31 de mar de 2008

Cap 27: Alvo certeiro (Igor)

Abri o papel para saber se era alguma coisa sem importância deixada por mim em cima da apostila ou se, de fato, como eu suspeitava, alguém jogara pela fresta da porta do armário.

_“1015anonimo, agora você é merecedor”. _ li baixinho e olhei para os lados, percebendo que acabava de ganhar a senha para entrar no mundo paralelo e virtual daquela escola. O número era o mesmo da localização do prédio, o que vim a descobrir na hora da saída, ao encontrar Rui.

_Cuidado com o que vai fazer com isso. _ advertiu.

_Não é anônimo? _ perguntei.

_Sim, mas o efeito reverso da sua vingança pode ser verdadeiro. Cuidado. Não quero me arrepender por ter te revelado.

_Não se preocupe, o meu alvo está bem focado. _ olhei fixamente para o grupo de Tiago.

_Imaginei que ia querer partir para o ataque. _ falou baixinho ao meu lado.

_Para encaçapar a bola preta é preciso uma boa tacada... _ comentei enigmático com um pé apoiado no muro.

_Eu prefiro nem imaginar em que consiste seus requintes de crueldade.

Quando cheguei no dia seguinte à escola, depois de ter ficado de castigo por tempo indeterminado pelo meu pai, eu tinha uma só grande tarefa: mirar com muita concentração a ponta do taco e estudar o melhor ângulo da minha bola tacadeira. Depois, atingir uma a uma: a vermelha (1 ponto), amarela (2), verde (3), marrom (4), azul (5), rosa (6) e finalmente alcançar a preta (7).

Inclinei-me sobre a tarefa e sentei-me atrás de Michele na aula de biologia. Suas amigas se dispuseram ao seu redor, deixando no ar um ruído quase de abelhas zumbindo gritinhos, risos e frases soltas. Por fim, chegou a hora de empurrar o taco e fazê-lo deslizar entre os dedos. Uma última respiração.

_Você vem com a gente hoje para a academia, às cinco?

_Acho que vou mais tarde. _ disse Michele.

_Por quê? Vai encontrar com o Tiago é?

_Não... A gente já não está mais junto. Ele é que ainda se considera meu namorado.

_Então, vai fazer o quê?

_Eu vou estudar, preciso recuperar o tempo perdido. Ficarei na biblioteca.

_Quer que a gente te faça companhia?

_Não, não!

Notei um certo tremor naquela voz e percebi que faltava poucos segundos para as bolas girarem, produzindo um mágico barulho de estalidos. Segui-a pelo corredor, mantendo distância e invisibilidade no formigueiro de alunos. Parei no bebedouro para disfarçar e, por fim, cheguei na frente da porta de vidro da biblioteca. Não entrei. Se alguém me visse poderia me comprometer.

Michele sentou ao fundo e um rapaz de costas para a porta já estava à sua espera.

_Estudando junto, abelha rainha? _ puxei o celular do bolso e ativei a câmera.

Mirei, procurei a melhor posição e... clique.

--> Bastidores: Como assim só “clique”? O que ele vai fazer com isso? Por que sentimos que até a bola preta muitas outras também serão atingidas... hummm, quero mais! Até a próxima.

30 de mar de 2008

Cap 26: Furor (Igor)

Tiago chegou na sala com cara de inocente, mas ele não ia sair dali com uma pena menor que a minha. A diretora relatou a minha versão e eu mantive o olhar fixo na parede.

_Isso é mentira! Eu não tenho motivos para..._ Tiago negou.

_Peça o caderno dele e compare o tipo da folha. _ falei em voz baixa.

Ele relutou em abrir a mochila, justificando que era um ultraje à desconfiança.

_É... Não parece ser a do seu caderno...

_Ele tem mais de um dentro da mochila. _ lembrei-a.

Tiago entregou e, dessa vez, senti que estava vacilante. Mas, infelizmente, o papel não era igual também. É provável que tenha sido uma folha de agenda ou algo do gênero.

_Por que não confessa logo que tentou me prejudicar? _ irritei-me e fiquei de pé. A diretora também se levantou, percebendo que o clima de paz tinha chegado ao fim.

