30 de abr de 2008

Cap 43: Nada pronta (Cris)

Igor levantou a cabeça e virou para o lado. Karen estava em pé, com a boca entreaberta. Seus olhos fotografavam a cena com todos os closes possíveis.

_Desculpem... _ ela se tocou que tinha interrompido algo e a ficha caiu. Procurou alguma coisa pelo sofá e achou seu Palm. _ Sabia que tinha deixado aqui... _ mostrou-nos e sorriu. _ Eu já vou... _ caminhou de volta para a porta.

Igor abaixou a cabeça e fechou os olhos, eu franzi a testa e o empurrei com as mãos no seu peito. Sentei e puxei minha blusa para baixo.

_Vai atrás dela, eu sei que quer fazer isso. _ disse-lhe. _ Vou beber uma água. _ levantei e fui até a cozinha.

Olhei disfarçadamente para trás e o vi correndo sem camisa para a varanda. Mordi o lábio inferior e esqueci a idéia da água. Caminhei com passos leves até a janela. Afastei a cortina lentamente e vi Igor segurando o braço de Karen. Depois, falou bem junto de seu rosto, tentava quebrar a frieza de sua expressão com inúmeras desculpas.

Eu ri irônica e balancei a cabeça para os lados. Onde eu estava me metendo, meu Deus?

Igor gesticulava agora com movimentos amplos e eu queria saber o que falavam. Cheguei perto da porta e fiquei ali quieta.

_Já que você decidiu ficar com ela, porque não a apresenta de vez? É melhor, antes que comecem os rumores...

_Eu queria esperar.

_Hoje tem uma festa para ir. Leve sua nova namorada.

_Eu não sei...

_Não esqueça do seu trabalho! _ Karen clicou com o lápis no Palm. _ Sete horas começa.

_Tudo bem.

Karen desceu os três degraus da varanda e entrou no seu carro. Igor encontrou comigo de braços cruzados próxima ao sofá e entendeu que eu tinha visto e ouvido toda a cena.

_Cris, eu disse que ia ser complicado.

_Você não quer tentar?

_Claro que eu quero! Eu não sei se vo-cê quer.

_Me pergunte.

_Quer ir hoje a festa comigo e mostrarmos que estamos juntos? _ perguntou.

Eu pensei um pouco.

_Vão estranhar muito. Será a história. Imagina, a jornalista que era a vilã do ator agora é seu mais novo caso. _ disse com a voz carregada de ironia.

_Não é um caso. _ corrigiu.

_Desculpe, estou pensando como jornalista e avaliando seu histórico de relacionamentos superficiais.

_Eu não estou te obrigando a nada, Cris. Se não quer ir, tudo bem. É o meu trabalho e você não precisa fazer parte desse mundo. Eu só quero que saiba que dessa vez não será superficial porque eu já estou mais dentro disso que nunca!

_Eu vou...

_...Ãnh?

_Ora, eu vou. _ decidi.

Igor ficou sem saber o que dizer.

_Tudo bem. Quer que eu ligue para Karen? Ela pode te dar umas dicas e...

_Não precisa, eu vou me virar sozinha. _ respondi.

_Tá. Se é assim que quer... como faremos? Te pego na sua casa? Você se arruma aqui?

_Eu posso me arrumar aqui. Vou em casa buscar uma roupa.

_Ok, então. _ Igor aceitou.

Assim foi feito. Quando entramos no carro em direção a festa, eu comecei a sentir um ligeiro pânico. Era como entrar em um livro encantado de uma história fabulosa. Eu estava prestes a ser uma personagem e não sabia se concorreria ao prêmio de coadjuvante. Respirei fundo. Igor segurou minha mão.

_Você está linda. _ falou no meu ouvido.

_Obrigada. _ sorri.

O carro parou e vi pelo vidro dezenas de flashes, fotógrafos se acotovelando como grelhas assassinas do filme Resident Evil, A extinção.

_Pronta? _ Igor perguntou.

29 de abr de 2008

Cap 42: Nó (Cris)

Igor me pareceu pensativo desde que Karen soube da nova relação de trabalho e saiu aborrecida.
_Por onde anda essa cabecinha? _ perguntei e fiz um carinho com a mão no cabelo da sua nuca.

Ele virou o rosto para mim e não quis responder. Beijou-me e continuou calado, só instigando ainda mais meu interesse.

_Pode falar comigo. Aliás, é o que mais fizemos até aqui. _ ri e deixei que nossos dedos se entrelaçassem.

_Nada mais importante que estar com você. _ segurou meu rosto e acariciou minha bochecha com o polegar.

_Não quero que existam barreiras entre nós... _ falei com jeito para não parecer chata.

Igor soltou-me abruptamente e se levantou. Enfiou uma das mãos no bolso de trás e com a outra coçou algum lugar no centro das costas, se contorcendo. Não estava em nada confortável. Andou uns passos à frente e soltou o braço, deixando cair ruidosamente sobre a coxa. Esperei que virasse para mim outra vez.

