16 de nov de 2007

Cap 15: Sem conspiração (Cris e Igor)

Sentei-me à mesa de Ludimila, que abaixou a cabeça como quem tenta procurar alguma coisa no papel em branco à sua frente. Bateu com a tampa da caneta na mesa e pensou em como começar. Não precisava nem dar continuidade àquilo, eu já pressentia o meu fim e meu estômago revirava.

_Cris, a política administrativa e editorial do site decidiu fazer uma nova seleção de jornalistas e não renovaremos o seu contrato. Espero que você seja bem sucedida na sua carreira.

Tanto sacrifício para ser jogada na rua? Tanto estudo, tantos feriados trabalhando para ouvir que não renovarão o meu contrato?

A revolta me fez levantar e querer sair dali correndo para não começar a dizer tudo o que estava entalado na minha garganta. Mas, eu não sairia antes de tirar uma dúvida.

_Isso tem a ver com a matéria sobre o Igor na revista?

_Eventualmente, tudo o que você faz reflete no fluxo da sua carreira.

Os jornalistas se tornam tão apurados em saber falar uma declaração horrível com palavras bonitas que chegam a cair no ridículo. Se não fosse trágico, eu riria.

Abri a porta e não compartilhei da sua falsidade. Nada de abraços e “foi bom trabalhar com você”. Caminhei até a minha mesa e olhei para meus objetos pessoais com tristeza.

_ Como vai a sua indicação para o Pulitzer? _ perguntou Rebeca, minha amiga vizinha de mesa. _ Adorei a reportagem que vendeu. Vou guardar de lembrança.

_Eu também vou. _ abri as minhas gavetas e comecei a jogar tudo em cima da mesa. _ Vou lembrar as conseqüências de dizer o que penso.

_O que está fazendo? _ ela olhou-me tirar os recados colados no monitor e deduziu tudo. _ Não diga que você vai embora?

_É... _ levantei os olhos e ela viu as lágrimas prestes a caírem.

Não demorou muito para os meus amigos se levantarem de suas mesas e virem me abraçar.

_Você é boa, garota! _ Iuri me deu um tapinha nas costas. _ Quem vai comer comigo empadinhas frias nas festas?

Eu ri.

Em um relance de olhar, vi o rosto de Igor na televisão. Minha atenção voltada para o programa fez com que eles assistissem também.

_Por que você não foi ver suas fãs? _ perguntou uma jornalista, impondo o microfone próximo à boca de Igor.

_Eu estava muito cansado e achei que seria um ato de carinho e atenção servir o bolo para elas. Não vi nenhum mal nisso. Acho que a imprensa tem que perceber que existe um limite entre a minha vida pessoal e a profissional. Eu estava na minha casa com os meus amigos, tinha o direito de selecionar quem eu queria que entrasse.

_Se convidou a imprensa para cobrir o evento, a festa não seria pública? _ rebateu a jornalista.

_Depende do que você entende por público. O fato de poderem divulgar no jornal não significa que todos possam entrar na minha casa. Há um limite.

_O que suas fãs vão pensar agora?

_Quem gosta do meu trabalho continuará apreciando. Eu não sou este ser horrível que pintaram. Sou apenas um ator que estava se divertindo em uma festa particular. Não tive intenção de humilhar ninguém.

_Por que se negou a dar informações à jornalista?

_Eu acho que houve um mal entendido. Havia muitos repórteres lá e amigos também... Eu era um só para dar atenção a tantas pessoas. A jornalista a que se refere saiu mais cedo, se ela tivesse ficado mais um pouco, poderíamos ter tido tempo de conversar. Se eu fosse arredio à imprensa, não teria chamado para cobrir o evento. O que seria, em certo ponto completamente compreensível.

_Você acha que foi uma conspiração contra você?

_O que eu acho que tudo são versões dos fatos. Cada um conta a história de um ponto de vista. Esse foi o que a jornalista escolheu, não necessariamente é o verdadeiro. Só quem pode estar no meu coração para saber o que eu sentia sou eu!

_Qual seu próximo trabalho?

_Vou participar da novela das oito e só tenho a agradecer o presente que foi esse papel.

_Parece que vai ser um papel polêmico. Um seminarista que se apaixona pela irmã de criação.

_É, vou ter que preparar bem este personagem. Levará um tempo para montar, mas farei o melhor que puder.