_Cala essa boca, seu idiota. _ perdeu a paciência e partiu para cima de mim.

Agarrei-o pela gola da camisa e o pus contra a parede. Não sei de onde tirei aquela força.

_Confessa que você fez de propósito! _ bati sua nuca contra a parede.

_Parem os dois ou estarão expulsos! _ ela gritou e eu o larguei. _ Tiago, você tem alguma coisa a dizer?

_... Não.

_Eu espero que não descubra mais nada, porque isso te colocaria fora desse colégio! Eu não aceito mentiras! Você realmente nega o que ele está te acusando?

_Sim.

O sentimento de injustiça me fez querer pegar a tesoura em cima da mesa e furá-lo inteiro, mas fechei os punhos com força e contive minha ira.

_Pode sair, então. _ fez sinal em direção a porta e, depois, com as mãos sobre o tampo da mesa, inclinou-se para frente e me olhou fixamente. _ Eu quero o seu pai aqui amanhã.

Caminhei pelo corredor já cheio de alunos que me olhavam curiosos e parei na frente do meu armário. Abri-o e encontrei um pedaço de folha de caderno jogado sobre minhas apostilas. Provavelmente, fora colocado por entre as frestas da porta.

Abri-o.

-> Bastidores= Quem mandou o quê para Igor? Tomare que nos conte logo, logo, e mate nossa curiosidade.

27 de mar de 2008

Cap 25: Visibilidade (Igor)

Entrar naquela escola no dia seguinte a briga me fez olhar para todos com desconfiança. Só eu tinha aquele sentimento de ser vigiado o tempo todo? Ninguém se rebelava para acabar com essa espécie de perseguição a intimidade alheia? Rui teve uma boa explicação para isso:

_O veneno, quando não mata, cura. _ mastigou o seu hambúrguer deixando o alface cair no colo. Pegou e colocou na boca ainda cheia.

_Como? _ perguntei.

_Assim como ali é um lugar para alfinetar as pessoas, também serve como pódio para vangloriar a garota que ficou mais magra, o cara que é um ótimo jogador e arrasou no campeonato ou divulgar uma festa e tudo que rolou. Enfim, tem seu lado bom.

_Hum... _ bebi minha coca-cola de latinha e fiz uma careta, já estava quente. _ Parece um mundo de celebridade, mas na versão para pessoas anônimas! Elas mesmas alimentam o sistema e elegem quem deve ser o centro das atenções. Mas, mesmo que falem mal delas, ficam felizes, porque estão sendo consideradas mais importantes?!

_Você pega rápido o espírito da coisa. _ ele arremessou a bolinha do guardanapo no cesto de lixo e errou.

_E como faz para entrar no sistema?

_Tem que merecer... _ levantou-se e pegou sua mochila. O sinal havia tocado.

Ainda fiquei ali por um tempo. Olhei para as garotas sentadas na escada mais à frente. Michele ocupava o degrau mais alto, enquanto as outras as olhavam de baixo, admiradas com sua beleza loira.

Voltei para a aula e me preparei para um teste de geometria muito chato. Resolvi algumas questões e depois fiquei coçando a minha cabeça com um lápis. O namorado de Michele passou por mim e deixou cair um papel em minha mesa. Abri-o e vi que estavam as respostas da prova. Não entendi, por que ele...

_Igor? O que é isso em sua mão? _ ouvi a voz da professora e um arrepio percorreu minha espinha.

_Nada. _ amassei e senti que podia molhar o papel com o meu suor transpirando nas mãos.

Olhei a cara sorridente dele atrás dos ombros da professora e implorei para Deus me safar daquela e fazer a professora acreditar em mim. Ela se aproximou, andando a passos lentos entre as cadeiras e com braços cruzados.

_O que é isso? _ pegou o papel.

_Professora, eu costumo corrigir o gabarito da prova em casa, quando a escola lança na Internet. Mas eu não sou muito bom de memórias para seqüência de letras, então, anotei para mim.

_Você quer que eu acredite nisso?

