15 de nov de 2007

Cap 14: Des-controle (Igor)

_Quem procura acha. _ Karen deixou a revista cair em cima da mesa do café da manhã, onde eu comia minha torrada com requeijão. Continuei mastigando. _ Você está satisfeito agora? _ ela apertou com força o encosto da cadeira e me olhou com as bochechas levemente vermelhas de raiva.

_O que foi dessa vez? _ bebi meu suco de laranja com cenoura.

_Aquela jornalistazinha de quinta por quem você se apaixonou.

_Está escrito aí que eu me apaixonei por ela?

_Não, está escrito na sua testa!

_Então, está lendo errado. _ levantei-me e caminhei para o sofá, onde me sentei.

Achei o controle remoto da televisão em cima de uma almofada, mas Karen foi mais rápida e o pegou para depois arremessar em cima do outro sofá.

_Você não está entendendo o que está acontecendo.

_Se você puder me explicar... _ eu olhei para o teto, com a nuca recostada no sofá, entediado.

_Ela publicou uma versão bem diferente sobre a sua festa.

_É mesmo? Hum.

_Igor, ela acabou com a sua imagem!

_Será que pode falar mais baixo porque minha família ainda está dormindo? _ pedi, olhando-a na minha frente agitando a revista no ar.

_Está tudo bem por aqui? _ minha mãe apareceu na porta da sala.

_Está sim. _ Karen colocou os fios do cabelo que pendiam do coque atrás da orelha e respirou fundo.

_Eu ouvi vocês falando alto e pensei que...

_Desculpe lhe acordar, senhora. Mas o assunto é comigo e o seu filho e, se possível, em particular. _ Karen disse friamente, de costas para minha mãe, sem tirar os olhos de mim.

Vi a imagem do meu pai mais ao fundo, atrás de minha mãe Jeni, que se virou e o guiou com as mãos no peito para que não nos interrompesse.

_ O que diz a revista? _ perguntei, percebendo só ali que Karen não estava estressada à toa, ela nunca falaria naquele tom com meus pais.

_"Não me convidaram para esta festa rica" _ ela leu a manchete de capa da revista, segurando-a com as duas mãos bem na frente do meu rosto.

Havia uma foto da entrada da minha casa cheia de fãs e ao fundo imagens minhas bebendo com meus amigos e recebendo beijos no rosto de algumas atrizes.

Estendi a mão a peguei a revista. Ela sentou-se do meu lado e respirou fundo.

_Igor, essa frase é uma paráfrase da música do Cazuza.

_Eu sei. _ engoli em seco. _ “Não me convidaram pra esta festa pobre / Que os homens armaram pra me convencer/ a pagar sem ver toda esta droga/ que já vem malhada antes de eu nascer”. _ lembrei da letra em voz alta.

_Ela estava lá fora na hora em que você mandou dar o que sobrou do bolo para suas fãs. Veja as fotos! Elas comendo das migalhas da sua festa.

_Eu pensei que fosse uma boa idéia...

_Igor, ela entrevistou as garotas e colocou em caixa alta, a opinião idealizada que elas tinham da sua festa. Enquanto que, em contra-ponto, mostrou o que realmente acontecia aqui dentro.

_Não aconteceu nada em absoluto aqui dentro!

_Sim, Igor, aconteceu. Em jornalismo, tudo depende de como se conta a história! Olha na página 52! _ Karen folheou a revista com pressa. _ Ela expôs a conversa fútil das atrizes sobre você, colocou seu comportamento de hostilidade em não conceder uma entrevista! Por que diabos você não deu para ela as malditas aspas que ela queria? Eles só querem isso, uma boa frase! E você resolveu brincar justo com quem tem o poder de formar opinião?

_Eu não entendo, Karen, ela não trabalha para um site?

_Sim, só que ela vendeu a matéria como free lancer para esta revista cultural.

_Essa matéria é um absurdo, pelo que entendo de jornalismo, deve haver um mínimo de imparcialidade...

