nisso no carro.

Ele sorriu. Como podia ter o sorriso mais lindo que eu já vira? Seu rosto doce e delicado me trazia uma sensação boa só de olhá-lo. Agora, Igor sabia sobre eu ter sido sua fã fanática. Eu fiquei muito irritada com minha mãe no primeiro momento em que me contou que resolvera lhe dizer sobre minha admiração, na adolescência, por sua carreira. Mas, depois, achei que foi melhor assim. Eu nunca teria coragem de lhe dizer por vergonha, talvez.

_Se fosse há alguns anos, eu diria que ficaria doente para ter a chance de ficar perto de você. _ confessei.

_Não diga isso! É assustador! _ pediu.

_Não se preocupe, não sinto mais isso. Preferia estar bem, na minha casa.

_Pensei que ia dizer que preferia estar longe de mim.

_Uma coisa implica outra, não? _perguntei.

_Não, se estivesse pensando em mim. _ olhou-me nos olhos fixamente.

_Por que eu estaria, depois de tudo?

_Porque eu não conseguiria esquecer tudo o que aconteceu tão facilmente. _ confessou. _ E, ah!Eu nunca mais distribuo bolo! _ disse e eu dei uma risada.

_Não me faça rir. Dói.

_Desculpe. _ controlou o riso também. _Se as pessoas soubessem que estamos agora tirando sarro de tudo...

_Talvez amanhã saia em alguma coluna de jornal. Sabemos disso...

_Bem possível, não dá para esconder. _ olhou para baixo e levantou as sobrancelhas com pesar e um suspiro.

_Acho melhor não nos prejudicarmos mais. _ comentei.

_Isso é um pedido para eu ir embora?

_Você está com tanta vontade de ir?

_Não! _ tocou no meu braço e sua mão estava quente.

_Vocês são namorados? _ ouvimos uma voz de criança atrás de Igor.

Ele virou o rosto para descobrir de onde tinha partido a pergunta. Vimos na cama ao lado uma menina de cabelos cacheados também no soro.

_Oi. _ sorriu-lhe. _ Não, somos amigos. _ respondeu. _ Quero dizer, conhecidos. _ consertou.

_Eu te vi na novela! _ ela falou e sua mãe ao lado do leito acariciou seu rosto. _ Você é bonito mesmo.

_Obrigado. Como se chama? _Igor perguntou.

_Larissa.

_Bonito nome, Larissa. _ elogiou, enfaticamente.

_Me dá um autógrafo?

_Sua mãe tem papel aí?

_Deixei minha bolsa com meu marido.

_Tudo bem...

Igor vestia uma camisa de manga curta sobre a outra de mangas comprida. Puxou a de cima e pediu uma caneta para a enfermeira. Assinou o nome sobre o pano e entregou à menina.

Não acredito que minha mãe havia lhe contado este detalhe também! Então, agora Igor sabia que no dia em que fora lhe encontrar queria sua camisa autografada? Essa não! Ele queria provar para mim que não era mal como eu pensava.

_Você fez isso por ela ou por mim? _ perguntei, quando voltou-se para mim.

_Por nós. _ respondeu.

_Nós?

_Por você e por mim. Por você, para que veja que não sou o lobo mal e, por mim, para que eu não me sinta pior do que fiquei quando descobri que te tratei mal um dia.

_Não precisa se desculpar, já passou.

_Não gosta mais daquele meu papel de menino gordinho daquela primeira novela?

_Não! _ dei uma risada e Igor sorriu.

Olhamo-nos, longamente.

_Obrigada por tudo. _agradeci. _Certamente eu ainda estaria na fila de espera da emergência de algum hospital público, quem sabe deitada no chão de algum corredor. Obrigada mesmo. Que ironia eu falando isso, te agradecendo, depois de...

_Não vou publicar no jornal. _ ele brincou.

_Te devo essa.

_Você também me deve outra coisa.

_O quê?

_Depois te conto.

_O quê?

_Uma coisa que quero lhe pedir.

_Fala.

_Vou chamar sua mãe para ficar contigo. _ ele piscou o olho e se afastou.

O que ia me pedir? Como assim ia embora?!

Li Mendi

20 de nov de 2007

Cap 17: Os heróis também morrem (Igor e Cris)

Virei a maçaneta da porta e a empurrei para frente. Aparentemente, nada demais. Um quarto de garota. Colcha rosa na cama, armário de quatro portas de mogno. A janela aberta fazia a cortina de babados balançar com o vento. À minha direita, uma escrivaninha e uma poltrona bege. Mas, eu assustei-me com o que vi quando virei o rosto para o lado esquerdo, conforme a porta encostou na parede. Minha mão escorregou da maçaneta.

Dei dois passos à frente e levei a mão à boca, depois ela ficou parada no queixo. Meus olhos não conseguiam apreender tudo de uma só vez.

_Não acredita, não é? _ a voz da mulher atrás de mim me assustou.

Virei-me para ela e não conseguia dizer nada, estava completamente abismado.

_Mas a Cris é... Ela não pode... Ela... _ perdi a fala, voltei a olhar a parede.

_Você sempre foi o Deus da minha filha. _ deu-me uma tapinha no ombro e sentou-se na poltrona.

Eu continuei parado com as mãos no bolso, vendo meu rosto em todos os pôsteres e fotos coladas. Recortes de revistas, jornais e cartazes de filmes formavam um enorme mural que tomava toda a parede.

_Ela não queria saber que era mais velha. Sempre foi sua fã. Minha filha coordenou seu maior fã clube. Mas tudo acabou.

_Acabou? _ franzi a testa e me sentei na cama virada para a parede. Será que ela dormia naquela posição para ficar me admirando nas fotos? _ Nunca poderia imaginar. É quase impossível. Eu era só um garoto.

_A Cris amadureceu de uns anos para cá. Sempre foi muito infantil. Não sabemos porque ela tinha tanta fixação por você.

_Bom, algumas adolescentes passam por essa fase, colam alguns cartazes... _ olhei para a parede e não tive tanta certeza de que aquilo era normal.

A mulher apontou para a prateleira. Olhei para trás de mim e vi dezenas de fitas cassete.

_Ela gravou todas as novelas, todos os filmes e entrevistas. Tudo. Sua vida está ali.

_Não pode ser... _ ri, estupefato.

_Procure uma caixa embaixo da cama. _ pediu.

Abaixei-me e achei uma caixa de papelão. Abri-a e tirei de dentro um rolo pesado.

_Nãooo. _ levantei as sobrancelhas e olhei-a incrédulo. _ Ela fez isso para mim?

_Não chegou a terminar, desistiu.

Senti o peso do rolo feito de folhas de papel A4 escritas “eu te amo” infinitamente.

_Ela dorme aqui?

_Não. Ela nunca mais veio aqui. Nem entra nesse quarto.

_Por quê? Continuo confuso.

_Um dia ela ganhou um prêmio da sua produtora para te conhecer. Só que, quando estava na ante-sala para te ver, ouviu você discutir com sua assessora. Você tinha chegado de uma festa bêbado e falou coisas horríveis. Que não queria ver fã chata nenhuma, porque você achava que eram umas bobas, que te irritavam. Ela escutou tudo e saiu correndo. Os heróis também morrem.

_Lamento por isso.

_Ela saiu daqui dizendo que seria o dia mais feliz da vida dela. Falou que pediria que você tirasse a camisa e a desse autografada para poder sentir seu cheiro para sempre.

Lembrei de Cris dormindo na minha cama e imaginei o que ela deve ter sentido na minha casa, tão perto de mim.

_A minha filha não queria ouvir seu nome depois disso. Simplesmente ficou com ódio de você.

_Eu repito, lamento profundamente. Eu também era só um garoto.

_Ela foi logo morar perto da faculdade e ficou independente. Hoje, leva a vida sozinha. Só que não estava em seus planos cruzar com você naquela festa. Por isso, não manche a imagem e a credibilidade da minha filha. Já basta ter visto ela chorar nessa cama por um moleque bêbado.

Engoli em seco. O telefone começou a tocar na sala e ela levantou-se.

***

Senti que estava tonta. Os móveis da sala pareciam dançar no ar. Por que eu estava tão mal? Deixei a bolsa no sofá e meu estômago começou a se revirar. Corri para o banheiro e vomitei no chão, antes de alcançar o vaso.

_O que está acontecendo comigo?

Levei a mão à testa. Estava queimando.

Disquei o número da casa da minha mãe com as mãos trêmulas. Chamou quatro vezes.