_Quer almoçar? _ perguntei.

Levantei as sobrancelhas incrédula. Ele não ia dividir comigo o que se passava?

_Quero sim, mas só depois de você sentar aqui e me dizer por que está tão calado! _ falei firme e com a voz um pouco alta.

Igor sentou-se e manteve os cotovelos sobre as pernas olhando diretamente para frente.

_Eu estou comprando uma briga. _ disse como se aquilo só tivesse significado para si mesmo, mas eu suspeitava que se relacionava a sua assessora. _A Karen tem um pouco de razão em sentir-se traída. _ soltou de uma vez o ar dos pulmões e jogou a cabeça para trás, no encosto do sofá.

_Ora, então, por que fez isso?

_Porque eu quero viver sozinho um pouco e ter uma só sombra, a minha.

_Mas o que te impediu de ter isso antes?

_É tão complexo... _ balançou a cabeça para os lados.

Levantei-me e sentei em cima da mesa de centro. Olhei nos olhos de Igor e peguei suas mãos.

_Me explica?

_Você quer mesmo me entender, não é? _ sorriu, desarmado.

_Como posso querer só um pedaço de você? Só um corpo: uma boca, uma mão, um peito? Eu não entrei nisso para ter sua presença social ao meu lado. Eu preciso aprender como você funciona, qual a sua lógica! Nossa relação é um nó frouxo ainda e só com a proximidade ele vai se tornar tão firme que ficará impossível desamarrá-lo!

Igor deu um impulso e se ajoelhou na minha frente para que ficasse na altura de me beijar.

_Você é o que eu precisava. _ encostou sua testa na minha.

Acariciei suas costas e retribui com mais beijos. Puxei-o para o sofá e ficamos deitados entre as almofadas com nossos rostos muito próximos. Igor contornou meu rosto com a ponta dos dedos, como se pudesse decorar o desenho das curvas para reproduzi-lo.

_Não é muito simples minha relação com a Karen. _ ele abaixou os olhos e acariciou minha cintura nua pela blusa um pouco suspensa. _ Não é um mero contrato de trabalho, eu te pago e você faz o que deve. Pronto, acaba e vai embora.

_Eu bem que tentei esse método. _ observei.

_Ainda bem que não conseguiu! _ me encheu de beijos salpicados na boca.

_Você é um patrão muito sedutor. _ ri alto e ficamos ainda mais colados, com as pernas entrelaçadas. _ Para onde foi minha impessoalidade jornalística?

_Ah! Deve ter ficado caída em algum canto lá da sua sala. _ zombou.

_Igor! _ levantei um pouco o rosto e fingi aborrecimento, mas acabei enchendo seu pescoço de beijos e voltei a deitar no seu braço. _ Eu já percebi que a Karen tem um certo domínio sobre tudo aqui. Pelo que me parece, sua família não gosta muito... Luísa, então...

_ Quando eu estava muito mal pela morte da Michele e do meu amigo, comecei a me entregar ao teatro. A Karen me descobriu. Ela tinha uma visão muito otimista sobre mim e me lançou no mercado. De repente, eu era o queridinho dos comerciais e estava fazendo novela.

_Sente que não vai poder nunca retribuir?

_Um pouco isso. Acabo tolerando tudo por comodismo. É muito fácil ter alguém que pensa por você há anos e faz tudo dar certo. Só que isso tira também a minha privacidade. Eu praticamente não tenho nada que só eu saiba. Às vezes, me pergunto o que é só meu e o que é embutido por Karen na minha vida como um anexo à minha personalidade.

_ Então, me escolheu como uma coisa para não partilhar com Karen? _ franzi a testa. _ Você não está me usando para ensiná-la a te dar liberdade de...?

_ Não, não... _ Igor levantou-se e seu rosto ficou acima do meu. _ Cris, eu quero você só para mim. Não me interprete mal, por favor. Não gostaria de fazer um relatório sobre meu relacionamento para Karen passar como release para a imprensa! Não quero os olhos dos outros sobre nós, analisando a gente!

_Nem eu... Mas, será inevitável. Eu tenho tanto medo.

_Não posso mudar o mundo para você, mas você pode mudar meu mundo e já está fazendo isso.

Sorri.

_Exagerado!

_Eu sou mesmo exagerado, por você eu mudaria tudo... _ beijou meu pescoço e me fez fechar os olhos. Puxei sua camisa e joguei para trás.

Ouvimos um barulho na porta da varanda e, de repente, Karen estava em nossa frente. Assustei-me e Igor parou de me beijar.

Nós três nos entreolhamos.



Bastidores= O que Karen estava fazendo ali?!

27 de abr de 2008

Cap 41: Proteção (Igor)

Karen franziu a testa em uma mistura de indignação e raiva:

_Como assim? Você está me expulsando?