_Não tem ninguém sentado na minha frente, nem atrás, como eu iria passar esse papel, ou pegá-lo?

Ela me olhou por cima dos seus óculos e depois mais uma vez para o papel.

_Se é assim, por que anotou a letra “a” na resposta número um e marcou na sua prova a letra “b”? Por que marcou no papel a letra “c” e na prova letra “b”?

A turma riu baixinho e o mentor da minha execução me encarava. Fechei os olhos lentamente, quando ouvi a ordem para sair. Não iria agora desmentir a minha própria.

_Você vai explicar isso para a diretora.

Caminhei pelo corredor como quem vai para o abatedouro. Meu pai passou a vida inteira dizendo que colar era uma vergonha. Ele iria me pendurar por ganchos na pele em cima de uma árvore, como fazem os índios para punir um transgressor!

Sentei diante da diretora que olhava para o pedaço de papel rasgado como se procurasse meu DNA ali.

_ Por que colou, Igor? Você não precisa disso.

_Eu não colei!

_Ah! Não?

_Não... Se eu contar a verdade não vai acreditar...

_Experimente.

_Um dos alunos passou pela minha mesa e jogou o papel. Eu apanhei para ver o que era e nesse momento a professora viu.

_Está dizendo que ele queria te ajudar e isso não seria cola?

_Ele queria me prejudicar. _ consertei.

Eu, no lugar dela, também me acharia ridículo contando aquela historinha, mas não tinha escolha.
_Nós brigamos ontem e ele queria descontar...

_Hum...

_Eu tenho várias respostas diferentes das do papel. Isso prova que não colei! Eu sei que pode parecer mentira, por isso, não contei a verdade para a professora.

_Quem foi o aluno que fez isso?

_Tiago Matos.

Ela pegou o telefone e pediu que a secretária o chamasse. Eu poderia ser punido, mas ele não ficaria de fora dessa. Se é para se ferrar, então, vamos juntos!

***
---> Bastidores: Será que a situação de Igor vai melhorar ou piorar? Você verá no próximo capítulo. Imperdível!

25 de mar de 2008

Cap 24: Para o bem ou para o mal (Igor)

As folhas daquele verão faziam ondas ao vento pelas calçadas. Era meio dia e meia e eu voltava para casa, depois de uma chata rotina de aulas. Sentia-me como aquelas folhas amareladas, seco e sem vida. Sempre ficava assim quando me mudava de cidade por causa da profissão do meu pai. Meu mundo se encerrava em um ponto e logo eu deveria escrever um novo parágrafo em outro lugar. Eu era um hiato depois daquela transferência. Lá estava eu retornando, depois dos primeiro dias de aula do colégio novo. A sensação de ser excluído já era uma velha conhecida, mas que, invariavelmente, me abatia.

Enquanto caminhava sem pressa, cabeça meio baixa pelo sol e pela baixa auto-estima, avistei um grupo de três garotos parados de frente para mim a cinco metros. Voltei a olhar para o chão, não pensei de imediato que pudesse ter alguma coisa a ver comigo até que cheguei próximo a eles e não abriram passagem.

Eu sou dos loucos que acredita que tudo não passava de alguma conspiração da minha própria cabeça e resolvi adiantar um passo a mais para ver se eles se moviam.

_Você é o Igor da 202?

_Sou. _ respondi, temendo os problemas que aquela resposta me traria.

Os garotos se entreolharam. Um deles tinha cabelo loiro e usava a manga do uniforme enrolada para aparecer seus braços malhados. Os outros dois de cabelo preto e curto eram também fortes. Por que me olhavam com aquelas caras de raiva?

_Então, você entrou para o time da escola?

_Eu só participei da seleção e passei...

Fui empurrado para trás com uma mão espalmada sobre o meu peito. Senti que minhas costelas trocaram de lugar. Não adiantava olhar para os lados, era só entre nós e eu ia apanhar. Lembrei das lições de meu pai sobre não usar a violência. Mas ali era uma questão de legítima defesa.

_Qual é? _ perguntei, estufando o peito para frente em um ataque de coragem que, repito, só típico dos malucos.