_Mãe, eu não estou bem... _ disse, sem forças para ficar em pé.

_O que você tem?

_Eu não sei, meu corpo está todo dolorido... Mãe, vem aqui, vem rápido.

_Estou chegando aí!

Desliguei e deitei no sofá sem forças.


Li Mendi

19 de nov de 2007

Cap 16: O que devo saber? (Igor)

Subi a comprida ladeira que dava acesso à rua da casa da mãe de Cris. Olhei a folha de papel rasgada da agenda de Karen e conferir os números nos portões. Era um bairro de bonitas casas, modestas, mas bem cuidadas, com jardins floridos e crianças brincando nas calçadas. Algumas mulheres sentadas no portão em cadeiras de praia conversando.

Bem devagar, fui guiando o carro pela rua até achar o prédio da esquina. Tinha cinco andares e uma fachada de pastilhas branco e marrom. Estacionei do outro lado da calçada e agradeci por não ter muita gente por ali. Eu não chamaria tanta atenção.

O que me movia fazer aquela visita? Meu coração. Imediatamente me veio à mente os conselhos de meu pai para seguir o que eu desejava e, não, o que era tecnicamente certo para o meu marketing pessoal. Mas, o que meu coração sentia? Isso ainda era uma mistura confusa até então. Apertei o botão do interfone.

Coloquei as mãos no bolso da calça e apoiei o pé no degrau da entrada. Fiquei olhando para o chão e pensando em qual propósito da vida ao me unir àquela moça. Eu não conseguia sentir raiva por causa do artigo sobre a festa, porque não me atingira em um ponto que me prejudicasse realmente. Pelo contrário, Cris mexeu não com Igor artista, mas com o Igor pessoa. E isso se deu bem antes da matéria. Era Karen que sentia raiva de Cris, não eu.

_Quem é? _ a voz no interfone me trouxe à realidade.

_Oi. É da casa da Cris?

_Da casa da mãe dela.

_É... É o Igor, senhora.

_Ah! Sim. Você veio? Abriu o portão aí?

Ela pensou que eu iria mentir e deixá-la esperando? Franzi a testa e empurrei o portão.

_Sim, abriu, obrigado.

_Pode subir.

_Tá.

Abaixei a cabeça quando cruzei com duas adolescentes no corredor. Elas pareceram não acreditar se tinham mesmo visto o que pensavam que tinham visto.

Entrei no elevador e ainda me olhavam incrédulas.

_Já sei. Pareço com aquele ator, né? _ ri para elas. _ Todo mundo fala. _ encolhi os ombros.

_Ãnhhh._ elas deram um risinho.

A porta do elevador fechou e foi minha vez de rir com ironia. Maravilha, agora eu já podia me fingir de sósia de mim mesmo. Que versátil.

A mulher me esperava à porta do apartamento. Ela sorriu e o pequeno cachorro negro aos seus pés latiu.

_Quieto! _ ela reclamou com ele.

_Eu prometi que vinha, eu vim. _ sorri e me inclinei para cumprimentá-la, pois era bem mais baixa que eu. Senti suas mãos gordas apertarem minhas costas com carinho.

Era uma mulher obesa dentro de um vestido florido largo. Sua casa cheirava à canela. Era uma sensação boa estar ali. Olhei os móveis antigos, ornamentados com objetos de família. Uma manta vermelha xadrez sobre o sofá creme e uma mesa de madeira redonda onde havia bolo de banana e xícaras. Descobri de onde vinha o cheiro da canela.

_Sente-se meu filho. _ ela indicou com a mão uma cadeira. _ Eu não sei se vai gostar, você deve comer de tudo.

_Para mim? _ perguntei, vendo que o bolo estava fatiado, mas completo ainda dentro do tabuleiro.

_Sim, coisa rápida. _ fez um ar de pouco caso.

_Puxa, obrigado. _ sentei-me.

_Café?

_Por favor.

Bebi um pouco do café e fiz uma observação instantânea.

_Hum... Nada como um ótimo café bem coado. Coador de pano, certo?

_Isso mesmo! Como sabe? _ perguntou.

_São anos tomando café expresso, ele é mais ácido. Não tem o sabor do café caseiro...

_Fico feliz que goste. _ ela me passou o bolo em um prato com garfo.

_Mas vim aqui só para provar seus dotes culinários? Se for, já está aprovado e pode chamar de novo.

_Que isso... _ a mãe de Cris riu e me olhou com ar de contemplação.

_Eu não acredito que está aqui.

_Por quê? De repente, eu estou na televisão da sala e agora estou na sala? _ perguntei, já sabendo o que todos diziam.

_Também. Mas é uma longa história... _ ela suspendeu as sobrancelhas e acariciou o pano de crochê branco sob o jarro de rosas artificiais.

_A senhora sabe o que a sua filha fez? _ tentei dar partida na conversa.

_Sei. E sei também o que você fez a ela.

_Eu? O que ela te contou? Porque...

_Não! Não! _ abanou as mãos no ar em negativa. _ Eu não me refiro à agora, mas ao passado.

_Passado? Nós nos conhecemos faz uns dias.

_Ela te conhece há mais tempo que imagina. Melhor, ela te conhece mais do que imagina.

Eu mastiguei lentamente e continuei olhando-a curioso e também assustado.

_Bom, se a senhora não me disser, não vou adivinhar mesmo. _ ri nervoso.

_Eu te chamei aqui, porque... _ ela me pareceu finalmente disposta a pôr fim ao mistério. _ ... Antes, quero te agradecer por ter me dado um pouco do seu tempo. Eu estou tomando uns remédios para o coração e não posso sair na rua, me dá uma alteração na pressão...

_Não se preocupe.

_ Enfim. eu vi sua entrevista na televisão. Eu sei que as pessoas acreditam em tudo que você fala. Mas o que você fala é só uma versão dos fatos. Assim como disse em cadeia nacional que minha filha usou de uma versão, deveria ter dito que aquela era a sua história. Claro que não faria isso, não seria bom para você.

Eu não argumentei nada, não queria começar a discutir depois de uma recepção tão acolhedora.

_Agora seria interessante se você conhecesse a Cris. Não a Cris que você acha que conhece.

Eu não deveria conhecer mais nada. Aquela confusão toda tinha que ter um fim. Mas se eu estava ali era porque eu queria continuar, era errado, eu sei. Mas, eu queria ver no que toda aquela cadeia de ligações iria dar.

_Ao que se refere?

_Não preciso dizer nada, você verá com seus próprios olhos. Vá até aquele quarto. _ apontou para uma porta no corredor.

Eu fiquei parado por um instante, mas depois vi que ela não me daria mais pistas. Só me restava levantar. Caminhei pelo corredor já meio escuro e senti um frio na barriga. Segurei a maçaneta de cobre redonda e girei lentamente.

Li Mendi

16 de nov de 2007

Cap 15: Sem conspiração (Cris e Igor)

Sentei-me à mesa de Ludimila, que abaixou a cabeça como quem tenta procurar alguma coisa no papel em branco à sua frente. Bateu com a tampa da caneta na mesa e pensou em como começar. Não precisava nem dar continuidade àquilo, eu já pressentia o meu fim e meu estômago revirava.

_Cris, a política administrativa e editorial do site decidiu fazer uma nova seleção de jornalistas e não renovaremos o seu contrato. Espero que você seja bem sucedida na sua carreira.

Tanto sacrifício para ser jogada na rua? Tanto estudo, tantos feriados trabalhando para ouvir que não renovarão o meu contrato?

A revolta me fez levantar e querer sair dali correndo para não começar a dizer tudo o que estava entalado na minha garganta. Mas, eu não sairia antes de tirar uma dúvida.

_Isso tem a ver com a matéria sobre o Igor na revista?

_Eventualmente, tudo o que você faz reflete no fluxo da sua carreira.

Os jornalistas se tornam tão apurados em saber falar uma declaração horrível com palavras bonitas que chegam a cair no ridículo. Se não fosse trágico, eu riria.

Abri a porta e não compartilhei da sua falsidade. Nada de abraços e “foi bom trabalhar com você”. Caminhei até a minha mesa e olhei para meus objetos pessoais com tristeza.

_ Como vai a sua indicação para o Pulitzer? _ perguntou Rebeca, minha amiga vizinha de mesa. _ Adorei a reportagem que vendeu. Vou guardar de lembrança.

_Eu também vou. _ abri as minhas gavetas e comecei a jogar tudo em cima da mesa. _ Vou lembrar as conseqüências de dizer o que penso.

