8 de nov de 2007

Cap 5 (continuação): Aperte os cintos (Cris)

Tinha chovido há algumas horas, o que me fez caminhar sobre o chão molhado e de poças d’água. Os respingos do sapato sujaram minha calça preta atrás. Fui até o banheiro da lanchonete e umedeci um pedaço de papel para tentar limpar aquela lambança.

_Que falta me faz um carro! _ falei comigo mesma agachada. _ Se bem que com este salário, Cris, você não compra nem patins. _ zombei.

Joguei o papel no lixo e novamente lavei as mãos. Hei, por que eu estava arrumando o cabelo? Aquilo não era um encontro. Eu precisava conseguir uma boa matéria apenas e voltar para a redação com um bom motivo para Rebeca me dizer o quanto eu era rápida em entender seu recado e mostrar serviço!

Saí do banheiro e caminhei em direção à cadeira onde eu estava sentada. Ainda de cabeça baixa, eu arrumava a minha blusa, esticando-a com as mãos para que ficasse bem apresentável. Olhei para frente e vi um homem de boné, sentado de costas para mim. Estanquei. Seria ele? Minhas mãos começaram a transpirar e eu senti um frio na barriga. Aquilo era ridículo! Eu até antes do telefonema estava odiando o destruidor do meu vestido e agora parecia uma colegial que vai encontrar com o namorado virtual! Eu sou uma mulher séria, de 25 anos, empregada e... desesperada! Revirei os olhos e parei de pensar demais. Agir era o verbo certo para a ocasião.

Caminhei até ficar na frente da mesa e parei diante dele, que estava de boné e óculos escuros.

_Você é..._ perguntei.

_Você é a Cris? _ ele se adiantou e levantou para oferecer a mão em cumprimento. Tinha o sorriso tão branco e lindo quanto nas fotos que eu vivia inserindo no site.

Cris, não se comporte como uma fã maldita, idiota e patética! Gritei por dentro comigo mesma.

_Eu não te vi chegar... _ ele comentou.

_Talvez por que você está sentado de costas para a porta de entrada? _ ri e achei a piada ridícula. Eu não era boa para esse tipo de coisa.

_Mas a parede é de vidro e daqui eu posso ver a entrada externa. _ ele apontou para trás de mim.

_Ah! _ ri. _ É verdade. Então, é porque eu estava no banheiro, aí quando chegou não me viu... _ comecei a gesticular exageradamente e o jeito foi enfiar as mãos nos bolsos para que elas não parecessem perdidas no ar, apontando em todas as direções.

_Você me propôs um café, costuma beber em pé? _ perguntou-me.

_Não! _ balancei a cabeça para os lados e senti que meu rosto tinha ficado vermelho.

_Deixa comigo. _ ele me impediu de pegar a cadeira e deu a volta para puxá-la para mim.

Ele não estava fazendo aquilo, estava? Era só um garoto boboca de cérebro de azeitona com 21 anos e mentalidade de 12. Aliás, como eu pude tê-lo visto com um homem mais velho se era ele que estava bêbado e não eu, ontem?

_Você me parece diferente. _ disse-lhe.

_Será que é por que não estou fantasiado de zorro? _cruzou os braços e os apoiou sobre a mesa. Abaixou a cabeça e não acreditei que ele estava interpretando o papel de tímido. Ou será que era mesmo tímido? _ Eu também estava com barba rala e posso ter parecido com a idade do meu pai, mas não..._ riu. _ eu ainda sou um molequinho. _ diminuiu-se. _ Decepcionei?

_Não... _ estiquei a mão e toquei a sua. _ Desculpe... eu não... _ perdi as palavras. Era uma situação tão inusitada.

_Engraçado você me pedir desculpa. _ ele tocou os meus dedos e eu puxei a minha mão de volta. _ Porque sou eu que te devo desculpas, afinal, eu estraguei seu vestido, como me disse.

_É... E ainda saiu correndo.

Ele levantou a mão e o garçom veio anotar nosso pedido. Bebemos o café e ficamos sem assunto, com um diálogo suspenso no ar.

_Você faz o quê? _ perguntei.

_Hum... Trabalho para uma produtora. _ respondeu.

Produtora? Bom, ele era ator e trabalhava para produtoras, ou seja? Estava omitindo para não mentir. Ótimo, vou entrar na dele:

_Eu trabalho para um site.

_Para um site? Legal. _ ele não fez mais perguntas. Entendi que isso era porque também não queria um inquérito sobre sua vida.

Olhei para o relógio e ele percebeu que eu estava apreensiva.

_Já está atrasada?

_Um pouco.