_Você não entende mesmo nada de jornalismo, Igor! O nome disso é “New Journalism”, que já vem desde Truman Capote, quando ele escreveu In Cold blood, “À sangue frio”, nos anos 60 e 70, nos Estados Unidos. Essa técnica mistura jornalismo tradicional com literatura. Neste caso, ela montou todo o enredo da sua festa sob o olhar daqueles que não participaram, que não foram convidados.

_ Não pensei que ela faria isso...

_Você tem que ser mais malicioso e confiar menos nas pessoas! Eu não posso consertar tudo que você faz! Ela fez uma matéria excepcional, muito bem escrita, com argumentos de psicólogos e sociólogos sobre a questão das celebridades se alimentarem da obsessão dos fãs.

_Essa revista é de esquerda, totalmente opinativa, quem lê isso? Só fala de política, de causas sociais. Não entendo o que eu faço aí?

_Não é para entender, é para simplesmente não estar aqui! Igor, quem lê isso aqui são os cineastas, diretores e roteiristas que fazem os filmes e novelas que vo-cê participa. _apontou com o dedo no meu braço.

Eu fiquei calado, não tinha o que argumentar.

_Essa imagem do bolo sendo servido no portão tem a força de alguns anos de trabalho duro para conseguir formar uma boa imagem sua. Se, pelo menos, você tivesse ido até lá dar um “oi” para suas fãs, o estrago não teria sido tão grande.

_Eu estava cansado.

_Eu não quero saber se, em parte, ela está certa por tudo que diz de você aqui, o meu trabalho é vender uma imagem sua. São negócios.

_Isso já está começando a me cansar. _ desabafei.

_Então, largue tudo. Vá viver em uma fazendinha mascando um graveto de mato. Porque o que você sabe fazer é só isso: atuar. Não fez faculdade, não investiu seu dinheiro em algum outro negócio. Você é uma imagem.

Karen ficou em silêncio por um tempo, já tinha acabado seu sermão.

_A caixa de e-mails está lotada e o telefone não pára de tocar. Vamos fazer um pronunciamento oficial.

_O que eu vou dizer?

_Que ela não tem credibilidade nenhuma para falar sobre a sua vida.

_Eu não queria falar nada...

_Essa é uma tática ruim. Se você provocou isso, então, agora tem a obrigação de dar uma declaração que te salve.

_Que horas?

_À tarde. Vou preparar um discurso. Eu já tomei minhas providências, liguei para a revista e disse a eles que vai lhes custar caro o processo de danos morais que vamos usar contra eles.

_Ela estava credenciada...

_Nada como um bom advogado para se debruçar sobre a lei de imprensa e o artigo 5º da constituição. Você vai sair por cima disso e ainda com uma boa grana no bolso.

Meu pai entrou na sala e pediu que Karen nos desse licença.

_Eu ainda tenho que confirmar com ele alg...

_Desculpe, mas eu também preciso falar com meu filho e, na escala de importância, eu ainda estou acima de você. _disse e Karen abaixou a cabeça. _ É em particular. _ acrescentou e ela saiu.

Eu levantei-me do sofá onde ele acabara de sentar.

_Já sei que vai começar um sermão também. _ comecei, antes que falasse qualquer coisa.

_Não sabe de nada. Sente-se.

Eu olhei-o e lembrei do nosso passado conflituoso.

_Você tem 22 anos, mas ainda me deve respeito. Senta aqui agora.

_Obedece seu pai, meu filho. _ minha mãe Jeni apareceu atrás de mim. _ E... por favor, não comecem tudo de novo, não briguem. _ ela pediu, já com a voz embargada e os olhos cheios de lágrimas.

Eu abracei-a e beijei seu rosto. Ela era a única a quem eu realmente deveria todo o agradecimento do mundo por ter conseguido chegar até ali, pois sempre acreditou em mim.

_Está tudo bem, mamãe. Fica tranqüila, tá?_ sorri e encostei minha testa na sua.