_O que está fazendo? _ ela olhou-me tirar os recados colados no monitor e deduziu tudo. _ Não diga que você vai embora?

_É... _ levantei os olhos e ela viu as lágrimas prestes a caírem.

Não demorou muito para os meus amigos se levantarem de suas mesas e virem me abraçar.

_Você é boa, garota! _ Iuri me deu um tapinha nas costas. _ Quem vai comer comigo empadinhas frias nas festas?

Eu ri.

Em um relance de olhar, vi o rosto de Igor na televisão. Minha atenção voltada para o programa fez com que eles assistissem também.

_Por que você não foi ver suas fãs? _ perguntou uma jornalista, impondo o microfone próximo à boca de Igor.

_Eu estava muito cansado e achei que seria um ato de carinho e atenção servir o bolo para elas. Não vi nenhum mal nisso. Acho que a imprensa tem que perceber que existe um limite entre a minha vida pessoal e a profissional. Eu estava na minha casa com os meus amigos, tinha o direito de selecionar quem eu queria que entrasse.

_Se convidou a imprensa para cobrir o evento, a festa não seria pública? _ rebateu a jornalista.

_Depende do que você entende por público. O fato de poderem divulgar no jornal não significa que todos possam entrar na minha casa. Há um limite.

_O que suas fãs vão pensar agora?

_Quem gosta do meu trabalho continuará apreciando. Eu não sou este ser horrível que pintaram. Sou apenas um ator que estava se divertindo em uma festa particular. Não tive intenção de humilhar ninguém.

_Por que se negou a dar informações à jornalista?

_Eu acho que houve um mal entendido. Havia muitos repórteres lá e amigos também... Eu era um só para dar atenção a tantas pessoas. A jornalista a que se refere saiu mais cedo, se ela tivesse ficado mais um pouco, poderíamos ter tido tempo de conversar. Se eu fosse arredio à imprensa, não teria chamado para cobrir o evento. O que seria, em certo ponto completamente compreensível.

_Você acha que foi uma conspiração contra você?

_O que eu acho que tudo são versões dos fatos. Cada um conta a história de um ponto de vista. Esse foi o que a jornalista escolheu, não necessariamente é o verdadeiro. Só quem pode estar no meu coração para saber o que eu sentia sou eu!

_Qual seu próximo trabalho?

_Vou participar da novela das oito e só tenho a agradecer o presente que foi esse papel.

_Parece que vai ser um papel polêmico. Um seminarista que se apaixona pela irmã de criação.

_É, vou ter que preparar bem este personagem. Levará um tempo para montar, mas farei o melhor que puder.

_As fãs, então, vão ficar sem ver o famoso corpo de Igor Frinzy na comprida bata?

Eu revirei os olhos e recomecei a arrumar minhas coisas. Todo o conflito acabava de ser dissolvido naquela pergunta fútil e engraçada para terminar a matéria em “alto astral”.

_Já sabe para onde vai? _ perguntou Rebeca.

_Para casa. _ respondi com ironia, mesmo entendendo que ela se referia sobre meu futuro profissional.

_Sim. _ ela sorriu. _ Posso te perguntar uma coisa em particular? _ chegou mais perto quando meus amigos resolveram voltar para suas mesas.

_Claro. _ verifiquei quais papéis dentro da gaveta poderiam ir para o lixo.

_Você fez isso por vingança?

_Como assim?


_Você me entendeu, Cris.

_Eu fiz o que achava que tinha que fazer.

_Tudo bem se não quiser responder.

_O que quer que eu responda? _ olhei-a.

_Você se apaixonou por ele?

_Rebeca, por favor, né? Ninguém se apaixona por uma pessoa em poucos dias?!

_Não? Pensei que precisava só do primeiro olhar.

_Isso é coisa de adolescente. Passei dessa fase. Agora, eu quero um senador que me dê uma pensão bem gorda e posar para uma revista masculina. Se possível, que ele seja velho para morrer logo.

Rebeca riu.

_Fugindo pela tangente... já vi que se apaixonou. Caiu nas graças de Igor Frinzy. _ balançou a cabeça para os lados com o queixo apoiado na mão, enquanto editava um texto no computador.

_Como poderia estar apaixonada se eu acabo de jogar uma bomba na cabeça dele?

_O ódio e o amor são sentimentos que estão de costas um para o outro. Aquele que odeia conhece tanto o objeto da sua ira quanto o que ama, porque ele vive em função do seu adversário.

Eu não respondi nada. Continuei com a limpeza. Queria sair dali o mais rápido possível.

_Eu não acordei me sentindo bem. Estou com o corpo meio quente. _ coloquei as costas da mão no pescoço.

_Deve ser psicossomático. Está muito tensa. Não se preocupe. _ disse Rebeca. _ Quer que eu veja se alguém tem um analgésico?

_Não, não, eu vou para casa. _ balancei a cabeça negativamente.

_Liga para alguém vir te buscar. _ sugeriu.

_Só se minha mãe viesse. Mas não quero atrapalhá-la.

_Liga, Cris.

Eu procurei meu celular e não o encontrei na bolsa.

_Nem que eu quisesse, deixei na casa da minha mãe. Dormi ontem lá.

_Ah, usa o da minha mesa, né?

_Deixa, eu agüento chegar no meu apartamento. É só uma indisposição.


***

_Foi muito bem. _ Karen elogiou, sentada ao meu lado no carro. _ Lembrou de tudo, hen?

Continuei calado, dirigindo.

_Agora faça o que falou, se concentre na novela, porque vai vir mais fama por aí!

Enquanto aquilo a fazia feliz, eu não tinha certeza se deveria me alegrar com o que “viria por aí”.

Meu telefone começou a tocar no porta-moedas. Rebeca esticou o braço para atender.

_É ela que está ligando...

_Quem? A Cris?

_Como pode chamá-la pelo apelido?

_Que diferença isso faz? Me dá.

_Você vai atender?

_Anda, Karen!

_Você está dirigindo, deixa que eu atendo. _ abriu o celular. _ Alô? É a assessora dele, quem está falando?

Eu gostava de ter Karen para ficar ao encargo de cuidar dos jornalistas enquanto eu tinha tempo para curtir a minha vida, mas, em certos momentos, isso não era tão conveniente, como agora. Eu queria atender o telefone.

_Ah! A senhora é a mãe dela... _ Karen repetiu em voz alta e olhou para mim.

Eu franzi a testa. A mãe da Cris?

_A senhora quer falar com o Igor? Agora ele não pode atender, em outro horário...

_Me dá isso aqui. _ pedi.

_Não, senhora, ele não pode, já te expliquei.

Eu freei e estacionou o carro no acostamento. Nossos corpos foram projetados para frente e depois para trás. Desliguei o motor e peguei o celular da mão dela.

_Obrigado. _ dei um sorriso forçado para Karen e coloquei o celular no ouvido. _Alô, senhora? É o Igor.

_Oi. Sua assessora disse que estava ocupado.

_Estava dirigindo, mas posso falar agora. _ expliquei para que Karen não ficasse irritada por eu desmenti-la.

_Eu queria conversar com você.

_Senhora, eu...

_É importante. Eu sei que é uma pessoa cheia de compromissos. Mas eu acho que precisa saber algumas coisas sobre a minha filha.

_Que coisas? _ perguntei, olhando a rua através do vidro escuro do carro.

_Não posso falar por telefone, precisaria ser pessoalmente.

O que ela queria me revelar? Tudo que eu sabia sobre a mãe de Cris era que tinha dado a filha o vestido que manchei na festa da campanha dos ternos. Mas, havia no seu tom de voz algo que me convenceu de que eu deveria lhe dar atenção.

_Sua filha pediu para me ligar? Porque se for, eu digo que já está tudo resolvido. Eu não quero...

_Não! Ela esqueceu o celular aqui em casa, ontem. Eu procurei seu número no telefone dela, já que tinha me contando sobre a história de vocês.

História nossa? Ela não achava que eu tinha tido alguma coisa séria com sua filha, não é?

_Eu não estou muito bem para sair de casa. Poderia vir até aqui? Eu sei que é pedir demais...

_Onde mora? _perguntei.

Karen fez uma careta e abriu as mãos no ar, intrigada com os rumos do telefonema.

_Tem como anotar? _ perguntou.

_Tenho, espere um momento. _ fiz uma mímica para Karen abrir a agenda. Ela revirou os olhos e à contragosto apertou a tampa da caneta. _ Pode falar.

_O que vai fazer lá? _ Karen perguntou quando desliguei.

_Boa pergunta. _ abri a carteira e tirei uma nota de cinqüenta. _ Pegue um táxi.

