23 de mar de 2008

Cap 23: Qual caminho seguir ? (Igor)

Sentados, na cozinha, eu procurei um começo para nosso trabalho.

Hum... se eu fechar os olhos para acordar em algum ponto do meu passado que possa ser o marco inicial da linha que me trouxe até aqui, eu estaria na minha cama, encostado à parede sob o edredom azul de âncoras. Já com o sol queimando minha testa, vindo de uma fresta da cortina aberta, ouço a voz de comando do meu pai, Ruan:

_Levanta, Igor, está na hora! Quero ver ano que vem no quartel se vai ser mole assim, hen?

Aquilo conseguia ser pior que um despertador, porque além de pensar em levantar, eu era lembrado todas as manhãs do futuro que me esperava. Mas esse futuro só cabia nos planos dele, não nos meus.

_A prova já está chegando. _ minha mãe Jane colocou a frigideira com ovos mexidos à minha frente.

Eu fiquei em dúvida se ela tinha dito aquilo para mostrar para o papai que apoiava sua meta de me enfiar no quartel, ou se realmente compartilhava do mesmo desejo. Para ela, eu já havia explicado que eu tinha outros planos, no dia anterior.

_E quais são os seus planos, mocinho? _ ela pôs as mãos na cintura, ainda com seu uniforme de enfermeira. Tinha acabado de chegar do trabalho.

_Qualquer um, menos seguir a carreira do papai.

_Qualquer plano não é ter um plano. _ ponderou.

_Mas saber o que não se quer é um começo. _ defendi-me, enquanto zapeava com o controle remoto a programação.

_Igor, você pode muito bem fazer um esforcinho e tentar a prova. O que te custa?

_A minha vida. _ rebati com a voz arrastada.

_Como você é dramático! _ ela riu sarcástica.

_Mãe, sinceramente você quer me ver amargar cinco anos para me formar em uma coisa que vai me tornar infeliz? Você vai ter o prazer de comemorar o massacre dos meus sonhos?

_Puxa, liga logo para o 190 e me denuncia! _ reclamou.

_Não dá para conversar... _ me levantei e fui para o quarto tampar meus ouvidos com meus fones do rádio.

_Só não pense que não vai ao menos tentar a prova. _ avisou com o dedo estendido em minha direção na fresta da porta.

Olhei para o teto e fiquei assim até dormir. E agora me encontro enchendo o pão francês de ovos mexidos no café da manhã.

_ Parece que a filha dos Costa está doente. _ meu pai comentou.

_Você sabe o que ela tem? _ minha mãe perguntou-me.

_Não. _ dei de ombros.

_Como não sabe? Ela estuda na escola com você. _ mamãe mordeu um pedaço de mamão.

_Mas ela não está com o cordão umbilical colado no meu. _ comentei e com um só olhar fulminante do meu pai sobre o jornal eu percebi que tinha sido rude e consertei. _ Ela estuda em outra sala, quase não temos contato. Mas meu amigo Rui pode me dizer alguma coisa. Vou perguntar para ele.

Nem precisei fazê-lo. Rui já exibia uma cara de pouca empolgação no canto da quadra à espera do sinal de entrada.

_E aí?

_A Michele não está bem. Ouvi dizer que está com uma doença grave. Mas as amigas disfarçaram...

_Calma, cara. Não acredite em boatos. _ dei um tapinha em suas costas. Rui já estava apaixonado.

No primeiro tempo de aula tive a chance de passar a história toda a limpo. Ao entrar no laboratório de biologia, fui indicado pela professora para sentar ao lado de Michele e formar com ela uma dupla.