Respirei fundo e sentei no sofá. Minha mãe se pôs ao meu lado e eu fiquei entre os dois, de cabeça baixa, olhando fixamente para meus dedos das mãos cruzados.

_Eu não posso dizer que você faz o que sempre sonhei para você... _ meu pai começou com a voz seca.

_Ruan... _ minha mãe interferiu.

_Abri a caixa dos meus e-mails hoje e tive que ler os votos de solidariedade dos meus amigos para o que estão falando aí sobre você ser um farrento, que fica com todas as mulheres, que...

_Não acredite em tudo que a imprensa fala.

_Eu acredito no que eu vejo. _ ele foi enfático.

Engoli em seco e, por amor a minha mãe, não rebati.

_Por que não foi lá fora falar com suas fãs? _ minha mãe perguntou.

Eu continuei calado, senti as lágrimas virem aos olhos. Eu era capaz de representar qualquer papel, mas não conseguia manter-me centrado entre aquelas duas pessoas de peso na minha vida.

_Estão se passando algumas coisas comigo. _ confessei com toda a dificuldade do mundo, em uma voz que praticamente não saiu da garganta.

_Você está usando drogas? _minha mãe segurou meu braço.

_Não! _ ri. _ Vocês acham que todo artista cheira uma carreira de pó nas festas. _ pensei alto sobre aquela idéia preconceituosa.

_A Luísa nos contou que está com problemas. _ meu pai disse, cansado de tentar dar voltas na questão e me instigar a contar.

Olhei para frente e vi irmã Luísa encostada na porta do corredor, com o pequeno Natanael segurando sua mão também em silêncio. Ele não entendia nada do que se passava, mas sabia já por instinto que o rosto sério do papai indicava que não estava para brincadeira.

_Você não consegue ficar calada, não é mesmo? _ gritei com ela.

_Desculpe, Igor... Mas eu... _ ela aproximou-se.

_Igor! _ minha mãe me segurou e meu pai se levantou também.




_Me deixem! _ pedi, mas meu pai pôs sua mão forte sobre o meu braço e me conteve. _ Eu não quero falar sobre isso! _tentei escapar.

Meu pai me puxou e me abraçou. Minha mãe fez o mesmo por trás de mim e Luísa fechou o círculo ao meu redor. Eles me envolveram em uma corrente silenciosa e compreensiva de calor que me fez ceder. Parei de tentar me mover. Fiquei quieto e senti o apoio dos braços de meu pai sobre meus ombros, me agarrando com força de quem quer me proteger. Eu não queria que eles percebessem o que se passava comigo, não gostaria de decepcioná-los. Mas, eu não era forte o suficiente para fingir para eles também. Meus medos estavam me sufocando já há algum tempo e decidi sair da posição ofensiva.

_Desculpem por eu não ser aquilo que querem... _ chorei no peito do meu pai, molhando sua camisa. _ Eu tento, mas sempre querem mais._ desabafei. _ Eu não consigo mais sair sozinho na rua. Eu sinto que tem alguém me perseguindo, espreitando para ver se eu vou errar. Fico com um pânico enorme. _ contei.

Minha mãe beijou minha nuca. Luísa fez um carinho no meu rosto e enxugou minhas lágrimas com o polegar, ela chorava também.

_Estamos com você, mano. _ sorriu e repousou o rosto sobre o braço forte do meu pai. _ Vamos te ajudar, tá? Somos a sua família, lembra?

_Levem o Natanel para dar uma volta, vocês duas. _ meu pai pediu e elas, prontamente, saíram.

Eu me soltei dele e sentei no braço do sofá. Ficamos sozinhos outra vez.

_Eu não vou pedir para que não continue sua carreira. _ ele começou. _ Mas, se saiu de casa para ser feliz, eu ao menos quero ter a certeza de que você realmente é feliz. Vamos te levar até um psicólogo.

_Tudo bem. _ aceitei.

_Precisa começar a tomar atitudes certas. Pode começar procurando por essa moça. Acho que um deve explicação ao outro.

_Eu não quero...

_É o papel de um homem.