_Bom, eu não queria que fosse assim. _ ele puxou a carteira do bolso. _ Mas não quero te atrapalhar, já estraguei sua noite ontem. _ entregou-me um fino envelope branco com notas azuis dentro.

Senti-me mal em receber o dinheiro. Eu merecia, mas é que não sei explicar, ficou estranho... Por que as palavras estão me faltando?

_O senhor vai pagar em cartão ou dinheiro? _ perguntou o garçom, trazendo a conta.

_Cartão. _ entregou-lhe.



Acho que demorou alguns segundos para que ele percebesse as conseqüências daquele simples ato corriqueiro e virou a cabeça para trás.

_Droga! _ disse baixinho. _ Por que eu não paguei em dinheiro? _ fechou os punhos.

_O que houve? _ inclinei a cabeça mais para frente e franzi a testa.

Ele não me respondeu e começou a se portar como ontem, perdendo completamente a delicadeza. Levantou-se e foi até o caixa. Digitou o número na máquina e percebi que todas as garçonetes se cutucavam. Claro! O nome dele no cartão de crédito!

_É você mesmo?! _ uma delas se arriscou a perguntar.

_É ele! _ a outra gritou já levantando a divisória do balcão para abraçá-lo.

Igor deu um autógrafo e depois as deixou sem mais nem menos, veio até mim.

_Eu tenho que ir. Você tem meu telefone né?

_Tenho... Mas...

Ele não ia me deixar ali assim! Se bem que eu já não tinha o que eu queria, que era o dinheiro? Só que de fato agora meu objetivo era a entrevista. Ora, droga, por que ele queria eu ligasse para ele...? Aie! Levantei e o segui.

_Espera! _ pedi.

_Não posso... _ ele deixou a chave do carro cair no chão e eu abaixei para pegar.

Sua mão estava trêmula.

_Me dá a chave.

_O que está acontecendo?

_Anda, me dá logo...

Agilmente, sem que ele pudesse esperar, tirei seus óculos. A primeira reação dele foi abaixar a aba do boné para frente e começar a respirar mais rapidamente.

_Por favor, eu quero ir embora.

_Por que está fugindo de mim assim? _ cheguei mais perto e tentei falar com uma voz doce e calma.

_Não é de você, eu juro, eu só quero...

_Fugir?_ completei.

_Tira um foto comigo? _ ouvíamos uma voz atrás de nós.

Era daquilo que ele queria fugir.

A garçonete antes mesmo de obter qualquer resposta o abraçou e levantou o braço para tirar a foto com o celular. Arrependi-me por não ter lhe entregado as chaves.

_Eu também quero. _ aproximou-se outra.

Eu enfiei a chave no carro e tomei uma atitude para acabar com aquilo.

_Gente, ele está muito ocupado, tudo bem? Outra hora! _ bati palmas e o puxei pelo braço. Se Igor era frágil o bastante para deixar que o tratassem como um boneco de pano, eu não tinha paciência para ver aquela tortura.

Ele entrou no carro e eu dei a volta para entrar também.

_Você não ia me deixar ali no meio, ia? _ eu respirei de alívio.

_Bem... _ ele tirou o boné e passou as mãos no rosto.

_Igor, então é você!

_Aperte os cintos! _ mandou.

Ele virou o rosto para trás e fez uma manobra que cantou os pneus. Eu fiquei encostada contra o banco sem fala e ele acelerou como se estivesse em uma pista de corrida.

Li Mendi

3 comentários:

Li disse...

OI, NINAS.
Bom, como podem ver... neste livro não terá ordem na narração.
São os personagens quem manda. Só sigam as cores para não se confundirem.
Agora acho que a Cris vai ter mais trabalho do que pensava. Pensou que era só fazer uma entrevista e pronto.
Já sabemos algumas coisas sobre eles.
Por exemplo que ela é bem mais madura que ele.
Mas será que ela na verdade não sabe naaaada sobre ele?
Nem nós né?
Então, veremos mais no próximo capítulo.
Pq se ele tá pisando no acelerador, para onde está indo???????????

Chutes?

Beijocas lindas.

Deisinha Rocha disse...

gente...
gostei da Cris...
de atitude, ela...
ainda mais com essa música q a Li escolheu...
vc lê balançando o corpo...
mto divertido...


hum , deixa eu ver...
ele vai pra um kioske em uma estrada meio deserta...
pra terminar de tomar o café...

deixa eu fazer outro chute, deixa???
pro apartamento dele...
rsrs

vamos, que vamos...
arrasou Li...
bjOo ni vc...

Lucy disse...

Uaaaaaau! Que adrenalina, hein!?

Gostei dela ter resgatado o Igor! Ele pareceu bem indefeso ali... tadinho... =P