1 de dez de 2007

Cap 22: Contra a parede (Igor)

Ela me olhou com ar de urgência e mulheres com pressa não permitem a poesia da película, vira tudo um clipe entre cortado, movimentos bruscos. Não é arte, é produto. Eu não queria um livro, eu queria uma obra!

_Não consigo. _ ri, constrangido. Tentei me ajeitar na cadeira, talvez fosse a posição. _ Eu fico travado.

_Quer chamar sua assessora? _ perguntou, friamente.

_Eu quero não me sentir espremido contra a parede!

_Desculpe, mas acho que não fiz nada.

_Não, justamente. Esse jeito de esperar alguma coisa de mim trava tudo.

_Jeito? _ ela repetiu.

_Não e uma matéria de jornal!

_Eu sei que não é.

_Mas está fazendo parecer! _ reclamei.

_Desculpe, talvez eu não seja boa... _ ela levantou-se e foi até a varanda tomar um ar.

_Não é isso. _ falei atrás de Cris. _ Eu queria que se soltasse mais.

_O livro é sobre mim ou você?

_É sobre mim, mas depende de você.

_Hum. Vamos tentar outra vez. _ passou à minha frente e sentou-se no sofá. Antes, desligou o gravador e abriu o bloco de anotações. _ É melhor eu só tomar nota.

Sem ser brusco, puxei o caderno de sua mão.

_Só olhe para mim.

Ela hesitou, mas me encarou fixamente.

_Eu sei o que você quer.

_O quê? _ perguntei.

_Não é um livro, é atenção.

_E se for?

_Está alugando uma amiga? _ franziu a testa.

_Você consegue colocar as coisas em uma posição sempre diferente da que eu imagino.

_Esse livro não é um foco, é um meio.

Não a contradisse, senti que não tinha terminado.

_Não é um objetivo, é uma desculpa. Então, por que eu?

_Porque só você perceberia isso. _ respondi. _Viu? Acho que já foi um bom começo. _ observei.

Ela sorriu.

_Isso é uma conversa! _ falei-lhe.

_Eu não estou muito acostumada a interagir assim, porque minha opinião não vale tanto, eu tenho que ouvir a fonte.

_Eu não sou uma fonte, mesmo sendo ainda seu interlocutor. _ resmunguei.

_Prometo tentar me adaptar.

_Vamos almoçar?

_Você e eu?

_É. Estritamente profissional!

_Ãnh... Tá.

Ela sentou-se à mesa da cozinha comigo e minha empregada nos serviu.

_Não me parece nada profissional.

_Você está escrevendo um livro que é pago, eu sou o personagem principal, portanto, isso aqui é profissional. _ tentei levá-la por esse raciocínio.

Karen apareceu, perguntando se íamos demorar. Eu disse que poderia levar toda a tarde.

_Olha as falas, hen?

_Vou memorizá-las. _ garanti-lhe e nos deixou à sós.

_Como agüenta? _ Cris perguntou.

_Isso será parte do livro?

_Você disse que ia censurar mesmo... _ ela riu.

_Eu não agüento. _ mordi a batata frita.

Rimos juntos.

Li Mendi

(===> Também escrevo em trilhasdavidalucyli.blogspot.com <===)