_Como assim? Não vai me deixar aqui! Eu vou com você.

_Obrigado, mas eu faço isso sozinho.

_Pode ser uma armação!

_Karen, sem teorias conspiratórias.

_Ah! Vai me dizer que é super normal essa mulher te ligar do nada?

_Não, mas ela vai me explicar.

_Igor, você tem coisas mais importantes para fazer!

_Karen, a minha vida pessoal é importante e isso não está incluso na parte profissional. Por isso, por favor, pode pegar um táxi?

Ela abriu a porta do carro e a bateu com força. Respirei fundo. Karen me cansava com seus duelos verbais. Liguei o motor e acelerei.

Li Mendi
(lilivros.blogpot.com, conheça os outros livros da autora)

---> Leitoras, queridas, volto na segunda-feira com mais um capítulo. Vou ficar longe do pc sábado e domingo, por isso, não poderei postar. Deixo vocês com a curiosidade para saber qual o segredo que a mãe de Cris quer contar sobre a filha para Igor!

15 de nov de 2007

Cap 14: Des-controle (Igor)

_Quem procura acha. _ Karen deixou a revista cair em cima da mesa do café da manhã, onde eu comia minha torrada com requeijão. Continuei mastigando. _ Você está satisfeito agora? _ ela apertou com força o encosto da cadeira e me olhou com as bochechas levemente vermelhas de raiva.

_O que foi dessa vez? _ bebi meu suco de laranja com cenoura.

_Aquela jornalistazinha de quinta por quem você se apaixonou.

_Está escrito aí que eu me apaixonei por ela?

_Não, está escrito na sua testa!

_Então, está lendo errado. _ levantei-me e caminhei para o sofá, onde me sentei.

Achei o controle remoto da televisão em cima de uma almofada, mas Karen foi mais rápida e o pegou para depois arremessar em cima do outro sofá.

_Você não está entendendo o que está acontecendo.

_Se você puder me explicar... _ eu olhei para o teto, com a nuca recostada no sofá, entediado.

_Ela publicou uma versão bem diferente sobre a sua festa.

_É mesmo? Hum.

_Igor, ela acabou com a sua imagem!

_Será que pode falar mais baixo porque minha família ainda está dormindo? _ pedi, olhando-a na minha frente agitando a revista no ar.

_Está tudo bem por aqui? _ minha mãe apareceu na porta da sala.

_Está sim. _ Karen colocou os fios do cabelo que pendiam do coque atrás da orelha e respirou fundo.

_Eu ouvi vocês falando alto e pensei que...

_Desculpe lhe acordar, senhora. Mas o assunto é comigo e o seu filho e, se possível, em particular. _ Karen disse friamente, de costas para minha mãe, sem tirar os olhos de mim.

Vi a imagem do meu pai mais ao fundo, atrás de minha mãe Jeni, que se virou e o guiou com as mãos no peito para que não nos interrompesse.

_ O que diz a revista? _ perguntei, percebendo só ali que Karen não estava estressada à toa, ela nunca falaria naquele tom com meus pais.

_"Não me convidaram para esta festa rica" _ ela leu a manchete de capa da revista, segurando-a com as duas mãos bem na frente do meu rosto.

Havia uma foto da entrada da minha casa cheia de fãs e ao fundo imagens minhas bebendo com meus amigos e recebendo beijos no rosto de algumas atrizes.

Estendi a mão a peguei a revista. Ela sentou-se do meu lado e respirou fundo.

_Igor, essa frase é uma paráfrase da música do Cazuza.

_Eu sei. _ engoli em seco. _ “Não me convidaram pra esta festa pobre / Que os homens armaram pra me convencer/ a pagar sem ver toda esta droga/ que já vem malhada antes de eu nascer”. _ lembrei da letra em voz alta.

_Ela estava lá fora na hora em que você mandou dar o que sobrou do bolo para suas fãs. Veja as fotos! Elas comendo das migalhas da sua festa.

_Eu pensei que fosse uma boa idéia...

_Igor, ela entrevistou as garotas e colocou em caixa alta, a opinião idealizada que elas tinham da sua festa. Enquanto que, em contra-ponto, mostrou o que realmente acontecia aqui dentro.

_Não aconteceu nada em absoluto aqui dentro!

_Sim, Igor, aconteceu. Em jornalismo, tudo depende de como se conta a história! Olha na página 52! _ Karen folheou a revista com pressa. _ Ela expôs a conversa fútil das atrizes sobre você, colocou seu comportamento de hostilidade em não conceder uma entrevista! Por que diabos você não deu para ela as malditas aspas que ela queria? Eles só querem isso, uma boa frase! E você resolveu brincar justo com quem tem o poder de formar opinião?

_Eu não entendo, Karen, ela não trabalha para um site?

_Sim, só que ela vendeu a matéria como free lancer para esta revista cultural.

_Essa matéria é um absurdo, pelo que entendo de jornalismo, deve haver um mínimo de imparcialidade...

_Você não entende mesmo nada de jornalismo, Igor! O nome disso é “New Journalism”, que já vem desde Truman Capote, quando ele escreveu In Cold blood, “À sangue frio”, nos anos 60 e 70, nos Estados Unidos. Essa técnica mistura jornalismo tradicional com literatura. Neste caso, ela montou todo o enredo da sua festa sob o olhar daqueles que não participaram, que não foram convidados.

_ Não pensei que ela faria isso...

_Você tem que ser mais malicioso e confiar menos nas pessoas! Eu não posso consertar tudo que você faz! Ela fez uma matéria excepcional, muito bem escrita, com argumentos de psicólogos e sociólogos sobre a questão das celebridades se alimentarem da obsessão dos fãs.

_Essa revista é de esquerda, totalmente opinativa, quem lê isso? Só fala de política, de causas sociais. Não entendo o que eu faço aí?

_Não é para entender, é para simplesmente não estar aqui! Igor, quem lê isso aqui são os cineastas, diretores e roteiristas que fazem os filmes e novelas que vo-cê participa. _apontou com o dedo no meu braço.

Eu fiquei calado, não tinha o que argumentar.

_Essa imagem do bolo sendo servido no portão tem a força de alguns anos de trabalho duro para conseguir formar uma boa imagem sua. Se, pelo menos, você tivesse ido até lá dar um “oi” para suas fãs, o estrago não teria sido tão grande.

_Eu estava cansado.

_Eu não quero saber se, em parte, ela está certa por tudo que diz de você aqui, o meu trabalho é vender uma imagem sua. São negócios.

_Isso já está começando a me cansar. _ desabafei.

_Então, largue tudo. Vá viver em uma fazendinha mascando um graveto de mato. Porque o que você sabe fazer é só isso: atuar. Não fez faculdade, não investiu seu dinheiro em algum outro negócio. Você é uma imagem.

Karen ficou em silêncio por um tempo, já tinha acabado seu sermão.

_A caixa de e-mails está lotada e o telefone não pára de tocar. Vamos fazer um pronunciamento oficial.

_O que eu vou dizer?

_Que ela não tem credibilidade nenhuma para falar sobre a sua vida.

_Eu não queria falar nada...

_Essa é uma tática ruim. Se você provocou isso, então, agora tem a obrigação de dar uma declaração que te salve.

_Que horas?

_À tarde. Vou preparar um discurso. Eu já tomei minhas providências, liguei para a revista e disse a eles que vai lhes custar caro o processo de danos morais que vamos usar contra eles.

_Ela estava credenciada...

_Nada como um bom advogado para se debruçar sobre a lei de imprensa e o artigo 5º da constituição. Você vai sair por cima disso e ainda com uma boa grana no bolso.

Meu pai entrou na sala e pediu que Karen nos desse licença.

_Eu ainda tenho que confirmar com ele alg...

_Desculpe, mas eu também preciso falar com meu filho e, na escala de importância, eu ainda estou acima de você. _disse e Karen abaixou a cabeça. _ É em particular. _ acrescentou e ela saiu.

Eu levantei-me do sofá onde ele acabara de sentar.

_Já sei que vai começar um sermão também. _ comecei, antes que falasse qualquer coisa.

_Não sabe de nada. Sente-se.

Eu olhei-o e lembrei do nosso passado conflituoso.

_Você tem 22 anos, mas ainda me deve respeito. Senta aqui agora.

_Obedece seu pai, meu filho. _ minha mãe Jeni apareceu atrás de mim. _ E... por favor, não comecem tudo de novo, não briguem. _ ela pediu, já com a voz embargada e os olhos cheios de lágrimas.

