29 de nov de 2007

Cap 21: Contrato (Cris)

Abri a geladeira e só encontrei água e batatas. O furacão que soprara em minha vida deixou áreas devastadas. Eu me esqueci de fazer compras. Quero dizer, na verdade, eu não tinha dinheiro para elas.

Sentada à mesa, com minha gata ao meu pé, olhei através da janela o trem passando na ferrovia com um céu avermelhado de fundo. Não demoraria muito para eu receber a ordem judicial de despejo. Isso me atormentava mais que a falta de comida.

Voltar para casa da minha mãe seria perder todas as liberdades conquistadas. Amava-a de todo o coração, mas não estava disposta a entrar nas suas regras e representar o papel de filha que deve respeito à sua autoridade, o que inclui comer, dormir e chegar na hora que lhe agrada.

Igor, por um lado, estava certo: eu não tinha como negar que sua proposta era legalmente correta. Eu teria um emprego temporário, escreveria, coisa que gosto de fazer, ganharia por isso e pagaria minhas contas. Quanto a “estar perto de alguém que sempre admirei” era arrogância sua. Tudo bem, tudo bem, eu vou admitir, isso me deixava arrepiada só de pensar. Caramba, eu dividiria toda a sua intimidade em uma posição de honra! Era um sonho quase que infantil, a cura de um recalque, a volta aos tempos de fã!

Só que, agora, eu não era mais aquela adolescente sem ideal, pronta a passar as tardes gravando suas novelas. Eu tinha uma profissão que envolvia uma posição ética. Finalmente, eu era uma mulher madura, vivida, centrada. Não queria mais lembrar daquela Cris bobinha e fanática. Quando penso nos absurdos que fiz por ele, me sinto tão patética e ridícula que dá até vontade de rir; mas, rapidamente, afasto o pensamento por não agüentar a carga de vergonha.

Se bem que eu não precisava entrar nisso sendo a fã que tem o privilégio de entrevistar seu ídolo. Eu posso perfeitamente encarar como um trabalho friamente técnico, com todo o distanciamento que a tarefa pede. Eu tinha estudado e me profissionalizado justamente a fim de incorporar o papel de mediadora dos fatos. Eu seria a ligação entre Igor e suas fãs, sem ser nem sua fã, nem sua amiga. Apenas um canal.

Aquele momento de dissonância cognitiva, em que eu me dava justificativas confortáveis para não contradizer os meus ideais, era importante para chegar a uma decisão.

***

_ Aqui estão sublinhadas suas falas. _ Karen entregou-me o fichário com as folhas do script para eu memorizar.

Tomei o suco de laranja tranqüilamente, sentado à cozinha. Não estava com vontade de olhar aquilo agora.

O interfone tocou e ela apertou o botão para atender.

_Pode mandar entrar e esperar na sala. _ autorizou e colocou o fone no gancho. Voltou sua atenção para o lap top aberto à sua frente. _ Marquei sua visitação ao monsteiro. Será um ótimo lugar para você começar o laboratório. É importante montar o personag...

_Quem era?

_Ãnh?

_Quem era no portão? _ perguntei.

_Ah! Aquela jornalista. Mas ela pode esperar.

_Cris? _ levantei-me, prontamente.

_Hei! Aonde você vai?

_Eu vou falar com ela e já volto. Aproveita para olhar o meu e-mail e fazer aí o que tem pendente... _ aconselhei-lhe.

_Mas...

Caminhei pelo corredor e vi Cris de costas, olhando através da porta de vidro da sala. Parecia concentrada em algum ponto do jardim.

_Pensou bem rápido. _ comentei e ela virou-se.

_É. _ sorriu sem muita motivação.

Vestia a mesma roupa de quando a encontrei pela primeira vez, uma calça preta e blusa branca de babadinhos na frente. Uma postura sempre distante, que colocava uma barreira entre nós. Pensei em estender-lhe a mão, mas não senti que ela queria contato.

_Eu vim aqui...

_Sente-se. _ pedi.

_Eu cheguei a uma conclusão.

_E qual é?

_Vamos fazer...

_Ótimo. _ eu falei alto, feliz por sua aceitação, mas Cris não me pareceu da mesma forma exultante. _ Espero que goste do trabalho, não quero que seja nenhum suplício para você.

_Quanto a isso, é uma questão minha. Espero fazer o meu trabalho e você me pagar por ele. Será só um contrato.

_Um contrato. _ repeti em voz baixa, eu não conseguia enxergar do mesmo modo. _ E quais as cláusulas desse contrato?

_Bom, o meu nome vai estar nisso, então, eu quero ter poder de interferência.

_Que tipo de interferência? _ franzi a testa.

_Você está contratando uma jornalista e, não, uma datilógrafa.

_Ãnh?

_Há uma diferença entre uma pessoa que pensa e a que “bate bem à máquina”.

_Como seria isso?

