7 de nov de 2007

Cap 5: A grande chance (Cris)

Eu estava ao telefone com o carinha que estragou o meu vestido na noite de ontem,quando Rebeca fez um sinal para que eu olhasse por cima do computador. Era minha editora me chamando da porta da sua sala. Disse para ele que ligava depois e levantei-me. Não podia deixá-la esperando. Enquanto ainda carregamos o estigma de "foca" recém formada não podemos ser arrogantes.

_ Cris, eu vi sua apuração da festa de ontem. _ ela indicou-me a cadeira e eu sentei.

Era opressor estar dentro daquele aquário de vidro, como se fosse a sala do diretor da escola e a qualquer momento meus pais poderiam entrar para me olhar com ar de reprovação.

_ Sim, claro. _ mostrei interesse.

_ E vi também a apuração dos outros sites. Fomos terrivelmente furados.

_ Hum.

Terrivelmente furados pode-se traduzir como “seu trabalho foi um lixo”. Só me restava mesmo aquele pequeno som sem sentido: “Hum”.

_ Nós não pagamos o seu salário para nos fornecer uma notícia que podia ser perfeitamente clipada de outros sites e cozinhada.

_ Hum-hum.

Aquilo era um presságio para uma despensa? Por que se fosse, meu duplo “hum-hum” já indicava o quanto eu estava com medo e sem palavras.

_Gostei dos dados que pegou sobre os ternos, mas não me interessa tanto os ternos...

Ela me manda cobrir uma festa que gastou rios de dinheiro para a nova coleção de verão de ternos masculinos e me diz que não era para apurar isso?

_ As pessoas querem ver pessoas.

_Claro. _ mostrei que concordava, ali ela tinha toda razão em tudo que dissesse, afinal, como ela disse agora há pouco, eles pagam meu salário.

Entramos em jornalismo fazendo o juramento de buscar a verdade acima de tudo e, na dureza do dia-a-dia, descobrimos que a verdade é só um ponto de vista e, em algumas ocasiões, qualquer ponto de vista serve.

_Estava cheio de artistas lá. Um monte daqueles atores carimbados que ganham uma fortuna para só comerem e beberem. Quanto foi o cachê para eles estarem ali? Você não apurou com os assessores? O site “De olho no galã” subiu com essa nota, às 11 da noite... _ ela virou-se para seu computador e apontou para o monitor. _... E informou que o Igor Frinzy embolsou 10 mil reais. Esse detalhe, querida, é que faz a diferença.

O que eu poderia dizer-lhe? Levantar a questão do meu vestido ensopado? Explicar que eu estava morta de cansada e não tinha mais paciência para ficar pedindo para as pessoas pousarem para as fotos e tirarem aquelas máscaras patéticas?

_Era uma festa à fantasia, como os galãs estavam vestidos? Qual grife confeccionou a roupa? _ ela começou a listar as minhas falhas.

_Eu vou tentar apurar com mais precisão na próxima vez.

_Cris, seu contrato vai acabar no final do mês. Eu espero que até lá você me ofereça uma matéria que compense todas as notas que já fez até hoje.

Aquilo era o pedido mais injusto do mundo. Não tinha outra maneira de me dizer que seria inevitável me trocar por outra porque não queriam efetivar ninguém para não estarem comprometidos com as garantias trabalhistas? Precisavam me fazer sentir culpa pela minha própria expulsão dali?!

_O Iuri vai trocar a foto que colocaram por uma outra que escolhi. Legenda para mim porque estou com pressa. _ levantou-se e pegou sua bolsa.

Eu ofereci-lhe um sorriso, acho que o último do meu dia e sai também da sua sala. Alguns levantaram seus olhos por cima dos monitores e me destinaram um ar de compaixão. Ninguém ousaria me defender, pois tinham seus filhos para alimentar com os contados 1.200 reais que recebíamos.

Sentei-me ao lado de Iuri, ele me olhou rapidamente e voltou a se concentrar na tela do computador.

_Que foi? A bruxa já te atormentou logo de manhã?

_É. Ela está irritada pela cobertura que os outros sites deram.

_Isso é uma injustiça. Você é julgada pela quantidade de notas que insere em um dia dentro dessa sala com ar condicionado quando a vida acontece lá fora!

_Eu sei disso. Acho que vou ser como minha vizinha, que trabalha em uma loja de sapato e ganha mais que eu sem ter faculdade.

_Não entra nessa! Você teve um sonho. Siga ele.

_Mas o meu sonho não está cobrindo o meu vermelho no banco, nem o meu sonho é como eu sonhei.

_Vai mudar. Já leu seu horóscopo hoje?