Eu abracei-a e beijei seu rosto. Ela era a única a quem eu realmente deveria todo o agradecimento do mundo por ter conseguido chegar até ali, pois sempre acreditou em mim.

_Está tudo bem, mamãe. Fica tranqüila, tá?_ sorri e encostei minha testa na sua.

Respirei fundo e sentei no sofá. Minha mãe se pôs ao meu lado e eu fiquei entre os dois, de cabeça baixa, olhando fixamente para meus dedos das mãos cruzados.

_Eu não posso dizer que você faz o que sempre sonhei para você... _ meu pai começou com a voz seca.

_Ruan... _ minha mãe interferiu.

_Abri a caixa dos meus e-mails hoje e tive que ler os votos de solidariedade dos meus amigos para o que estão falando aí sobre você ser um farrento, que fica com todas as mulheres, que...

_Não acredite em tudo que a imprensa fala.

_Eu acredito no que eu vejo. _ ele foi enfático.

Engoli em seco e, por amor a minha mãe, não rebati.

_Por que não foi lá fora falar com suas fãs? _ minha mãe perguntou.

Eu continuei calado, senti as lágrimas virem aos olhos. Eu era capaz de representar qualquer papel, mas não conseguia manter-me centrado entre aquelas duas pessoas de peso na minha vida.

_Estão se passando algumas coisas comigo. _ confessei com toda a dificuldade do mundo, em uma voz que praticamente não saiu da garganta.

_Você está usando drogas? _minha mãe segurou meu braço.

_Não! _ ri. _ Vocês acham que todo artista cheira uma carreira de pó nas festas. _ pensei alto sobre aquela idéia preconceituosa.

_A Luísa nos contou que está com problemas. _ meu pai disse, cansado de tentar dar voltas na questão e me instigar a contar.

Olhei para frente e vi irmã Luísa encostada na porta do corredor, com o pequeno Natanael segurando sua mão também em silêncio. Ele não entendia nada do que se passava, mas sabia já por instinto que o rosto sério do papai indicava que não estava para brincadeira.

_Você não consegue ficar calada, não é mesmo? _ gritei com ela.

_Desculpe, Igor... Mas eu... _ ela aproximou-se.

_Igor! _ minha mãe me segurou e meu pai se levantou também.




_Me deixem! _ pedi, mas meu pai pôs sua mão forte sobre o meu braço e me conteve. _ Eu não quero falar sobre isso! _tentei escapar.

Meu pai me puxou e me abraçou. Minha mãe fez o mesmo por trás de mim e Luísa fechou o círculo ao meu redor. Eles me envolveram em uma corrente silenciosa e compreensiva de calor que me fez ceder. Parei de tentar me mover. Fiquei quieto e senti o apoio dos braços de meu pai sobre meus ombros, me agarrando com força de quem quer me proteger. Eu não queria que eles percebessem o que se passava comigo, não gostaria de decepcioná-los. Mas, eu não era forte o suficiente para fingir para eles também. Meus medos estavam me sufocando já há algum tempo e decidi sair da posição ofensiva.

_Desculpem por eu não ser aquilo que querem... _ chorei no peito do meu pai, molhando sua camisa. _ Eu tento, mas sempre querem mais._ desabafei. _ Eu não consigo mais sair sozinho na rua. Eu sinto que tem alguém me perseguindo, espreitando para ver se eu vou errar. Fico com um pânico enorme. _ contei.

Minha mãe beijou minha nuca. Luísa fez um carinho no meu rosto e enxugou minhas lágrimas com o polegar, ela chorava também.

_Estamos com você, mano. _ sorriu e repousou o rosto sobre o braço forte do meu pai. _ Vamos te ajudar, tá? Somos a sua família, lembra?

_Levem o Natanel para dar uma volta, vocês duas. _ meu pai pediu e elas, prontamente, saíram.

Eu me soltei dele e sentei no braço do sofá. Ficamos sozinhos outra vez.

_Eu não vou pedir para que não continue sua carreira. _ ele começou. _ Mas, se saiu de casa para ser feliz, eu ao menos quero ter a certeza de que você realmente é feliz. Vamos te levar até um psicólogo.

_Tudo bem. _ aceitei.

_Precisa começar a tomar atitudes certas. Pode começar procurando por essa moça. Acho que um deve explicação ao outro.

_Eu não quero...

_É o papel de um homem.

_Você não leu o que ela escreveu...

_Não importa, eu soube que você a ignorou a festa inteira. Foi justo chamá-la aqui para pisá-la? Que espécie de caráter foi esse que te moldaram?

Soltei o ar dos pulmões, sem argumentos.

_Vou pagar um profissional para te ajudar, mas eu mesmo posso dizer onde está a raiz disso tudo.

_Não é na minha carreira... _ adiantei-me.

_Não, não é na sua carreira. _ concordou. _ É em quem administra sua carreira.

_Ãnh?

_Por que aquela mulher estabelece um domínio tão grande sobre você? A ponto de confiar mais nela que em seu coração manda? Você não sabe do que gosta, do que quer, Igor!

_Pai, é um outro mundo, você não vai entender.

_Eu, realmente, não quero entender. Mas eu vejo tudo, claramente. Enquanto ela estiver perto de você te manipulando como uma marionete, você vai continuar com pânico de errar. Cair e se levantar faz parte também. Não pode viver com esta perseguição pela perfeição construída, maquiada, encenada! _ ele parou de falar por alguns segundos, pensou mais um pouco e continuou. _ Há uma grande diferença entre poder e respeito. Você deve ganhar o respeito das pessoas para que não precise usar a força ou o dinheiro para mantê-las perto de você. O que fez ontem foi usar o seu poder de celebridade para pisar naquela moça e rebaixá-la. Eu nem gosto desta palavra “celebridade”. _ repetiu com ironia. _ Para mim, você não é celebridade, é só um garoto.

_Eu vou pensar sobre isso. _ falei-lhe e fui para o meu quarto, queria ficar sozinho, longe de todos.

Li Mendi

=> Se você quiser receber um e-mail a cada capítulo publicado, então, deixe seu endereço nos comentários abaixo com o pedido! Beijos da Autora.

14 de nov de 2007

Cap 13: Na festa dos deuses, os mortais ficam de fora (Cris)

Agradeci ao taxista e peguei o troco. Abri a porta e olhei para a casa de Igor. Estava iluminada por luzes azuis e prata. Um tapete vermelho foi estendido para receber os convidados. Uma pequena multidão de fãs estava contida por cordas que separavam os deuses dos mortais.

Seguranças de terno e rádios transmissores controlavam a chegada dos convidados e o credenciamento dos jornalistas para que tudo saísse com requinte de noite de Oscar.
Assim que passei pelo portão, tirei a máquina fotográfica da bolsa e a pendurei no pescoço. Segurei o bloco de anotações e destampei a caneta.

_Hum, você veio. _ ouvi uma voz feminina atrás de mim, quando eu dava a primeira olhada nas mesas.

Virei-me e vi Luísa, a irmã de Igor.

_Oi. Desculpe por ter saído tão rápido, hoje de manhã. _disse-lhe com um sorriso.

_Tem que pedir desculpas para ele. _ ela olhou para algum ponto à minha direita.

Vi Igor conversando com três jornalistas. Estava vestido de calça jeans escura e blusa branca estampada de desenho de grafite azul. O cabelo que era sua marca estava espetado de gel com suas pontas douradas.

_Seu pais estão na festa também? _ perguntei.

_Não, eles não gostam. Na verdade, meu pai é que não gosta, ele é todo formal. _ ela comentou, balançando a cabeça para os lados.

_É? Por quê?

_Ele é militar, não gosta muito das câmeras, é uma pessoa discreta.

_Hum.

_Então, ficaram você e seu irmão?

_Só eu. Isso porque implorei.

_Seu irmão aceitou bem?

_Ele quis ficar, mas meu pai levou ele à força.

_Hum-hum.

Peguei o meu bloco e anotei tudo que disse, mas fui interrompida por Igor, que colocou as mãos sobre os ombros da irmã.

_O que eu disse para não falar com jornalistas sem mim? _ ele brigou com Luísa.

_Mas ela é sua amig...

_Vejo que veio. _ Igor se dirigiu a mim, ignorando o que a irmã falava. _ Tudo que ela falou não pode ser publicado. _ desautorizou, invalidando meu trabalho. _Você não queria conhecer o Jorge Portuário? _ ele apontou para o portão e os olhos da irmã se iluminaram.

Luísa foi receber o cantor pop que acabava de chegar.

