10 de nov de 2007

Cap 8: De volta (Cris e Igor)

Caminhei pelo quarto, segurando o celular. Eu sabia o que queria fazer e sabia também que poderia ser uma grande idiotice. Enfiei a mão no fundo do bolso, encolhi os ombros e respirei fundo, enchendo meus pulmões de ar para tomar um golpe de coragem.

Eu me sentia tão fraco ou era ela a culpada por me fazer parecer menor?

Encostei-me à parede, junto à janela do quarto e vi a chuva torrencial que caia. Abri o celular, olhei as teclas iluminadas pelo fundo azul. Pensei, olhando para a água batendo contra a janela. Decidi:

_Alô, Cris?

_Oi, fala...

"Oi, fala?" _ Repeti, mentalmente, tendo agora certeza que eu estava bancando o papel de chato e bobo.

_Igor?

_Oi. É que... eu só queria saber se você chegou bem. Está chovendo muito.

_Ah! _ Cris riu surpresa, coroando minha suspeita de que, sim, eu estava sendo infantil. Era lógico que ela iria se virar bem sozinha, sem mim, era uma mulher muito decidida. _ Na verdade, eu ainda não cheguei em casa...

_Hum, claro. _ cocei a testa com o polegar e sentei na cama. _ Você ainda está no trabalho.

_Estou. _ ela respondeu, entendendo minha observação como pergunta.

_Na verdade, estou no meio da rua, ilhada. O túnel Rebolças teve um deslizamento, o trânsito não anda. Está tudo alagado. Não vou conseguir chegar em casa hoje.

_Eu posso te buscar.

_Não precisa, querido. _ ela riu um riso cansado.

_Mas eu posso fazer isso.

_Vir aqui me buscar? _ não deu crédito.

_É.

_Nessa chuva? Você não está entendendo, está caindo o mundo aqui. Os carros não andam, eu chegaria a pé mais rápido em casa.

_Você sabe andar de moto?

_Precisa saber?

_Não. _ ri. _ Onde você está exatamente?




Anotei mentalmente a localização e dei um pulo da cama.

Abri o guarda-roupa e tirei minha jaqueta de couro preta. Parei na frente do espelho e enfiei os braços. Fiz um impulso com os ombros para frente e ela encaixou perfeitamente no meu corpo. Fechei os botões no pulso.

Peguei também um casaco no guarda-roupa, Cris ia precisar. Procurei minha mochila vermelha e enfiei o casaco dentro para não molhar.

_Aonde vai? _ ouvi a voz de Karen, sentada na sala, escrevendo no laptop e falando ao telefone. Ela colocou a mão no fone para abafar sua voz. _ Ainda temos que tratar sobre...

_Já passou do seu horário. Quando eu voltar, queria que não estivesse aqui, por favor._ olhei para o relógio e fiz um sinal de até logo com o dedo indicador e o médio unidos na testa.

Karen esperou que eu dissesse mais alguma coisa, pois não estava entendendo nada.

_Igor! _ ela levantou-se, mas não pode ir mais à frente, pois estava presa pelo fio.

Eu sorri-lhe e abri a porta da varanda. Desci os três degraus aos pulinhos e caminhei pela área coberta da garagem. Parei diante da minha moto Suzuki prata de 750 cilindradas.

_Vou te levar para passear, minha garota! _ falei para meu brinquedinho preferido.

Subi na moto, coloquei as luvas pretas e coloquei o capacete.

O segurança abriu o portão para mim e eu fiz um sinal positivo com a mão.

O caminho foi feito sob muita chuva, entrecortando os labirintos do engarrafamento, mas eu estava feliz, ao passo que as pessoas pareciam irritadas. Era uma sensação de liberdade não ser "ninguém" em meio a confusão. Elas, finalmente, estavam prestando atenção em si mesmas e me deixando em paz.

Não podia correr mais que aquilo na pista molhada, mas só em sentir o vento frio e o meu corpo cortando o ar já valia a aventura. A moto traz um poder diferente do carro, nos faz sentir integrados à paisagem.