Eu ri. Nós sabíamos que o horóscopo era inventado pela nossa cara amiga Paula, a gordinha comedora de biscoitos que ficava o dia inteiro prevendo alterações para a vida das pessoas.

_Obrigada, o que eu já prevejo é bem ruim.

_Essa foto aqui que tem que legendar. _ ele abriu na tela.

_Quem é esse? _ eu franzi a testa.

_Tirei a foto enquanto você tinha ido ao banheiro.

_Mas esse... _ cheguei mais perto. _... Esse é o cara que derrubou o vinho em mim.

_Você está brincando?

_É. _ certifiquei-me mentalmente se era aquela roupa de zorro que ele estava vestindo. _ Ele estava de preto... É ele.

_Olha, garota, aposto que mil garotas pagariam para serem molhadas pelo Igor Frinzy. Sem trocadilhos. _ riu.

_Como assim?!

_Igor Frinzy. Eu anotei aqui em algum lugar. _ ele pegou o seu bloco.

_Não pode ser...

_Por que não pode ser? Não vai começar a dar gritinhos aqui, né?

_Não pode ser... _ levantei-me.

_Hei! Aonde vai?

Caminhei até a mesa de Rebeca e me inclinei para falar bem devagar e sem gaguejar de nervosismo:

_Sabe quem é que estragou o meu vestido e saiu correndo?

_Quem? _ ela levantou as sobrancelhas. _ Você telefonou para ele de novo?

_Não, ainda não! Eu vi as fotos de ontem e... _ preferi pular a parte da explicação. _... Era o Igor Frinzy! E agora? Ele acha que eu não sei quem ele é. Nem ele lembra que sou jornalista porque estava bêbado.

_Aonde você quer chegar?

_Eu vou conseguir a entrevista que vai deixar a nossa querida editora de cabelinho em pé. _ bati com o dedo indicador na mesa.

_É? _ ela desafiou.

_Não vou ficar a vida inteira subindo notinhas! _ pisquei para ela e voltei para a mesa de Iuri.

Escrevi rapidamente a legenda e, depois da página estar no ar, peguei meu celular no bolso da calça. Caminhei para um canto mais silencioso da sala e olhei pela janela de vidro, entre as brechas da persiana, a avenida cheia de carros lá embaixo. Começou a chamar.

Eu estava com um frio na barriga. Era minha chance de mudar o rumo da minha carreira.

_Alô? _ ele atendeu do outro lado.

_Desculpe por ter desligado depressa.

_Tudo bem. _ apressou-se a dizer.

_É... Então, onde podemos nos encontrar?

_Não sei... Decide você.

_Certo, deixa eu pensar...

Indiquei-lhe uma lanchonete que ficava às margens de uma avenida. Sempre estava vazia e não seríamos incomodados.

_Anotou aí? _ perguntei.

_Sim, claro. Mas... Como vou te reconhecer?

Eu poderia lhe dizer: não precisa, eu cubro a sua vida já faz algum tempo, deixa que eu te reconheço. Mas era melhor que achasse que eu não sabia sua verdadeira identidade.

_Eu tenho o cabelo castanho escuro encaracolado com uns fios dourados. Estou com uma calça social preta e uma blusa branca com uns babadinhos na frente.

_Tudo bem. Eu vou estar de boné.

_Quanto tempo demora para chegar lá?_ perguntei.

_Vinte minutos. _ respondeu. _ Qual seu nome?

_Cris. Te vejo lá.

_Te vejo lá, Cris.

Desliguei e bati levemente com o telefone no meu queixo.


Autora: Li Mendi
(www.lianotacoes.blogspot.com)

6 comentários:

Deisinha Rocha disse...

aih, tava louca por um capítulo novinho...

ta começando a eskentar...
ta começando a eskentar meeeesmo...
rsrs

bjOo ni vc, LI...

Li disse...

Bj ni vc mana, como vc diz! rsrsrs
Pois é...
Esses dois ainda vão ter muuuito o que viver juntos.
Será que nossos coraçõezinhos aguentam? bjus

Laine disse...

Eita Li!!! HEUHEUEHUEHEUHE!
Beijo!! ;@@

Deisinha Rocha disse...

guenta...
tem ki guenta...

acho q já fomos bastantes treinados com o ruan e a Jeni...
rsrs

este Igor e esta Cris...
já vi q tem mta aventura pela frente...
rsrs

Carol disse...

Aiii...

naum vejo a hora deles se encontrarem... to prevendu muita briga pela frente!!!

Tah fikandu mt bom!!!

Li disse...

bj ni vc carol!!!!
será que terá muita briga? rsrs
vamos ver...