_Você acenou para a Michele no fim do jogo de ontem...?

_Hei! Eu não acenei para ninguém! _ disse ao cara loiro. Então, aquilo tinha a ver com uma garota?_ Não especificamente... A arquibancada estava lotada e...

_Ela tem namorado, sabia? _ contou-me.

_ E ele é você? _ perguntei.

_Sou eu! _ apontou com o polegar para o próprio peito, um “sósia do Rock Balboa”.

_Ah! Então, você toma as dores dos outros? _ perguntei sarcástico para o de cabeça de ovo.

_Seu... _ senti meu queixo virar uma pedra arremessada no ar acompanhada pelo meu corpo em trajeto de meteoro.

_Pega leve, eu... _ senti um chute no estômago que me fez curvar em posição fetal.

Eu não tinha tempo para diplomacias se quisesse chegar inteiro em casa. Ou corria, ou terminaria como o esqueleto do laboratório de biologia interligado por pequenas argolas de aço inox. Virei-me de costas e me pus de joelhos para logo conseguir ficar de pé. Os três pareciam formar um único ser dotado de múltiplos braços e pés. Comecei a correr e eles apertaram o passo, ainda mais velozes. As pessoas da rua começavam a nos olhar como se eu fosse algum assaltante que tentava escapar, mas, graças ao meu uniforme vermelho do colégio, ninguém tentou me conter.

Virei a esquina em alta velocidade e me senti uma daquelas motos de corrida que fazem o piloto quase tocar o joelho no solo na curva. Conforme aumentava o ritmo, a mochila rebatia nas minhas costas, chacoalhando meus cadernos e moedas que tinha dento. Tropecei e senti que ia dar de queixo no chão, mas voltei ao equilíbrio a tempo de olhar o sinal de trânsito piscando. Em um relance, procurei-os atrás de mim. Estavam perto o suficiente para eu querer voar sobre a faixa de pedestres. Corri a passos largos e dois deles conseguiram me alcançar. Os carros tomaram a pista e um ficou para trás.

Subi aos trotes uma rua de ladeira, o que foi uma péssima idéia, pois era mais difícil escapar. Aquilo era uma fuga e não um treinamento para a corrida de São Silvestre. O ar me faltava e os músculos da minha perna pareciam distendidos ao máximo. Saltei por cima de uma mangueira de água de uma mulher que lavava a calçada e depois me curvei para passar por baixo de um fio de linha de pipa preso entre dois postes de luz. Um garoto passava cerol com a mão em formato de concha. Senti meu pescoço arder. Passei a mão e verifiquei que era sangue.

_Droga! _ parei, completamente sem ar no final da ladeira e senti minha camisa sendo puxada por dois punhos fechados, que me viraram de frente. Depois, com um empurrão, caí no chão. Engatinhei de costas para trás.

_Você vai aprender as regras dessa escola... _ o cara se abaixou para me pegar pela gola da camisa.

Eu estava prestes a virar carne moída, quando ouvi um latido de cachorro. Pelos olhos do meu quase assassino, constatei que ele não ficou feliz com o que viu. Virei o pescoço para o lado, engolindo em seco, e encontrei o meu anjo da guarda que chegara. Era um garoto magro, alto, de cabelo castanho enrolado, que usava óculos de aros prateados.

_Larga ele! _ pediu.

_Qual é, Rui? Vai dar um de bonzinho? _ ironizou o cara que me segurava.

_Se não soltar ele, vai saber com quantas mordidas meu cachorro vai arrancar o seu rosto. Sabia que a dentada pode equivaler a 50 kg? _ disse-lhes e eu só não tive pena de seu ato de coragem, porque seu cachorro realmente era de temer e já começava a latir alto.

_Você não...?

_É só soltar a corrente e dar o comando. _explicou.

Inacreditavelmente, o cara me largou e com muita raiva afastou-se de nós, puxando seu amigo pelo braço. Eu respirei fundo e deixei minha nuca encostar no chão. Abri os olhos e estes ficaram ofuscados pela luz do sol e pude ver que o recém-chegado estava ali ainda.

