25 de mar de 2008

Cap 24: Para o bem ou para o mal (Igor)

As folhas daquele verão faziam ondas ao vento pelas calçadas. Era meio dia e meia e eu voltava para casa, depois de uma chata rotina de aulas. Sentia-me como aquelas folhas amareladas, seco e sem vida. Sempre ficava assim quando me mudava de cidade por causa da profissão do meu pai. Meu mundo se encerrava em um ponto e logo eu deveria escrever um novo parágrafo em outro lugar. Eu era um hiato depois daquela transferência. Lá estava eu retornando, depois dos primeiro dias de aula do colégio novo. A sensação de ser excluído já era uma velha conhecida, mas que, invariavelmente, me abatia.

Enquanto caminhava sem pressa, cabeça meio baixa pelo sol e pela baixa auto-estima, avistei um grupo de três garotos parados de frente para mim a cinco metros. Voltei a olhar para o chão, não pensei de imediato que pudesse ter alguma coisa a ver comigo até que cheguei próximo a eles e não abriram passagem.

Eu sou dos loucos que acredita que tudo não passava de alguma conspiração da minha própria cabeça e resolvi adiantar um passo a mais para ver se eles se moviam.

_Você é o Igor da 202?

_Sou. _ respondi, temendo os problemas que aquela resposta me traria.

Os garotos se entreolharam. Um deles tinha cabelo loiro e usava a manga do uniforme enrolada para aparecer seus braços malhados. Os outros dois de cabelo preto e curto eram também fortes. Por que me olhavam com aquelas caras de raiva?

_Então, você entrou para o time da escola?

_Eu só participei da seleção e passei...

Fui empurrado para trás com uma mão espalmada sobre o meu peito. Senti que minhas costelas trocaram de lugar. Não adiantava olhar para os lados, era só entre nós e eu ia apanhar. Lembrei das lições de meu pai sobre não usar a violência. Mas ali era uma questão de legítima defesa.

_Qual é? _ perguntei, estufando o peito para frente em um ataque de coragem que, repito, só típico dos malucos.

_Você acenou para a Michele no fim do jogo de ontem...?

_Hei! Eu não acenei para ninguém! _ disse ao cara loiro. Então, aquilo tinha a ver com uma garota?_ Não especificamente... A arquibancada estava lotada e...

_Ela tem namorado, sabia? _ contou-me.

_ E ele é você? _ perguntei.

_Sou eu! _ apontou com o polegar para o próprio peito, um “sósia do Rock Balboa”.

_Ah! Então, você toma as dores dos outros? _ perguntei sarcástico para o de cabeça de ovo.

_Seu... _ senti meu queixo virar uma pedra arremessada no ar acompanhada pelo meu corpo em trajeto de meteoro.

_Pega leve, eu... _ senti um chute no estômago que me fez curvar em posição fetal.

Eu não tinha tempo para diplomacias se quisesse chegar inteiro em casa. Ou corria, ou terminaria como o esqueleto do laboratório de biologia interligado por pequenas argolas de aço inox. Virei-me de costas e me pus de joelhos para logo conseguir ficar de pé. Os três pareciam formar um único ser dotado de múltiplos braços e pés. Comecei a correr e eles apertaram o passo, ainda mais velozes. As pessoas da rua começavam a nos olhar como se eu fosse algum assaltante que tentava escapar, mas, graças ao meu uniforme vermelho do colégio, ninguém tentou me conter.

Virei a esquina em alta velocidade e me senti uma daquelas motos de corrida que fazem o piloto quase tocar o joelho no solo na curva. Conforme aumentava o ritmo, a mochila rebatia nas minhas costas, chacoalhando meus cadernos e moedas que tinha dento. Tropecei e senti que ia dar de queixo no chão, mas voltei ao equilíbrio a tempo de olhar o sinal de trânsito piscando. Em um relance, procurei-os atrás de mim. Estavam perto o suficiente para eu querer voar sobre a faixa de pedestres. Corri a passos largos e dois deles conseguiram me alcançar. Os carros tomaram a pista e um ficou para trás.

Subi aos trotes uma rua de ladeira, o que foi uma péssima idéia, pois era mais difícil escapar. Aquilo era uma fuga e não um treinamento para a corrida de São Silvestre. O ar me faltava e os músculos da minha perna pareciam distendidos ao máximo. Saltei por cima de uma mangueira de água de uma mulher que lavava a calçada e depois me curvei para passar por baixo de um fio de linha de pipa preso entre dois postes de luz. Um garoto passava cerol com a mão em formato de concha. Senti meu pescoço arder. Passei a mão e verifiquei que era sangue.