A gente não anda de moto, desfila. Nas veias, corre a adrenalina e a máquina responde que sente o mesmo com seu poh-poh-poh ... poh-poh-poh. Não é só poder chegar a mais de 200 km/h é sentir a liberdade almejada no vento contra o peito, enquanto o coração compassa acelerado, no ritmo do possante motor.

Parei sob uma marquise e puxei meu celular do bolso. Tirei o capacete e redisquei o número dela.

_Demorei muito? _ perguntei.

_Já?

_Eu pensei que tinha chegado a pé em casa. _ olhei para frente e a vi caminhando na minha direção com o cabelo molhado, abraçada a sua bolsa.

Ela sorriu de lado, tentando não demonstrar que estava feliz pelo pequeno salvamento. Fechou o celular e parou na minha frente.

_Igor! Igor! _ uma garota gritou de algum lugar.

_Você quer mesmo sair daqui? Então, sobe logo.

Cris abraçou-me e eu pisquei para a garota que havia me reconhecido. Coloquei o capacete e dei partida. Mais à frente, parei novamente.

_Que foi? _ Cris perguntou.

_Trouxe uma coisa para você. _ descemos e eu abri a mochila. _ Não deu tempo de te dar antes, porque senão ia começar aquela coisa de sempre... _ ofereci-lhe o casaco. _ Veste o casaco.

_Eu não estou acreditando nisso... _ ela riu.

_Isso o quê? _ subi na moto de novo.

_Nada... _ pôs a mão no meu ombro e sentou atrás de mim. _Para onde vamos?

_Você prefere ir para casa a pé ou para a minha? _ perguntei, virando minha cabeça para trás.

_Acho que quem está no comando agora é você.

Eu sorri, olhei para frente e acelerei.

***

_Eu pensei que ia ter que dormir em algum papelão, hoje. _ ri e Igor tirou a jaqueta.

Eu também deixei o casaco molhado na área de serviço, próximo à máquina de lavar roupa. Descalcei o sapato de bico fino.

_Meus pés estão destruídos. _ fiz uma careta de dor e depois senti uma sensação de alívio ao tocar o chão frio com toda a sola do pé, sem a inclinação do salto.

_Vou pegar uma roupa seca para você. Tem uma coisa que aposto que vai gostar.

_O quê? _ segui-o.

Fomos até seu quarto e ele abriu o guarda-roupa.

_Pode escolher uma camisa e um short aí. _ disse-me e entrou no banheiro da suíte.

Eu fiquei parada, sem saber o que fazer. Aquilo não era real! Por que o destino me trazia tantas vezes a ele? Mal se passara algumas horas e eu estava de volta à sua casa.

_Eu sei que não faz o seu tipo, mas também não é tão difícil assim. _ Igor riu e se inclinou para pegar uma camiseta branca e um short verde, desses de jogador de futebol. Estava sem camisa e pude ver suas costas nuas. _ Ou prefere uma calça? Tem essa aqui, é mais quente. _ trocou pelo short na minha mão e me ofereceu.

_ Obrigada. _ aceitei e ele ficou me olhando.

_Ah! O que eu queria te mostrar. _ Igor chamou-me até o banheiro. _ Tenho certeza que dessa água você não vai querer fugir. _ mostrou a banheira cheia.




Eu fiquei séria. Olhei para a água da superfície e pude imaginar a profundidade. Meu coração disparou e eu senti as lembranças horríveis começarem a vir à tona.

_Está bem quente... _ ele passou os dedos no espelho d’água e sorriu para mim.

O vento bateu a porta do banheiro, assustando-me.

Senti como se minha cabeça estivesse sendo enfiada na banheira até o fundo outra vez. A mão estrangulando o meu pescoço e empurrando meu rosto para baixo. O ar faltando nos pulmões e as bolhas saindo pelo meu nariz no fundo da banheira.

Deixei as roupas caírem das minhas mãos, eu precisava respirar. Abri a porta do banheiro com as mãos trêmulas, corri pelo corredor, desci a escada com o coração acelerado, atravessei a sala às pressas. Puxei a porta da varanda para o lado e, finalmente, consegui inspirar o ar gelado e úmido.