_Obrigado. _ agradeci aliviado.

_Você anda mexendo com pessoas erradas. _ falou.

_Eu não entendi nada... _ sentei-me. _ Ele acha que eu dei em cima da namorada dele. Tá louco... _ passei a mão novamente no pescoço e vi que se sujou de sangue. Não tinha estancado ainda.

_Quem mandou você acenar para Michele? _ perguntou.

Olhei para ele surpreendido, como sabia?

_Eu não acenei! E por que está perguntando isso?

_Todo mundo já sabe. _ riu.

_Como assim “todo mundo”. Existe algum alto-falante na escola que transmite as últimas notícias? _ perguntei sarcástico.

_Eu moro naquela casa ali. _ apontou para o outro lado da rua, sem responder ao que eu havia perguntado. _ Vamos lá, levanta aí. Tem que limpar esse corte.

_Não precisa... _ disse-lhe.

_Você mora perto?

Se eu chegasse assim em casa, minha mãe ficaria muito brava. Era bom me virar.

_Mais ou menos perto.

_Então, vamos lá. _ seguiu na frente, puxando o cachorro.

Foi assim que conheci meu melhor amigo Rui. Ele tinha me livrado dos três trogloditas e me fez entender o porquê da fúria destinada a mim.

Entramos por um portão de ferro da altura do meu peito que rangeu agudamente. Subimos dois degraus e entramos na sala de piso de taco de madeira. Sua mãe, que almoçava na sala com o prato no colo, abaixou o som do telejornal e se assustou. Rui foi mais rápido e explicou-lhe que eu era seu colega de escola que havia encontrado machucado quando fora levar o cachorro para passear.

_Tem curativos no banheiro do corredor. Querem ajuda?

_Pode deixar. _ ele fez um sinal com a mão para acompanhá-lo.

_Ai... _ senti arder ainda mais com a água fria da torneira que passei no corte. _ Minha mãe não vai gostar nada de ver a minha cara vermelha.

_Use um pouco desse pó da minha mãe. _ sugeriu.

_Espero que não fique roxo.

_Coloca bastante gelo. _ aconselhou. _ Eu vou te emprestar uma camisa.

_Nem sei como agradecer... Vou te dever essa. Eu só ainda não entendi por que aqueles caras estavam com tanta raiva e como sabia o motivo da briga.

_Vou te mostrar uma coisa. _ chamou-me até seu quarto. Abriu o guarda-roupa e tirou uma camiseta para mim. Depois, ligou o computador na escrivaninha. _ As turmas 201 e 202 têm uma rivalidade de anos. Somos de um colégio muito tradicional e todos se conhecem.

_Essa parte eu já percebi sozinho. _ disse-lhe com a voz abafada pela blusa que passava pelo meu pescoço para sair da minha cabeça.

_Mas, as disputas não ficam reservadas aos torneios esportivos ou feiras de ciências. Na Internet, também há arenas de luta.

_Que site é esse? _ perguntei vendo-o acessar um blog de fundo verde musgo.

_É da turma da escola. Cada uma tem um blog e são neles que estão os “alto-falantes”.

_Hei! Essa foto é minha! _ apontei para a tela. _ O que eu estou fazendo aí?

_Você está mandando um beijo para a arquibancada...

Era disso que o garoto que me bateu se referia? Então, ele lera no site?

_Quem tirou isso? Quem...? _ perguntei.

_Aqui não há nomes. Mas uma senha mágica que faz todos serem autores anônimos...

Sentei-me em sua cama, era muita informação para minha cabeça já em cacos.

_É uma foto tosca de celular! _ desdenhei furioso.

_Alguma garota tirou e publicou. Elas são verdadeiros abutres sobre as notícias mais quentes da escola.

Levantei e me aproximei da tela para ler:

_ “Quem é o novo garoto que chegou para tirar o posto do Tiago Matos? Um forasteiro com um abdômen que vai deixar o nosso astro do futebol pensar duas vezes antes de pedir Coca-Cola no cinema. Se cuida, cara, sua gatinha está atenta e nós também, não é, meninas?” _ eu li incrédulo a legenda da minha foto. _ E essa foto debaixo é da Michele? Não pode ser... Montaram isso!