_Droga! _ parei, completamente sem ar no final da ladeira e senti minha camisa sendo puxada por dois punhos fechados, que me viraram de frente. Depois, com um empurrão, caí no chão. Engatinhei de costas para trás.

_Você vai aprender as regras dessa escola... _ o cara se abaixou para me pegar pela gola da camisa.

Eu estava prestes a virar carne moída, quando ouvi um latido de cachorro. Pelos olhos do meu quase assassino, constatei que ele não ficou feliz com o que viu. Virei o pescoço para o lado, engolindo em seco, e encontrei o meu anjo da guarda que chegara. Era um garoto magro, alto, de cabelo castanho enrolado, que usava óculos de aros prateados.

_Larga ele! _ pediu.

_Qual é, Rui? Vai dar um de bonzinho? _ ironizou o cara que me segurava.

_Se não soltar ele, vai saber com quantas mordidas meu cachorro vai arrancar o seu rosto. Sabia que a dentada pode equivaler a 50 kg? _ disse-lhes e eu só não tive pena de seu ato de coragem, porque seu cachorro realmente era de temer e já começava a latir alto.

_Você não...?

_É só soltar a corrente e dar o comando. _explicou.

Inacreditavelmente, o cara me largou e com muita raiva afastou-se de nós, puxando seu amigo pelo braço. Eu respirei fundo e deixei minha nuca encostar no chão. Abri os olhos e estes ficaram ofuscados pela luz do sol e pude ver que o recém-chegado estava ali ainda.

_Obrigado. _ agradeci aliviado.

_Você anda mexendo com pessoas erradas. _ falou.

_Eu não entendi nada... _ sentei-me. _ Ele acha que eu dei em cima da namorada dele. Tá louco... _ passei a mão novamente no pescoço e vi que se sujou de sangue. Não tinha estancado ainda.

_Quem mandou você acenar para Michele? _ perguntou.

Olhei para ele surpreendido, como sabia?

_Eu não acenei! E por que está perguntando isso?

_Todo mundo já sabe. _ riu.

_Como assim “todo mundo”. Existe algum alto-falante na escola que transmite as últimas notícias? _ perguntei sarcástico.

_Eu moro naquela casa ali. _ apontou para o outro lado da rua, sem responder ao que eu havia perguntado. _ Vamos lá, levanta aí. Tem que limpar esse corte.

_Não precisa... _ disse-lhe.

_Você mora perto?

Se eu chegasse assim em casa, minha mãe ficaria muito brava. Era bom me virar.

_Mais ou menos perto.

_Então, vamos lá. _ seguiu na frente, puxando o cachorro.

Foi assim que conheci meu melhor amigo Rui. Ele tinha me livrado dos três trogloditas e me fez entender o porquê da fúria destinada a mim.

Entramos por um portão de ferro da altura do meu peito que rangeu agudamente. Subimos dois degraus e entramos na sala de piso de taco de madeira. Sua mãe, que almoçava na sala com o prato no colo, abaixou o som do telejornal e se assustou. Rui foi mais rápido e explicou-lhe que eu era seu colega de escola que havia encontrado machucado quando fora levar o cachorro para passear.

_Tem curativos no banheiro do corredor. Querem ajuda?

_Pode deixar. _ ele fez um sinal com a mão para acompanhá-lo.

_Ai... _ senti arder ainda mais com a água fria da torneira que passei no corte. _ Minha mãe não vai gostar nada de ver a minha cara vermelha.

_Use um pouco desse pó da minha mãe. _ sugeriu.

_Espero que não fique roxo.

_Coloca bastante gelo. _ aconselhou. _ Eu vou te emprestar uma camisa.

_Nem sei como agradecer... Vou te dever essa. Eu só ainda não entendi por que aqueles caras estavam com tanta raiva e como sabia o motivo da briga.

_Vou te mostrar uma coisa. _ chamou-me até seu quarto. Abriu o guarda-roupa e tirou uma camiseta para mim. Depois, ligou o computador na escrivaninha. _ As turmas 201 e 202 têm uma rivalidade de anos. Somos de um colégio muito tradicional e todos se conhecem.

_Essa parte eu já percebi sozinho. _ disse-lhe com a voz abafada pela blusa que passava pelo meu pescoço para sair da minha cabeça.