Levei as duas mãos ao rosto e afastei meu cabelo para trás. Encostei-me à parede e senti que não ia agüentar. Meu queixo começou a tremer como a terra estremece anunciando o terremoto. Limpei as primeiras lágrimas ao ouvir a voz de Igor, chamando meu nome.

_Que houve? _ perguntou e eu me afastei para o lado, escorregando na parede.

_Nada... _ fiquei de costas e caminhei mais adiante. Cruzei os braços.

_Hei. _ senti sua mão no meu braço e ele me virou para si, fazendo-me dar dois passos à frente.

Mordi os lábios e fiquei com os olhos cravados no chão.

_Alguma chance de você esquecer o que viu? _ usei a sua mesma frase de hoje de manhã.

_Como quiser... _ ele me fez descruzar os braços e me puxou. Abracei-o e encostei meu rosto no seu peito. _ ...Não quer me contar o que houve?

_Eu tenho hidrofobia. Uma pessoa tentou me afogar uma vez...

_Quem?

_Um ex. _confessei. _Parece que estou sentindo minha cabeça enfiada à força na água e não consigo respirar, é tão horrível.

_Não acredito... _ ele balançou a cabeça para os lados horrorizado.

Respirei fundo. Fazia tempo que eu tentava lidar com aquilo.

_É... mas passou. _ disse-lhe, não queria estragar a noite com as lembranças.

_Claro. _ engoliu em seco. _ Olha, pode tomar banho, então, no banheiro do corredor.

_Obrigada. _ agradeci, envergonhada.

Enquanto a água caía pelo meu corpo, repassei mentalmente tudo o que tinha acontecido naquela tarde, depois de sair da casa de Igor. Como eu estava no meio do engarrafamento, pude fazer a cobertura exclusiva do deslizamento de terra sobre o túnel e o desespero das pessoas pulando da janela dos ônibus que tinham ilhado no meio da enchente. Consegui passar todos os dados para a redação e salvar o meu dia. Estava realizada, só faltava uma maneira de voltar para casa como aquelas pessoas. Agora eu tinha o mesmo problema que elas. Até que o telefone tocou e eu atendi, olhando para o caos à minha volta. Era Igor.


Agora estava ali, vestida com a roupa dele. Caminhei pelo corredor e o encontrei olhando a chuva, encostado na porta da varanda. Estava com um fino casaco de mangas compridas azul claro e uma calça jeans do mesmo tom.

Ele sentiu minha presença e virou-se.

_Com fome? _ perguntou.

_Muita. _ sorri.

Li Mendi
(www.lianotacoes.blogspot.com)

5 comentários:

aninha disse...

sem comentários Li!!!! esses dois estão super lindos!!!!!!! dois mundos totalmente diferentes tentando se encontrar!!!!perfect!!!!!! perfecto!!!!

o diário de carolina acabou de ser atualizado!!!!

www.odiariodecarolina.zip.net

Deisinha Rocha disse...

uauuuu...

Ele: pânico.
Ela: hidrofobia...

estamos bem...

ta lindo eles dois, esse comecinho... ele com kedinha pra ela... ela só nas laterais...

rsrs

só falta o beijooooo...

rsrsrs

bjOo Li...

Li disse...

nas laterais. haha
parece jogo de futebol isso.
vamos que vamos rs.
vejo vcs nos próximos capítulos hen!!!

sarah disse...

Nossa LI q lindo to começando a me apaixonar por esse Ygor!
rs bjs

Li disse...

adoro essa música. é demais não?

From the 1968 release "Steppenwolf"




Words and music by Mars Bonfire

Get your motor runnin'
Head out on the highway
Lookin' for adventure
And whatever comes our way
Yeah Darlin' go make it happen
Take the world in a love embrace
Fire all of your guns at once
And explode into space

I like smoke and lightning
Heavy metal thunder
Racin' with the wind
And the feelin' that I'm under
Yeah Darlin' go make it happen
Take the world in a love embrace
Fire all of your guns at once
And explode into space

Like a true nature's child
We were born, born to be wild
We can climb so high
I never wanna die

Born to be wild
Born to be wild