_Para o seu bem e para o seu mal, você é a fofoca da vez.

_Eu acho que isso tudo é uma grande besteira... _ peguei a minha mochila e fui para casa.

Tentei a todo custo não preocupar meus pais. Tive medo de que descobrissem o motivo do meu machucado e irem à escola. Não queria vê-los como tema daquele site! Veja como eu estava temendo aquele blog idiota. Eu só ainda não sabia que ia precisar dele para sobreviver ao que estava por vir.

***

_Então, foi assim que conheceu o seu amigo Rui? _ Cris perguntou.

_É. E por causa disso não poderia negar o seu pedido de contracenar com Michele.

_Então, você aceitou?

_Não foi por um motivo tão nobre assim... _ confessei e olhei a água dentro do copo que eu segurava. _ Quando eu cheguei em casa, naquele dia que o Rui me fez o pedido de atuar na peça, meu pai disse que iria me colocar em um curso preparatório para uma prova que me levaria à carreira militar.

_Eu não vou ter tempo... _ disse-lhe.

_Mas você só estuda. _ lembrou-me.

Eu precisava ter uma boa desculpa. Não queria fazer nenhum cursinho. Não tinha vontade de ter uma vida itinerante como meu pai. Foi preciso usar a peça da escola à meu favor.

_Agora eu também estou fazendo um trabalho extra-curricular.

_E daí? Ele toma tanto seu tempo?

_Ah! Toma... É uma peça importantíssima.

_Peça?! _ meu pai caiu na risada como se eu tivesse contado uma piada.

_E vale nota. _ tentei salvar os meus argumentos.

_Hum...

Eu estava de certa forma mentindo, mas depois iria me agradecer por ter feito aquilo.

_Então, temos que ver outro horário...

Eu sabia muito bem me apropriar das situações para me virar e conseguir o que queria, ou ao menos não fazer o que não queria.

_ Mas, voltando a relatar a história de como cheguei a minha nova cidade e tinha acabado de descobrir o blog fofoqueiro da turma 201 e 202, eu paguei com a própria moeda a notícia da minha foto comemorando o gol.

_Como? _ Cris perguntou.

******

--> Bastidores: O que Igor elaborou contra a gangue da turma 201? Você vai saber já já.

23 de mar de 2008

Cap 23: Qual caminho seguir ? (Igor)

Sentados, na cozinha, eu procurei um começo para nosso trabalho.

Hum... se eu fechar os olhos para acordar em algum ponto do meu passado que possa ser o marco inicial da linha que me trouxe até aqui, eu estaria na minha cama, encostado à parede sob o edredom azul de âncoras. Já com o sol queimando minha testa, vindo de uma fresta da cortina aberta, ouço a voz de comando do meu pai, Ruan:

_Levanta, Igor, está na hora! Quero ver ano que vem no quartel se vai ser mole assim, hen?

Aquilo conseguia ser pior que um despertador, porque além de pensar em levantar, eu era lembrado todas as manhãs do futuro que me esperava. Mas esse futuro só cabia nos planos dele, não nos meus.

_A prova já está chegando. _ minha mãe Jane colocou a frigideira com ovos mexidos à minha frente.

Eu fiquei em dúvida se ela tinha dito aquilo para mostrar para o papai que apoiava sua meta de me enfiar no quartel, ou se realmente compartilhava do mesmo desejo. Para ela, eu já havia explicado que eu tinha outros planos, no dia anterior.

_E quais são os seus planos, mocinho? _ ela pôs as mãos na cintura, ainda com seu uniforme de enfermeira. Tinha acabado de chegar do trabalho.

_Qualquer um, menos seguir a carreira do papai.

_Qualquer plano não é ter um plano. _ ponderou.

_Mas saber o que não se quer é um começo. _ defendi-me, enquanto zapeava com o controle remoto a programação.

_Igor, você pode muito bem fazer um esforcinho e tentar a prova. O que te custa?

_A minha vida. _ rebati com a voz arrastada.