_Mas, as disputas não ficam reservadas aos torneios esportivos ou feiras de ciências. Na Internet, também há arenas de luta.

_Que site é esse? _ perguntei vendo-o acessar um blog de fundo verde musgo.

_É da turma da escola. Cada uma tem um blog e são neles que estão os “alto-falantes”.

_Hei! Essa foto é minha! _ apontei para a tela. _ O que eu estou fazendo aí?

_Você está mandando um beijo para a arquibancada...

Era disso que o garoto que me bateu se referia? Então, ele lera no site?

_Quem tirou isso? Quem...? _ perguntei.

_Aqui não há nomes. Mas uma senha mágica que faz todos serem autores anônimos...

Sentei-me em sua cama, era muita informação para minha cabeça já em cacos.

_É uma foto tosca de celular! _ desdenhei furioso.

_Alguma garota tirou e publicou. Elas são verdadeiros abutres sobre as notícias mais quentes da escola.

Levantei e me aproximei da tela para ler:

_ “Quem é o novo garoto que chegou para tirar o posto do Tiago Matos? Um forasteiro com um abdômen que vai deixar o nosso astro do futebol pensar duas vezes antes de pedir Coca-Cola no cinema. Se cuida, cara, sua gatinha está atenta e nós também, não é, meninas?” _ eu li incrédulo a legenda da minha foto. _ E essa foto debaixo é da Michele? Não pode ser... Montaram isso!

_Para o seu bem e para o seu mal, você é a fofoca da vez.

_Eu acho que isso tudo é uma grande besteira... _ peguei a minha mochila e fui para casa.

Tentei a todo custo não preocupar meus pais. Tive medo de que descobrissem o motivo do meu machucado e irem à escola. Não queria vê-los como tema daquele site! Veja como eu estava temendo aquele blog idiota. Eu só ainda não sabia que ia precisar dele para sobreviver ao que estava por vir.

***

_Então, foi assim que conheceu o seu amigo Rui? _ Cris perguntou.

_É. E por causa disso não poderia negar o seu pedido de contracenar com Michele.

_Então, você aceitou?

_Não foi por um motivo tão nobre assim... _ confessei e olhei a água dentro do copo que eu segurava. _ Quando eu cheguei em casa, naquele dia que o Rui me fez o pedido de atuar na peça, meu pai disse que iria me colocar em um curso preparatório para uma prova que me levaria à carreira militar.

_Eu não vou ter tempo... _ disse-lhe.

_Mas você só estuda. _ lembrou-me.

Eu precisava ter uma boa desculpa. Não queria fazer nenhum cursinho. Não tinha vontade de ter uma vida itinerante como meu pai. Foi preciso usar a peça da escola à meu favor.

_Agora eu também estou fazendo um trabalho extra-curricular.

_E daí? Ele toma tanto seu tempo?

_Ah! Toma... É uma peça importantíssima.

_Peça?! _ meu pai caiu na risada como se eu tivesse contado uma piada.

_E vale nota. _ tentei salvar os meus argumentos.

_Hum...

Eu estava de certa forma mentindo, mas depois iria me agradecer por ter feito aquilo.

_Então, temos que ver outro horário...

Eu sabia muito bem me apropriar das situações para me virar e conseguir o que queria, ou ao menos não fazer o que não queria.

_ Mas, voltando a relatar a história de como cheguei a minha nova cidade e tinha acabado de descobrir o blog fofoqueiro da turma 201 e 202, eu paguei com a própria moeda a notícia da minha foto comemorando o gol.

_Como? _ Cris perguntou.

******

--> Bastidores: O que Igor elaborou contra a gangue da turma 201? Você vai saber já já.

5 comentários:

Laine disse...

Rááá!! Peguei saindo do forno!!!
Li, to super feliz por vc ter voltado!!!
Beeeeijo!

kamylla disse...

Li!

Que bom que vc voltou,achei que nao voltaria mais...

Amei os novos capitulos!!!

Beijooo

=***

Aninha Barreto disse...

ta ficando emocionante isso aqui!!! aiai... o que vem pela frente ?? já gostei da escola nova dele, só torço para ele dar uma surra nesses manés e essa Michelle ser desprezada.... já peuei antipatia por ela...rsrr!!

luana disse...

Estou adorando!!!
Também estou ansiosa para saber o que vai sair da cabecinha da nossa autora..rsrsrs
beijocas vespertinas!!!

Blog amor disse...

O livro sem vocês não tem qualquer graça! Nem estímulo para escrever. Mas com as suas visitas é outra coisa...