Eu bati com a caneta no caderno e tentei manter-me tranqüila e profissional.

_É... pode responder minhas perguntas agora?

_Não. _ Igor bebeu o vinho que trazia em mãos e virou-se de costas.

Mordi o canto da boca e arregalei os olhos, soltei o ar dos pulmões.

_Vamos fazer valer sua folga, Cris. _ disse para mim mesma e olhei ao meu redor.

Entrevistei algumas atrizes não muito famosas de novela, aquelas que falam demais e torcem para terem uma foto em alguma coluna social a fim de alavancarem suas carreiras.

Tentei mais uma vez me aproximar de Igor, quando alguns jornalistas tomavam nota do que ele dizia. Mas repetiu o mesmo que fizera quando eu chegara. Se afastou prontamente e pediu licença. Era impressão minha ou estava dificultando meu trabalho propositalmente?

Aquela brincadeira de mau gosto já estava me tirando do sério. Não podia sair dali sem uma boa apuração. Na terceira vez que se negou a me dar atenção, eu perdi a paciência.

_Então, por que me chamaram para cobrir a festa? Eu não pedi para estar aqui.

Igor virou-se para mim e respondeu secamente.

_Nem eu. _ deu de ombros e voltou para os seus amigos.

Senti as lágrimas virem aos meus olhos. Aquilo estava sendo demais para meu psicológico. Em outra ocasião, eu teria encarado sua recusa com naturalidade. Já estava acostumada com o ego das celebridades. Mas, eu tinha me matado de trabalhar no temporal de ontem, fiquei toda a tarde de hoje escrevendo sobre a morte de um ator, agora estava fazendo hora extra cansada e ainda tinha que tolerar o seu desprezo para me punir?

Caminhei até o fundo da casa e fui ao banheiro na área de serviço. Na saída, encontrei um cozinheiro fumando. Pedi-lhe um cigarro. Ele acendeu com seu isqueiro.

_Obrigada.

A música alta chegava até ali. Ri, adorava aquele ritmo, lembrei da minha viagem à Argentina com os amigos da faculdade quando me formei, há 5 anos. A canção dizia que, quando chegasse o sol da manhã, eu estaria ao seu lado. Era exatamente isso. Por mais que tentasse esquecer a existência de Igor, era puxada como ímã para o centro da sua vida. Tentei fazê-lo mal, mas em pensar que foi coragem, quando na verdade foi medo, como dizia a canção:




Acércate que a lo mejor/ no te das cuenta que mi amor/ no es para siempre/ porque hay noches que se apagan cuando duermes/ díselo a tu corazón/ no habrá mas fuente de dolor/ no digas que no pienso en ti/ no hago otra cosa que pensar/acércate un poco más/ no tengas miedo a la verdad/ que hay cuando llegue la mañana y salga el sol/ tú volverás a mi lado y gano yo/ y ahora vete, vete, vete, vete/ vete y pásatelo bien, por nosotros dos no, corazón

te lo agradezco pero no/ te lo agradezco mira niña pero no/ yo ya logré dejarte aparte/ no hago otra cosa que olvidarte/ te lo agradezco pero no/ te lo agradezco mira niña pero no/ te lo agradezco corazón

pero no, tú sabes bien que/ Acércate un poco más/ no ves que el tiempo se nos va/ da rienda suelta a lo que sientes/ si no lo haces mala suerte/ porque al final, si no lo ves/ puede que no me escuches, pero lo diré/ que hay, cuando salga el sol y llegue la mañana/ yo volveré a tu lado, a tu lado con más ganas/ y ahora, vete, vete, vete, vete/ vete y pásatelo bien, por los dos

te lo agradezco pero no/ te lo agradezco mira niña pero no/ yo ya logré dejarte aparte/ no hago otra cosa que olvidarte/ te lo agradezco pero no/ te lo agradezco mira niña pero no/ te lo agradezco corazón

te lo agradezco pero no/ te lo agradezco mira niña pero no/ yo ya logré dejarte aparte/ no hago otra cosa que olvidarte

tengo conciencia del daño que te hice/ pero al mismo tiempo no me siento responsable/ de lo que pudiste pensar que fue coraje no fue nada más que el miedo, miedo

te lo agradezco pero no/ te lo agradezco mira niña pero no/ yo ya logré dejarte aparte/ no hago otra cosa que olvidarte/ te lo agradezco pero no/ te lo agradezco mira niña pero no/ yo ya logré dejarte aparte/ no hago otra cosa que olvidarte no hago otra cosa que olvidarte corazón/ por la mañana temprano y luego en las tarde, en la noche

cuando estoy en el vacilón,no puedo na más que olvidarte, corazón/ te lo agradezco/ te lo agradezco pero no/ te lo agradezco mira niña pero no/ yo ya logré dejarte aparte/ no hago otra cosa que olvidarte

te lo agradezco pero no/ ya te he dejado aparte/ ahora ya no necesito más de ti/ yo ya logré dejarte aparte/ ya estoy así estoy bien corazón no me vale/ que me vengas así llorando, una vez más

te lo agradezco/ tus ojos lindos, tu cuerpo bello,lo siento niña pero no/ al lado mío siempre corazón,cuando salga el sol, yo estaré ahí,ahora vete, vete, vete al vacilón.


Traguei com força. Estava precisando relaxar. Puxei uma cadeira junto às outras dezenas de reserva. Sentei-me de pernas abertas, puxei o vestido para frente para não aparecer minha calcinha. Apoiei o cotovelo na coxa e soltei a fumaça pela boca.

Olhei para o meu bloco e vi as respostas que tinha. Não faria nenhuma matéria singular com aquilo. Seria melhor ter usado as informações das agências de notícias que enviaram seus próprios jornalistas.

Bati o cigarro com o dedo para a cinza cair no chão de cimento. O vento balançou meu cabelo para trás. O céu estava com poucas nuvens, sendo possível ver algumas estrelas. Meus olhos desceram um pouco e vi alguns vizinhos da sacada de uma casa, observando a festa. Isso me fez lembrar das fãs se acotovelando para ver um pouco da festa através do portão.

Traguei o cigarro novamente e olhei para o bloco de anotações. Uma idéia me ocorria quando fui surpreendida por Igor que chegou de mãos nos bolsos. Olhei-o dos pés à cabeça e meus olhos pararam no seu sorriso branco, emoldurado pelos lábios vermelhos. Toda atenção que me negara queria me dar agora de bom agrado?

Odiei-me por ter gostado do cheiro delicioso do seu perfume seco e impregnante que mexeu com meus hormônios, me trazendo um frio na barriga. Eu não posso ficar tão afetada por esse garoto de carinha sedutora. Eu sou uma jornalista séria, não há chance de ter relação nenhuma com minhas fontes!

Imagina se eu ia querer que Igor me pegasse pelos braços, desse passos à frente e me colocasse contra aquela parede?! Beijaria minha boca com vontade e meus seios ficariam espremidos contra seu peitoral forte. As minhas mãos apressadas tocariam sua cintura, sentiriam o tecido grosso do jeans da calça, subiria mais um pouco e tocaria, sem querer-querendo, na pele. Puxaria sua camisa para tocar-lhe as costas. Ele me tiraria todo o ar com sua boca úmida e quente... O seu perfume seco e masculino me deixaria com mais vontade e... Não! Cris, corta! Corta! Corta! Que pensamentos mais irresponsáveis! Isso não é ético, é proibido!

Será que eu transpareci essas idéias tão loucas através de algum gesto? Não, ele não podia sonhar que eu me senti, por um segundo, atraída por sua beleza. Nunca! Que coisa mais ridícula, Cris! Você não tem vergonha na cara?

_Não sabia que fumava. _ comentou, timidamente, como um menino medroso.

_Não fumo. _ respondi, agora sendo minha vez de ignorá-lo. Continuei olhando para frente.

_Dá para ver. _ riu.

_É só para relaxar. _ dei de ombros. Cruzei as pernas e balancei o pé, fazendo o salto da bota bater no metal da cadeira. _ Fumo socialmente. Não sou viciada.

Levantei-me e Igor se pôs na minha frente. Olhamo-nos longamente. Eu fui a primeira a abaixar os olhos e caminhar para frente. Ele perguntou, quando passei ao seu lado:

_Não vai perguntar nada? _estranhou.

Parei, pensei por uns segundos.

_Eu já tenho o que quero. _ disse-lhe.

_Mas eu não falei nada!

Olhei dentro dos seus olhos que estavam mais amendoados pela luz.

_Exatamente isso, nada.