_Como você é dramático! _ ela riu sarcástica.

_Mãe, sinceramente você quer me ver amargar cinco anos para me formar em uma coisa que vai me tornar infeliz? Você vai ter o prazer de comemorar o massacre dos meus sonhos?

_Puxa, liga logo para o 190 e me denuncia! _ reclamou.

_Não dá para conversar... _ me levantei e fui para o quarto tampar meus ouvidos com meus fones do rádio.

_Só não pense que não vai ao menos tentar a prova. _ avisou com o dedo estendido em minha direção na fresta da porta.

Olhei para o teto e fiquei assim até dormir. E agora me encontro enchendo o pão francês de ovos mexidos no café da manhã.

_ Parece que a filha dos Costa está doente. _ meu pai comentou.

_Você sabe o que ela tem? _ minha mãe perguntou-me.

_Não. _ dei de ombros.

_Como não sabe? Ela estuda na escola com você. _ mamãe mordeu um pedaço de mamão.

_Mas ela não está com o cordão umbilical colado no meu. _ comentei e com um só olhar fulminante do meu pai sobre o jornal eu percebi que tinha sido rude e consertei. _ Ela estuda em outra sala, quase não temos contato. Mas meu amigo Rui pode me dizer alguma coisa. Vou perguntar para ele.

Nem precisei fazê-lo. Rui já exibia uma cara de pouca empolgação no canto da quadra à espera do sinal de entrada.

_E aí?

_A Michele não está bem. Ouvi dizer que está com uma doença grave. Mas as amigas disfarçaram...

_Calma, cara. Não acredite em boatos. _ dei um tapinha em suas costas. Rui já estava apaixonado.

No primeiro tempo de aula tive a chance de passar a história toda a limpo. Ao entrar no laboratório de biologia, fui indicado pela professora para sentar ao lado de Michele e formar com ela uma dupla.

É preciso parar e explicar quem é essa de cabelo cereja e corpo de dançarina baiana. Michele sempre foi para os pais de toda a vila onde morávamos um anjo puro e casto de sorriso doce. Para nós, os filhos, ela era conhecida por outras qualidades bem venenosas. Se não podia ter o que queria, destruía. Essa sua tática a tornou a rainha absoluta da região. As meninas que não conseguiam superar sua beleza e astúcia, escolhiam servi-la a virar seu alvo. Os ódios, que não eram poucos, permaneciam velados por precaução, claro. Quem era ingênuo ou novo no pedaço, era rapidamente tragado para dentro da garganta maldita da ruiva da rua 15. Nesse caso, meu amigo Rui. Não adiantava dizer-lhe que ela só queria usá-lo para mostrar às amigas o quanto podia ficar com qualquer garoto, principalmente os bonitos.

_Oi... _ ela sorriu com sua boca reluzente de brilho labial. Afastei prontamente os olhos a fim de não ser traído pela outra parte do meu corpo que não raciocina.

Ela não me parecia nada doente. Ou será que fingia? Eu não podia sair dali sem essa informação, senão, teria que ouvir as reclamações de Rui. Mas como perguntar? “Então, você está com alguma doença letal?”.

_Já pensou em fazer parte da peça da escola? _ perguntou, sem rodeios.

_Eu? Não...

_Deveria. Você faz o perfil. _ disse-me.

_Qual?

_O bonito.

_...?

_Para o papel, quero dizer.

_Hum...

_É uma peça de Nelson Rodrigues. Minha irmã está dirigindo. Ela está fazendo faculdade de teatro e aproveitou para montar essa peça aqui...

_Legal. _ continuei copiando as instruções que a professora escrevia no quadro.

_Tem certeza?

_Do que?

_Que não quer?

_Não... Vão encontrar alguém melhor.

_Você é o melhor. _ tirou a folha de fichário da minha frente e começou a lê-la, fingindo que não enxergava o que estava no quadro.

_Pode chamar o Rui. _ propus.

_O Rui? Não... Não.

_Ele não é tão bonito?

_... _ Michele chegou mais perto. _... Não é o melhor, como eu disse. _ piscou o olho e sorriu.