_Eu imaginei que podemos gravar tudo em fitas. Depois, eu vou ouvir e digitar conforme eu acho que ficaria coerente e instigante. Não, necessariamente, na ordem cronológica que você contar.

_Ah! Quanto a isso, te dou a liberdade poética. _ ri, aliviado por entender que era algo mais simples. _Eu também terei minhas interferências.

_Quais?

_Eu vou falar tudo que vier a cabeça e depois posso acabar cortando alguns trechos.

_Com ajuda da sua censora?

_Quê?

_Acho que não vai ter como tirar a sua assessora do processo.

_Ãnh... _ eu pensei por um momento, não tinha refletido bem sobre isso. Não queria que Karen se metesse no livro com seu dedo acusador. _... Bom, posso até mostrar a ela, mas inicialmente minha idéia não contava com a participação de Karen.

_Por quê? Me parece estranho que...

_Você não ficaria à vontade. _ disse-lhe.

_Eu ou você? _ ela levantou as sobrancelhas.

_Nós. _ admiti.

_Com toda certeza. _ ela riu e abaixou a cabeça, pareceu-me menos imparcial, pela primeira vez.

_ Já falou com seus pais sobre isso?

_Não. Também não queria os “censores” por perto. _ usei a palavra com ironia.

_Suponho que isso não agradará muito ao seu pai. Na festa, sua irmã me falou que ele é uma pessoa mais reservada...

_Eu sei. Mas, há muito tempo eu quero falar um monte de coisas, quero colocar no papel situações que vivi, me expressar... Só que eu não sou muito bom de organizar as idéias. Por isso, acho que será bom ter você para fazer isso por mim.

_Vou tentar fazer o melhor trabalho possível.

_Bom, bom... Quais os seus horários livres?

_Todos.

Ela fez um ar de pesar, suponho que nunca desejou dizer aquilo, significava que estava sem trabalho algum, a ponto de ter que se dedicar a alguém que acabara de criticar duramente.

_ Posso fazer uma pergunta? _ ela pediu.

_Acho que é o que mais fará nos próximos meses.

_Esse livro é para apagar o que eu escrevi?

_Pode ver dessa forma, mas, é também para mostrar o que ninguém mostrou.

_Mostrar para quem? _ quis saber.

_Para todos.

_Todos? Todos mesmo?

_Para os fãs e...

_Para você e sua família? _ completou.

_Serão sempre inquietantes assim as suas perguntas?

_Foi você quem me escolheu. _ ficou na defensiva.

_Uau, me sentirei no paredão. _ ri.

_A fonte tem o direito de não querer responder. _lembrou-me.

_A fonte. _ repeti. _ Será que podemos ser mais próximos? Eu sinto que você está de um lado da ponte e eu de outro, nos falando por aquelas latinhas ligadas por um cordão de barbante. _ ri.

_Não vejo como. Eu não estou aqui para julgar, eu só vou escrever.

_Se você não colocar sentimento no que fizer, não sei como vamos conduzir o projeto.

_O que eu faço é jornalismo e jornalismo não é sentimento.

_Jornalismo é verdade e não acredito que a verdade precise ser assentimental. _ falei-lhe.

Cris levantou-se e pôs uma das mãos na cintura, me pareceu tomar fôlego. O seu incômodo estava começando a me deixar inquieto. Eu não queria torturá-la.

_Igor, eu faço o que quer. _ ela virou-se inesperadamente. _ Eu vendo a minha alma ao diabo, se for preciso...

“Vender a alma ao diabo?” Uau! Que horror!

_... Mas, eu preciso te pedir uma coisa que eu não queria, que eu até tenho vergonha de pedir, que...

_Pede logo!

_Eu preciso de um adiantamento.

_Ah... _ soltei o ar dos pulmões aliviado. Era isso?!

_É que eu tenho umas contas para pagar que não posso mais adiar. Eu nem acredito que estou tendo que pedir isso, mas...

_Tudo bem, isso não é problema.

_Desculpe... Eu não queria mesmo...

_Cris. _ levantei-me e me aproximei. _ Isso é o de menos.

_ Tá. _ ela sorriu e aquele era o primeiro sorriso verdadeiro que dera.

Li Mendi

3 comentários:

aninha disse...

dona Li!!!!!! que suspense!!!!!!!rsrsrss!!!!!!!

o que vem por ai ??????? vamos aguardar!!!!!

meninas, livro novo na área!!!!!

para sempre em minha vida!

www.parasempreemminhavida.blogspot.com

continuação de o diário de carolina

Deisinha Rocha disse...

eu sabia que ela ia aceitar...
rsrs

agora vamos ver o desenrolar dessa história...

bjOo ni vc, Li...

sarah disse...

ahhh q lindo ai to ate imaginando oq vem pela frente!!hauhauhahuhua
esses dois são mt engraçados o amor esta bem proximo do odio!!hahuuhahua