É preciso parar e explicar quem é essa de cabelo cereja e corpo de dançarina baiana. Michele sempre foi para os pais de toda a vila onde morávamos um anjo puro e casto de sorriso doce. Para nós, os filhos, ela era conhecida por outras qualidades bem venenosas. Se não podia ter o que queria, destruía. Essa sua tática a tornou a rainha absoluta da região. As meninas que não conseguiam superar sua beleza e astúcia, escolhiam servi-la a virar seu alvo. Os ódios, que não eram poucos, permaneciam velados por precaução, claro. Quem era ingênuo ou novo no pedaço, era rapidamente tragado para dentro da garganta maldita da ruiva da rua 15. Nesse caso, meu amigo Rui. Não adiantava dizer-lhe que ela só queria usá-lo para mostrar às amigas o quanto podia ficar com qualquer garoto, principalmente os bonitos.

_Oi... _ ela sorriu com sua boca reluzente de brilho labial. Afastei prontamente os olhos a fim de não ser traído pela outra parte do meu corpo que não raciocina.

Ela não me parecia nada doente. Ou será que fingia? Eu não podia sair dali sem essa informação, senão, teria que ouvir as reclamações de Rui. Mas como perguntar? “Então, você está com alguma doença letal?”.

_Já pensou em fazer parte da peça da escola? _ perguntou, sem rodeios.

_Eu? Não...

_Deveria. Você faz o perfil. _ disse-me.

_Qual?

_O bonito.

_...?

_Para o papel, quero dizer.

_Hum...

_É uma peça de Nelson Rodrigues. Minha irmã está dirigindo. Ela está fazendo faculdade de teatro e aproveitou para montar essa peça aqui...

_Legal. _ continuei copiando as instruções que a professora escrevia no quadro.

_Tem certeza?

_Do que?

_Que não quer?

_Não... Vão encontrar alguém melhor.

_Você é o melhor. _ tirou a folha de fichário da minha frente e começou a lê-la, fingindo que não enxergava o que estava no quadro.

_Pode chamar o Rui. _ propus.

_O Rui? Não... Não.

_Ele não é tão bonito?

_... _ Michele chegou mais perto. _... Não é o melhor, como eu disse. _ piscou o olho e sorriu.

Saí da sala no fim da aula agarrando as alças da minha mochila e com o estômago virado. Garota de amigo nosso é quase como uma portadora de uma doença infecto-contagiosa que se pega só em falar perto. Abri meu armário e deixei ali minhas apostilas.

_Igor! _ ouvi a voz de Rui ofegante atrás de mim. Quando me virei, ele já estava chegando ao meu lado, depois de uma corridinha. _ Descobri o que a Michele tem. É muito grave.

Eu quase lhe disse para não acreditar em nada que lhe dissessem, pois ela estava boa em todos os sentidos no primeiro tempo de aula.

_Ela mesma me falou.

_Hum...

_E o que ela tinha? _ ouvi a voz de Cris, sentada no sofá da minha casa, me acordando das minhas lembranças. _ O que seu amigo lhe contou? Era grave?

***

Cheguei em casa com uma sensação gostosa de ter sido útil. Meu grande temor ao sair do jornal foi não conseguir um emprego logo. E veja só o que aquele rapaz mascarado que estragou o meu vestido me trouxe: a resolução dos meus problemas. Estou rindo ao pensar que me refiro a ele como um anônimo quando, na verdade, é um grande ídolo da maioria das garotas e meu também por muito tempo.

Joguei-me no sofá e revirei as folhas do meu bloco de anotações. A história de sua vida se assemelhava facilmente a uma novela. Talvez nem fora tão emocionante assim, mas a trama que Igor enredou para me narrar a origem do seu sucesso era um tanto folhetinesca. Como jornalista, devo desconfiar de tudo, até mesmo se estes personagens que ele me conta são reais. E, se são, teriam tido as mesmas reações que ele me descrevera? Não sei, acho que no fim, sob sua ação de contar e a minha de redigir, resultará em uma terceira história com uma mistura de nossas versões.

Depois de um revigorante banho e uma xícara de café forte, me debrucei sobre o teclado do computador e comecei a digitar.

"Quando Igor encontrou Rui.".... Nãooooo. Apaguei. Foi o Rui que encontrou o Igor na saída da escola. Recomeçando.