_Você não leu o que ela escreveu...

_Não importa, eu soube que você a ignorou a festa inteira. Foi justo chamá-la aqui para pisá-la? Que espécie de caráter foi esse que te moldaram?

Soltei o ar dos pulmões, sem argumentos.

_Vou pagar um profissional para te ajudar, mas eu mesmo posso dizer onde está a raiz disso tudo.

_Não é na minha carreira... _ adiantei-me.

_Não, não é na sua carreira. _ concordou. _ É em quem administra sua carreira.

_Ãnh?

_Por que aquela mulher estabelece um domínio tão grande sobre você? A ponto de confiar mais nela que em seu coração manda? Você não sabe do que gosta, do que quer, Igor!

_Pai, é um outro mundo, você não vai entender.

_Eu, realmente, não quero entender. Mas eu vejo tudo, claramente. Enquanto ela estiver perto de você te manipulando como uma marionete, você vai continuar com pânico de errar. Cair e se levantar faz parte também. Não pode viver com esta perseguição pela perfeição construída, maquiada, encenada! _ ele parou de falar por alguns segundos, pensou mais um pouco e continuou. _ Há uma grande diferença entre poder e respeito. Você deve ganhar o respeito das pessoas para que não precise usar a força ou o dinheiro para mantê-las perto de você. O que fez ontem foi usar o seu poder de celebridade para pisar naquela moça e rebaixá-la. Eu nem gosto desta palavra “celebridade”. _ repetiu com ironia. _ Para mim, você não é celebridade, é só um garoto.

_Eu vou pensar sobre isso. _ falei-lhe e fui para o meu quarto, queria ficar sozinho, longe de todos.

Li Mendi

=> Se você quiser receber um e-mail a cada capítulo publicado, então, deixe seu endereço nos comentários abaixo com o pedido! Beijos da Autora.

7 comentários:

Li disse...

Olá, queridas leitoras!
Hummm... no capítulo de hoje vemos que o Igor tem o apoio da família.
Agora será que ele com todo seu orgulho vai procurar a Cris?
Veremos como essa estória vai se desenrolar no próximo capítulo.
Beijos!
Li


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Meu amor vem me ver esse fds, então, pode ser que eu demore a atualizar, mas uma horinha corro para cá.
Por isso, deixem o e-mail de vcs, assim, qnd eu publicar, aviso!!
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Deisinha Rocha disse...

to assim, me deixando levar pela música, sem qlqr palavra, sem qlqr argumento...

apenas movida pela emoção...
ki super família...
ki lindOo...
ki super-pai o Ruan se tornou...
sim, super-família...

*suspiro

Bom, agora, meu querido Igor, vc bem q podia ir dormir sem essa! Pisou feio na Cris, e ela... ela pisou bonito em vc...

vamos ver vc sair dessa, sim, vamos...

Deisinha Rocha disse...

ahhhhhhh, o Igor tem q ir atrás dela, pq aí ela ajuda ele com o pânico e ele ajuda ela com a hidrofobia...
rsrs

e assim eles se apaixonam, se casam e depois vão ter três filhinhos... a exemplo do papai e mamãe do Igor... rsrs

Aih Li, amando isso tudoo...
bjOo ni vc...

Li disse...

e para finalizar o raciocínio heheh
eu faria um livro com os filhos deles? hahahahahahhaha

seria um eterno continuismo?hahhaha

lindoca beijos!

vamos ver, será que o orgulho dele vai permitir isso?

e perai, a cris vai querer?

caracoles.

que coisa hen?

bjao

Deisinha Rocha disse...

xiiiiii...
isso vai dá uma confusãozinha danada que eu to loka pra ver...
rsrs

Deisinha Rocha disse...

eeeeeeeeehhhhh, finalmente consegui postar meu comentário... hunf...

Lucy disse...

Aieeeee!!! Liiii, você sempre termina o capítulo fazendo a gente querer mais!!! Que bom!!! \o/

Já passou da meia noite! Vamos, vamos!!! \o/