Entrei na cozinha e vi alguns cozinheiros conversando.

Perguntei-lhes se algum deles tinha filhas e se elas eram fãs de Igor. Tomei nota de tudo. Depois, entrevistei alguns garçons. Por fim, dirigi-me para a saída e Igor, mais uma vez, resolveu dar-me atenção:

_Já vai?

_Não. O trabalho está só começando. _ virei-me de costas.

Peguei a minha máquina fotográfica e tirei foto da casa atrás das grades. Tinham muitas meninas ali a serem entrevistadas. Aquelas fãs mal sabiam o quanto me seriam úteis. E os vizinhos também seriam acordados pelo interfone para que eu pudesse por minha idéia em prática.


Li Mendi

13 de nov de 2007

Cap 12: Ironia do destino (Igor e Cris)

_ Aqui está o que me pediu. _ Karen entregou-me um papel escrito à mão.

Eu estava molhado e os pingos de água do meu cabelo caíram em cima da tinta. Sentei na cama enrolado com a toalha na cintura.

Karen abriu o guarda-roupa e tirou uma calça comprida escura e uma blusa de estampa colorida, jogou sobre a cama. Olhei-a enquanto escolhia a roupa que eu iria vestir. Ela tinha o cabelo de um loiro queimado, escuro, fino e ralo, sempre preso em um coque. O corpo magro e esguio quase me fazia crer que o tempo consumira sua carne e só lhe deixara o suficiente para cobrir os ossos. Os lábios muito finos, pintados discretamente, em um constante rosa quase da cor da própria boca.

Ela tem uma queda por você. A voz adolescente da minha irmã me veio à mente e agora eu procurava a verdade para aquelas palavras em algum gesto, olhar, mas é como eu disse, Karen era quase invisível de tão contida em si, mesmo que nutrisse sentimentos por mim, não conseguiria perceber.

Encontramo-nos quando eu ainda era um garoto de dez anos, fazendo um teste para uma novela. Ela abordou a minha mãe com seu cartão e disse-lhe que queria me agenciar. Nem sabíamos o que era aquilo, mas Karen visionava o meu potencial artístico e enxergava o céu aonde iria me colocar como estrela. Cuidou de cada passo para que eu não pisasse em falso e me ensinou como ser duas pessoas: o Igor que está do portão para dentro de casa e o Igor que está na tela da TV da casa das pessoas. Hoje, eu sou isso: uma metamorfose criada por aquela mulher que todos os dias agendava a minha vida e a guiava.

Talvez o que Luísa vira fora apenas fruto da imaginação movida pelo ciúme. Ela nunca chegou a entender eu ter saído de casa por conselhos de Karen para abster a minha família dos efeitos colaterais do meu sucesso. Será que Karen estaria querendo me afastar deles? Essa pergunta me incomodava, às vezes, mas me parecia coerente o argumento de que aqui estava mais perto do centro urbano e do meu trabalho, além de eu poder gozar da independência e liberdade de ter a minha própria vida. Era tão lógico que a pergunta me fazia, ao mesmo tempo, me sentir mal e egoísta em desconfiar da minha assessora.

Olhei para o papel na minha mão com o telefone do trabalho de Cristiane, endereço de sua casa, e-mail e uma série de dados que excedia o que eu havia pedido a Karen para pesquisar.

_Eu quero que telefone para onde ela trabalha e peça para vir cobrir a festa. Consiga um credenciamento para ela entrar.

_Por que ela? _ perguntou.

_Eu quero. _ respondi.

Karen se aproximou de mim e falou com aquela voz sinistra de quem sempre pode prever o futuro.

_Os seus caprichos ainda vão te levar à queda.

_Eu posso. _ falei-lhe, usando do poder que um dia ela colocou nas minhas mãos.

_Você pode. Mas nem tudo que você pode lhe convém.

_Quero ela aqui, consiga isso.

_Eu não mando no trabalho dos jornalistas, Igor. Existe um abismo que separa as nossas profissões. Eu sou tão jornalista quanto eles. Temos o mesmo diploma. Mas os assessores imploram e os jornalistas de jornais decidem, são assim as regras do jogo.

_Use os melhores argumentos que você tem.

_O preço precisa valer a pena e qual é? _perguntou.

_É um segredo.

_Não existe segredo entre nós.

_Sim, existem muitos.

_Se eu não souber o que se passa com você, não vou poder estar preparada para as besteiras que vai cometer. _advertiu.

_Eu só quero ela na minha festa.

_Por que não escolhe um outro dia para trazer mais essa para sua cama?

_Não fale assim comigo.

_Eu sou paga para te manter no topo e isso inclui eu falar como quiser. _ disse entre os dentes, perdendo a paciência comigo. _Vão estar outros jornalistas aqui, as câmeras e os microfones estarão ligados e você quer trazê-la para o meio disso? Por que eu sinto que tem cheiro de vingança nesse seu desejo de obrigá-la a vir cobrir a sua festa?

_Eu não falei em vingança.

_Está no brilho do seu olho.

_São ordens. _ finalizei.

Peguei a roupa em cima da cama e fechei a porta do banheiro.

***

A redação nem parecia estar em pleno fim de semana. Muitos jornalistas foram convocados a abandonar seus planos de diversão para voltarem ao trabalho sob condições extraordinárias.

Minha chefe distribuía tarefas em voz alta. Tomás ficaria responsável pelas fotos do ator que acabara de morrer. Luís teria que entrar em contato com a agência de quem éramos associados. Josiane buscaria todos os trabalhos realizados por ele durante sua carreira. Fabiano cuidaria de uma apresentação em flash do enterro, com depoimentos de amigos. Eu ficaria com o acidente em si.

A pizza logo iria chegar e aquele seria nosso almoço sobre o teclado. As televisões ligadas nos canais noticiosos não paravam de exibir imagens da batida de carro.

_Já subi a primeira nota no site. Vamos lá pessoal, a cada segundo estamos perdendo para a concorrência! _ Minha editora passeou pela redação, parando em cada terminal de computador para ver se todos estavam sob o ritmo que ela impunha.

Quando, finalmente, se contentou e voltou para sua sala, eu consegui relaxar. Parei os dedos sobre o teclado e respirei fundo. A imagem de Igor cruzou o meu pensamento.

Ele parecia estar na minha frente, sentado no sofá, conversando comigo sobre seus problemas, agora. O cabelo picotado e tingido de dourado nas pontas. O rosto de garoto com um pouco de barba rala por fazer. Braços fortes que terminavam em mãos delicadas.


Eu senti que alguma coisa tinha sido mexida dentro de mim, alterando o lugar dos sentimentos, como quem troca de posição os móveis da sala . Era quase ridículo eu estar atraída por alguém mais jovem como ele. O fato de ser famoso não poderia lhe dar uma “permissão de entrada no meu coração”.

Abaixei a cabeça e a afoguei nas mãos. Eu sei porque tinha sido tão estúpida e agressiva com Igor. Ele estava me fazendo querer ficar mais próxima dele e eu não desejava isso. Precisava fazê-lo me repelir, mas era inútil. Mal pisco os olhos e me vejo no centro de sua vida. Não seria diferente aquela noite.

Cheguei ao meu apartamento muito cansada. Cruzei com o senhor Valdir nas escadas.

_Você sabe que já está atrasada em dois meses de aluguel, não sabe?

_Sei. Eu vou lhe pagar. _ olhei para as chaves em minha mão. _ Eu tive que comprar remédios para minha mãe e...

_É o último mês que espero. _ ele desceu as escadas e eu fiquei ali segurando o corrimão por um tempo, ainda. Cansada de tudo, desmotivada.

Tomei um impulso e subi. Abri a porta do meu apartamento e fui recebida por minha gatinha Moli.

_Oi, minha linda... _ abaixei e fiz um afago em sua cabeça.

Joguei a chave em cima do móvel que havia no corredor da entrada. Olhei meu rosto no espelho oval acima dele. Estava abatida. Abri os botões da blusa e fiquei só de sutiã.

Liguei o chuveiro para um banho demorado. Ouvi meu celular tocar na sala. Mantive minha cabeça debaixo d’água querendo me enganar de que era só ilusão, alucinação, ressonância mental depois de passar o dia ouvindo tantos telefones tocando na redação. Passado um tempo, ele parou de tocar.

Sequei-me e caminhei até a sala. Abri o celular para ver quem estava ligando. Era minha chefe. O que ela queria ainda?

Fui até meu quarto. Peguei uma camisola em cima da cadeira ao lado da prateleira e vesti. Procurei uma calcinha preta na gaveta do guarda-roupa de duas portas.