Saí da sala no fim da aula agarrando as alças da minha mochila e com o estômago virado. Garota de amigo nosso é quase como uma portadora de uma doença infecto-contagiosa que se pega só em falar perto. Abri meu armário e deixei ali minhas apostilas.

_Igor! _ ouvi a voz de Rui ofegante atrás de mim. Quando me virei, ele já estava chegando ao meu lado, depois de uma corridinha. _ Descobri o que a Michele tem. É muito grave.

Eu quase lhe disse para não acreditar em nada que lhe dissessem, pois ela estava boa em todos os sentidos no primeiro tempo de aula.

_Ela mesma me falou.

_Hum...

_E o que ela tinha? _ ouvi a voz de Cris, sentada no sofá da minha casa, me acordando das minhas lembranças. _ O que seu amigo lhe contou? Era grave?

***

Cheguei em casa com uma sensação gostosa de ter sido útil. Meu grande temor ao sair do jornal foi não conseguir um emprego logo. E veja só o que aquele rapaz mascarado que estragou o meu vestido me trouxe: a resolução dos meus problemas. Estou rindo ao pensar que me refiro a ele como um anônimo quando, na verdade, é um grande ídolo da maioria das garotas e meu também por muito tempo.

Joguei-me no sofá e revirei as folhas do meu bloco de anotações. A história de sua vida se assemelhava facilmente a uma novela. Talvez nem fora tão emocionante assim, mas a trama que Igor enredou para me narrar a origem do seu sucesso era um tanto folhetinesca. Como jornalista, devo desconfiar de tudo, até mesmo se estes personagens que ele me conta são reais. E, se são, teriam tido as mesmas reações que ele me descrevera? Não sei, acho que no fim, sob sua ação de contar e a minha de redigir, resultará em uma terceira história com uma mistura de nossas versões.

Depois de um revigorante banho e uma xícara de café forte, me debrucei sobre o teclado do computador e comecei a digitar.

"Quando Igor encontrou Rui.".... Nãooooo. Apaguei. Foi o Rui que encontrou o Igor na saída da escola. Recomeçando.

Quando Rui encontrou Igor ofegante, trazia a notícia sobre a garota dos cabelos de cereja. Igor, por sua vez, não pareceu em nada entusiasmado em descobrir a tal doença da menina, pois desconfiava que era algum plano para conseguir um capricho.

_Ela está com um problema no fígado e vai operar.

_É sério?

_Sério, estou te falando.

_Não! Quero saber se é sério, se é grave. _ ele consertou.

_É. Vai operar. Só que os pais dela estão arrecadando dinheiro. A peça da escola vai ser cobrada uma entrada e o fundo vai servir para pagar a cirurgia.

_Caramba. Ela me parece tão bem.

_Pois é. E você vai precisar ajudá-la.

_Eu? Bom, eu posso comprar o ingresso para ir à peça...

_Não, cara, ela precisa de alguém para atuar com ela.

_Mas, por que eu? O que te faz pensar que eu posso ser bom?

_Você vai dar bilheteria.

_Não acredito que ela te falou isso.

_Isso se vê. O que importa é que ajude. Você não vai se sentir culpado se ela não conseguir juntar o dinh...

_Calma, calma. _ Igor riu. _ Que pressão psicológica é essa?

_Eu gosto dela.

Igor olhou para o amigo e sentiu que Michele não merecia um cara tão legal. Porém, tinha o dever de ajudá-la apenas para fazer o amigo feliz e lhe retribuir todos os favores.

_Não sei. Eu tenho que me preparar para uma prova que meus pais querem que eu faça... Eu vou pensar e te falo.

Igor foi para casa preocupado, não com a prova, mas com o pedido de seu amigo. Se por um lado Michele era a rainha da escola, Igor sem dúvida era o rei. Esses dois epicentros de atenção, porém, não tinham um passado pacífico para lembrar e guardavam uma rivalidade antiga.

******

--> Bastidores: No próximo capítulo, Igor vai descobrir que pode usar o convite ao seu favor. Não perca! Uma pessoa não gostará nada disso...

Li Mendi