Quando Rui encontrou Igor ofegante, trazia a notícia sobre a garota dos cabelos de cereja. Igor, por sua vez, não pareceu em nada entusiasmado em descobrir a tal doença da menina, pois desconfiava que era algum plano para conseguir um capricho.

_Ela está com um problema no fígado e vai operar.

_É sério?

_Sério, estou te falando.

_Não! Quero saber se é sério, se é grave. _ ele consertou.

_É. Vai operar. Só que os pais dela estão arrecadando dinheiro. A peça da escola vai ser cobrada uma entrada e o fundo vai servir para pagar a cirurgia.

_Caramba. Ela me parece tão bem.

_Pois é. E você vai precisar ajudá-la.

_Eu? Bom, eu posso comprar o ingresso para ir à peça...

_Não, cara, ela precisa de alguém para atuar com ela.

_Mas, por que eu? O que te faz pensar que eu posso ser bom?

_Você vai dar bilheteria.

_Não acredito que ela te falou isso.

_Isso se vê. O que importa é que ajude. Você não vai se sentir culpado se ela não conseguir juntar o dinh...

_Calma, calma. _ Igor riu. _ Que pressão psicológica é essa?

_Eu gosto dela.

Igor olhou para o amigo e sentiu que Michele não merecia um cara tão legal. Porém, tinha o dever de ajudá-la apenas para fazer o amigo feliz e lhe retribuir todos os favores.

_Não sei. Eu tenho que me preparar para uma prova que meus pais querem que eu faça... Eu vou pensar e te falo.

Igor foi para casa preocupado, não com a prova, mas com o pedido de seu amigo. Se por um lado Michele era a rainha da escola, Igor sem dúvida era o rei. Esses dois epicentros de atenção, porém, não tinham um passado pacífico para lembrar e guardavam uma rivalidade antiga.

******

--> Bastidores: No próximo capítulo, Igor vai descobrir que pode usar o convite ao seu favor. Não perca! Uma pessoa não gostará nada disso...

Li Mendi

10 comentários:

Li disse...

Olá, queridos leitores (as)! Finalmente eu voltei. 3 meses sem internet e cá estou eu! rs E também meus lindos personagens.
Quero contar com o apoio de vcs viu?
Beijos da Lizinha!

Aninha Barreto disse...

Primeira a comentar!!!!! e eis que a boa e velha Li Mendi está de volta com a magia de deixar a gente de unhas em frangalhos!!!!!! O que virá pela frente ??? curiosidade total!!!!!

Li disse...

Aninha, querida, não perca, tem muito suspense por aí!

Li disse...

Aninha, querida, não perca, tem muito suspense por aí!

Aninha Barreto disse...

ai Li... as minhas unhas são o meu maior orgulho... eu não posso roê-las...rsrsrss!!!!!!

Quel disse...

LI!!!!!!!!! Voltou!!!
Eba eba!!!Quase um presente de niver ...uma semaninha adiantada!hauhauahua
Estou adorando!!!
Beijoss

Li disse...

EEEEEEEEEEEEEEEEEEEH, tb gosto de gritar rsrs.
Beijo quelzinha

Lê disse...

eeeeeeeeee!!!!

Finalmente a história voltou!! Estava morrendo de saudades de ler as suas histórias emocionantes!! =) Mto bom mesmo!!! hehehe

(eu sou a mesma que já comentava desdeeee o primeiro livro... hehe só que tive que fechar o blog da dory, se precisar se comunicar com a leitora blogueira aqui, o meu novo tá aí... hehe)

Bjos e boa sorte no recomeço!! =)

Anônimo disse...

nossa jah estava louka de saudades!!!!
que bom q voltou..n para mais n...c não a gente vai ter um troco..bjuuu KáKá

luana disse...

Amando o livro!!!
Como tudo isso sai dessa cabecinha???? rsrsrsr
Beijocas...