O telefone começou a tocar em cima do criado-mudo. Sentei-me na cama e atendi.

_Cris?

_Oi.

_É a Ludimila. _ disse minha chefe.

_Pode falar. _equilibrei o fone entre o ouvido e o ombro. Enfiei os pés na calcinha e me levantei para suspendê-la.

_Tenho uma coisa para te propor.

_Ãnh. _ ajeitei a camisola e voltei a sentar-me.

_A assessora do Igor Frinzy me ligou. Ele está dando uma baita festa de aniversário.

_É? Hum. _ tentei mostrar interesse, mesmo já sabendo bem mais do que ela imaginava.

_Você podia cobrir a festa e ficar de folga na segunda-feira.

Fiquei calada por alguns segundos refletindo nas conseqüências de dizer “não”. Eu tinha que renovar o meu contrato com o site, era importante mostrar interesse.

_Tudo bem. Eu faço. _aceitei.

_Ótimo. Vou te passar o endereço.

Eu fingi que estava anotando e depois desliguei. Tinha de cor o caminho para a casa dele.

Deitei minha cabeça no travesseiro. Olhei para o teto e ri, cansada. Levei a mão à testa. Que ironia, eu estava mais uma vez sendo levada para perto de Igor.


Li Mendi

12 de nov de 2007

Cap 11: Psicologia Reversa (Igor)

Segurei a grade da varanda com força e abaixei a cabeça fazendo uma careta de raiva.

_Gênio forte da garota, hen? _ ouvi a voz do meu pai atrás de mim.

Virei o rosto para o lado e o vi com uma xícara de café na mão, olhando para o portão.

_Onde achou esta felina aí?

_Nem queira saber. _ cruzei os braços, estava com o sangue fervendo ainda.

_Ah! Mas eu entendo muito sobre isso. _ ele sentou-se na cadeira e puxou as pernas da calça para se acomodar melhor.

Sentei também ao seu lado calado, bravo.

_Como pode ela ser assim? _ perguntei em uma explosão de raiva e ele continuou saboreando seu café.

_Elas podem tudo. _ disse expansivamente.

_Pode coisa nenhuma. _ bati o pé no chão com um ácido gosto de vingança na boca. _ Ela vai ver só o que vou aprontar para ela.

_Vai reverter tudo contra si mesmo. _ advertiu.

_Ela pensa que fala comigo assim e depois vai embora e pronto? Ah! Ela não me conhece.

_Igor, experiência de caso, eu brigava com sua mãe mais que dois lutadores no ringue e olha só, cá estão você e seus irmãos como prova de que o melhor é usar a força do sentimento para o lado bom da coisa que é o amor.

_Amor? Eu não posso amá-la, mal nos conhecemos.

_Se já está assim afetado, imagine quando conhecer mais. _ riu. _ Como vai a vida, meu garoto? _ ele estendeu o braço e fez um afago na minha nuca.

_Tenho uns roteiros para ler, acho que vou começar uma novela.

_Bom, isso é bom. _ deu dois tapinhas na minha coxa direita. _ Esse é o meu garoto. _ puxou-me com o braço em volta do meu pescoço como um gancho e me beijou o topo da cabeça. _ Liga para ela depois.

_Entrar no joguinho dela? Eu odeio joguinhos!

_Então, faz o que ela disse, esquece. Vou falar com sua mãe, vamos dar uma volta, ela quer fazer compras.

_Tudo bem. _ continuei sério, olhando fixamente para o portão por onde ela tinha saído. _ Pai... _ chamei-o, antes que passasse pela porta da varanda para entrar. _ É bom ter vocês aqui.

Ele sorriu. Não demorou muito e eu entrei também. Expliquei para Natanael que não estava com clima para jogar agora e fui para o quarto. Luísa entrou em seguida.

_Como está, mano? _ sentou-se ao meu lado na cama.

_Eu é que pergunto. _ olhei para ela, bonita como a mamãe. _ Ainda lucrando muito com meus autógrafos superfaturados na escola?

_Um pouco... _ ela riu e me abraçou. _ Sentimos tanta saudade de você. _ apertou-me e beijou meu rosto. _ Eu te vejo mais na TV que com a gente.

_Desculpe, Lu. Eu amo você sabia? _ esmaguei-a com um abraço até ouvir seu gritinho.

_Vai ter muito gatinho na festa hoje?

_Para você, nenhum! Você ainda brinca de boneca.

_Ah, Igor! Que ridículo você! Eu te mandei uma listinha por e-mail de todos os que eu queria conhecer!

_Eu sei, boba, eu encaminhei a lista para a Karen.

_Hum, aquela bruaca, sabe que não gosto dela.

_Ela é eficiente. _ defendi.

_E gosta de você!

_A Karen?! _ ri alto. _ Não viaja, Lu!

_Nós mulheres enxergamos as coisas mais nitidamente.

_Vocês inventam, isso sim!

_Igor, ela tem uma queda por você!

_A Karen é tão séria, toda embrutecida, quase um homem-macho.

_Nossa, vocês homens, quando querem acabar, conseguem ser pior que a gente. _ ela fez uma careta e balançou a cabeça para os lados. _ E quem é o mulherão da sua cama, ãnh?

_Que mulherão o quê? _ fiz pouco caso, Luísa era mais interrogadora que uma coletiva de imprensa cheia.

_Anda, manda aí o perfil dela. _ bateu palmas.

_Currículo nenhum, nunca te vi tão curiosa.

_Você sabe que sempre fui curiosa! Quem é ela, Igor?

_Tá, se eu te contar você não vai acreditar...

_Conta! _ seus olhos brilharam e ela deu um pulinho sentada sobre o colchão de molas. _ Como foi?

Tentei resumir a história e não a abstive do detalhe da minha crise de pânico.

_Você ainda não contou para o papai sobre isso?

_Não... Mas estou começando a ficar preocupado...

_A Cris está certa, tem que procurar ajuda.

_Eu vou.

_Agora... Adorei o encontro de vocês! Parece filme. Ela tem quantos anos? Nossa, parece bem madura.

_25, quase 26.

_Ela é papa anjo! _ deu um gritinho.

_Hei! Eu já sou um homem.

_Ah! Mas minhas amigas de 15 ainda querem te pegar. _ riu.

_Tudo bem, também não dispenso.

_Safado mesmo. _ empurrou-me. _ Tu não presta, hen? Mas, hei, tenta se reconciliar com ela.

_Eu? _ perguntei sarcástico.

_Olha o orgulho, Igor...

_Lu, ela não me contou que era jornalista!

_Mas foi pelos motivos que ela explicou...

_Precisava ter falado daquele jeito comigo?

_Igor, pelo que me contou, ela já foi machucada por outra pessoa, deve estar cheia de medos e traumas. É mais fácil ela tentar te ferir para você se afastar e ela ficar em uma posição segura.

_Hei! Onde está aprendendo essas coisas?

_Eu já estou crescendo tá?! E não dispenso seus amiguinhos de 20.

_Que safadinha você está me saindo! _ bati com a ponta do dedo no seu nariz arrebitado.

_Aceita o desafio que ela propôs e conquiste-a.

_Desafio?

_Ah! Igor, será que eu vou ter que te ensinar tudo? É psicologia reversa, ela te mandou esquecê-la porque quer que você corra atrás dela.

_Está brincando?

_É! Ela não te convidou para tomar café? Agora você convida para almoçar.

_Só se for para ela servir meu fígado, né?

_Quem está com mais medo, você ou ela? _ repetiu a frase de Cris.

_Vocês estavam ouvindo a minha briga?

_Se não estivessem falando tão alto...

Karen entrou no quarto e pediu licença.

_Você está aí... Temos muitas coisas para ver sobre a festa. _ abriu a agenda.

_Vou sair com a mamãe. _ Lu deu-me um beijo na bochecha e saiu.

_A lista está cheia e acho que vamos conseguir sair em todas as revistas. Vai ter um batalhão de jornalistas. _ comemorou eufórica.

_Quero que descubra o endereço onde trabalha uma jornalista.

_Para quê?

_É pessoal.

_Pessoal?

_Cristiane é o nome dela, trabalha para um site, tem cabelo encaracolado, 25 anos.

_Mas...

_Quero isso imediatamente. _ avisei-lhe. _ Vou tomar um banho. _ entrei no banheiro antes que tivesse que transcorrer considerações sobre o quanto tinha de pessoal naquilo.

Li Mendi
(www.lianotacoes.blogspot.com)