_As fãs, então, vão ficar sem ver o famoso corpo de Igor Frinzy na comprida bata?

Eu revirei os olhos e recomecei a arrumar minhas coisas. Todo o conflito acabava de ser dissolvido naquela pergunta fútil e engraçada para terminar a matéria em “alto astral”.

_Já sabe para onde vai? _ perguntou Rebeca.

_Para casa. _ respondi com ironia, mesmo entendendo que ela se referia sobre meu futuro profissional.

_Sim. _ ela sorriu. _ Posso te perguntar uma coisa em particular? _ chegou mais perto quando meus amigos resolveram voltar para suas mesas.

_Claro. _ verifiquei quais papéis dentro da gaveta poderiam ir para o lixo.

_Você fez isso por vingança?

_Como assim?


_Você me entendeu, Cris.

_Eu fiz o que achava que tinha que fazer.

_Tudo bem se não quiser responder.

_O que quer que eu responda? _ olhei-a.

_Você se apaixonou por ele?

_Rebeca, por favor, né? Ninguém se apaixona por uma pessoa em poucos dias?!

_Não? Pensei que precisava só do primeiro olhar.

_Isso é coisa de adolescente. Passei dessa fase. Agora, eu quero um senador que me dê uma pensão bem gorda e posar para uma revista masculina. Se possível, que ele seja velho para morrer logo.

Rebeca riu.

_Fugindo pela tangente... já vi que se apaixonou. Caiu nas graças de Igor Frinzy. _ balançou a cabeça para os lados com o queixo apoiado na mão, enquanto editava um texto no computador.

_Como poderia estar apaixonada se eu acabo de jogar uma bomba na cabeça dele?

_O ódio e o amor são sentimentos que estão de costas um para o outro. Aquele que odeia conhece tanto o objeto da sua ira quanto o que ama, porque ele vive em função do seu adversário.

Eu não respondi nada. Continuei com a limpeza. Queria sair dali o mais rápido possível.

_Eu não acordei me sentindo bem. Estou com o corpo meio quente. _ coloquei as costas da mão no pescoço.

_Deve ser psicossomático. Está muito tensa. Não se preocupe. _ disse Rebeca. _ Quer que eu veja se alguém tem um analgésico?

_Não, não, eu vou para casa. _ balancei a cabeça negativamente.

_Liga para alguém vir te buscar. _ sugeriu.

_Só se minha mãe viesse. Mas não quero atrapalhá-la.

_Liga, Cris.

Eu procurei meu celular e não o encontrei na bolsa.

_Nem que eu quisesse, deixei na casa da minha mãe. Dormi ontem lá.

_Ah, usa o da minha mesa, né?

_Deixa, eu agüento chegar no meu apartamento. É só uma indisposição.


***

_Foi muito bem. _ Karen elogiou, sentada ao meu lado no carro. _ Lembrou de tudo, hen?

Continuei calado, dirigindo.

_Agora faça o que falou, se concentre na novela, porque vai vir mais fama por aí!

Enquanto aquilo a fazia feliz, eu não tinha certeza se deveria me alegrar com o que “viria por aí”.

Meu telefone começou a tocar no porta-moedas. Rebeca esticou o braço para atender.

_É ela que está ligando...

_Quem? A Cris?

_Como pode chamá-la pelo apelido?

_Que diferença isso faz? Me dá.

_Você vai atender?

_Anda, Karen!

_Você está dirigindo, deixa que eu atendo. _ abriu o celular. _ Alô? É a assessora dele, quem está falando?

Eu gostava de ter Karen para ficar ao encargo de cuidar dos jornalistas enquanto eu tinha tempo para curtir a minha vida, mas, em certos momentos, isso não era tão conveniente, como agora. Eu queria atender o telefone.

_Ah! A senhora é a mãe dela... _ Karen repetiu em voz alta e olhou para mim.

Eu franzi a testa. A mãe da Cris?

_A senhora quer falar com o Igor? Agora ele não pode atender, em outro horário...

_Me dá isso aqui. _ pedi.

_Não, senhora, ele não pode, já te expliquei.

Eu freei e estacionou o carro no acostamento. Nossos corpos foram projetados para frente e depois para trás. Desliguei o motor e peguei o celular da mão dela.

_Obrigado. _ dei um sorriso forçado para Karen e coloquei o celular no ouvido. _Alô, senhora? É o Igor.

_Oi. Sua assessora disse que estava ocupado.

_Estava dirigindo, mas posso falar agora. _ expliquei para que Karen não ficasse irritada por eu desmenti-la.

_Eu queria conversar com você.

_Senhora, eu...

_É importante. Eu sei que é uma pessoa cheia de compromissos. Mas eu acho que precisa saber algumas coisas sobre a minha filha.

_Que coisas? _ perguntei, olhando a rua através do vidro escuro do carro.

_Não posso falar por telefone, precisaria ser pessoalmente.

O que ela queria me revelar? Tudo que eu sabia sobre a mãe de Cris era que tinha dado a filha o vestido que manchei na festa da campanha dos ternos. Mas, havia no seu tom de voz algo que me convenceu de que eu deveria lhe dar atenção.

_Sua filha pediu para me ligar? Porque se for, eu digo que já está tudo resolvido. Eu não quero...

_Não! Ela esqueceu o celular aqui em casa, ontem. Eu procurei seu número no telefone dela, já que tinha me contando sobre a história de vocês.

História nossa? Ela não achava que eu tinha tido alguma coisa séria com sua filha, não é?

_Eu não estou muito bem para sair de casa. Poderia vir até aqui? Eu sei que é pedir demais...

_Onde mora? _perguntei.

Karen fez uma careta e abriu as mãos no ar, intrigada com os rumos do telefonema.

_Tem como anotar? _ perguntou.

_Tenho, espere um momento. _ fiz uma mímica para Karen abrir a agenda. Ela revirou os olhos e à contragosto apertou a tampa da caneta. _ Pode falar.

_O que vai fazer lá? _ Karen perguntou quando desliguei.

_Boa pergunta. _ abri a carteira e tirei uma nota de cinqüenta. _ Pegue um táxi.

_Como assim? Não vai me deixar aqui! Eu vou com você.

_Obrigado, mas eu faço isso sozinho.

_Pode ser uma armação!

_Karen, sem teorias conspiratórias.

_Ah! Vai me dizer que é super normal essa mulher te ligar do nada?

_Não, mas ela vai me explicar.

_Igor, você tem coisas mais importantes para fazer!

_Karen, a minha vida pessoal é importante e isso não está incluso na parte profissional. Por isso, por favor, pode pegar um táxi?

Ela abriu a porta do carro e a bateu com força. Respirei fundo. Karen me cansava com seus duelos verbais. Liguei o motor e acelerei.

Li Mendi
(lilivros.blogpot.com, conheça os outros livros da autora)

---> Leitoras, queridas, volto na segunda-feira com mais um capítulo. Vou ficar longe do pc sábado e domingo, por isso, não poderei postar. Deixo vocês com a curiosidade para saber qual o segredo que a mãe de Cris quer contar sobre a filha para Igor!

7 comentários:

Li disse...

O Igor tá seguindo o conselho do pai em tomar as rédeas da sua vida, ou quer ir lá só para matar a curiosidade?

Hum?

Meninas, beijocas da Li!
Vejo vocês agora na segunda-feira!

aninha disse...

aiaiai... dona Li e sua arte em nos deixar curiosas!!!! te esperamos na segunda linda!!!! hj estou me preparando para o primeiro evento de formatura!!!

Deisinha Rocha disse...

hummmm...
acho q os dois....

poxa Cris, a vingança sempre tem seu lado amargo, né...

Pena, mas sei q vc vai sair dessa e dar a volta por cima, sim eu sei ki vai, num é Li...

Bjoka ni vc e té segunda-feira....

Li disse...

Bom evento aninha!!!!!!!!!!!!!!
Beijos até segunda!!!


vc acha o q deisinha? nem chutou hen??????? hahahahha

bj ni vc lindoca!

Lucy disse...

Aiêêê!!! Que bom que já tem capítulo hoje, eu tava tão estressada e queria mto relaxar... uaaaaau, muuuito bom!

Li, obrigada pelo capítulo gostoso de ler!!! \o/ bjoks!

sarah disse...

oq segrdo é esse heim?bjux

titta_* disse...

Liii....tive um dia péssimo!! vim aqui imergir em seu mundo de sonhos só pra aliviar um pouco.
só pra que vc saiba, funcionou!

te adoro!
=***