Eu não respondi de imediato, tomei fôlego e oxigenei o cérebro. Sabia que não seria fácil a tarefa de rearrumar a posição das pessoas em minha vida. Comecei por dizer-lhe que alugaria uma sala. Gostaria que Karen organizasse um escritório receber os jornalistas e guardar materiais ao meu respeito. Criaria, com um isso, um ambiente de trabalho que não misturasse minha vida privada com a profissional.

_Eu acho que está sendo pouco prática... _ comentei.

Ela riu sarcástica, levantou-se e passeou pela sala com as mãos na cintura. Parou e me olhou fixamente quando pareceu achar mais um ponto acusatório contra mim.

_Eu sempre fui objetiva e você não deu o devido valor! Prova disso é o que está tentando fazer, me excluindo da sua vida. Como posso querer ser sua assessora sabendo sobre você através da Internet? Se é para isso, pode contratar qualquer uma... como a Cris, por exemplo.

Senti que estava alfinetando e querendo que eu incluísse a Cris na situação. Mas, eu não faria isso. Eu tinha prometido que não tocaria no nome dela. Fizemos um compromisso, à pedido da própria Cris, para não demonstrarmos a ninguém o que estávamos passando.

_Eu só quero reorganizar a minha vida.

_Você está tendo algum caso com aquela jornalista? _ perguntou, agora sem rodeios.

_As decisões que tomo faço por conta própria. A posição geográfica não vai impedir o seu profissionalismo. Combinaremos horários para nos encontrarmos.

_Não me respondeu o que perguntei. Sabe que uma hora ou outra os jornalistas vão começar a me questionar...

_Diga a eles que estou sozinho. _ falei-lhe, sem explicitar se isso era só uma desculpa, ou se de fato estava sem ninguém em mente.

Karen arrumou suas coisas contrariada e saiu com passos ruidosos. Eu não me levantei de imediato do sofá. Cris, que tinha ouvido tudo da cozinha, apareceu na porta da sala com os ombros encolhidos e as mãos no bolso de trás da calça jeans.

_Não queria que fosse assim... _ ela aproximou-se e eu levantei.

_Tem coisas na vida que deixam arranhões quando as empurramos de um lugar para outro. Não se preocupe, dará tudo certo. _ sorri. Contornei o desenho de seus lábios com meu polegar e sorri. _ Agora estaremos sozinhos e só vai existir você no meu mundo pessoal.

_Não estou acreditando. _ ela envolveu meu pescoço em um impulso e me beijou.
Eu sabia que não seria possível protegê-la por muito tempo, mas, quem sabe, não fosse o suficiente para estar forte o bastante a fim de encarar a evasão da sua intimidade.

Abracei Cris com carinho e beijei seu cabelo. Queria colocá-la em uma redoma de vidro e escondê-la do mundo, mas para isso precisaria entrar junto na cúpula protetora.

Tive medo de perdê-la, temi que não conseguíssemos nem tentar, mas não demonstrei nada disso. Não se deve anteceder os fatos. Que eu aproveitasse, então, o momento ainda seguro e longe dos flashs.

24 de abr de 2008

Cap 40: Eu era a única platéia (Cris)

Meu coração era uma bomba relógio antiga que se esqueceu de explodir. Tantos anos gostando e admirando aquele rapaz. Mais outros para me desintoxicar do seu mito e tentar enxergá-lo como um ser humano normal. E apenas alguns minutos de proximidade para esquecer todas as lições. O coração é burro, não aprende, não quer aprender, ele tem sua lógica de felicidade.

Tive medo de estar apenas seguindo o impulso de qualquer fã que quer agarrar seu ídolo. Um pânico de bancar o papel de idiota e me cegar com uma paixão de filme.

Mas, a gente não pede para a vida ser normal, pelo contrário, luta por qualquer tremor que a abale. Agora estava ali fora do eixo, entre duas bocas quase se tocando. Eu era o próprio espaço mínimo que nos separava. Sua respiração quente saindo das narinas sobre minha bochecha e seu peito arfando encostado no meu.

Eu era só a redatora de seu livro e ele, um grande ator, o queridinho da tv e das telas do cinema. Parecia tão grande que eu não poderia macular o privilégio de lhe desejar. Só as estrelas lindas e modelos estariam à sua altura. Mas, eu não queria atingir status de qualquer coisa sua, só desejava aquele beijo.

_Igor, você é muito novo... _ eu comecei tão convarde que pensei estar possuída por outro eu. _ ... Está confundindo as coisas.

_Eu estou confundindo? _ ele se afastou e vi raiva em seu rosto. Não se deve contrariar os garotos, não estão preparados para perder, simplesmente não admitem. _ ... Eu sou um idiota mesmo!

_Não disse isso. _ consertei.

_Não, não, Cris! _ ele balançou as mãos no ar, fazendo sinal negativo para que eu parasse de falar, porque não queria ouvir. _ Eu sei muito bem o que você diz! Você mente para si mesma. _ apontou para mim com o dedo indicador e acusatório. _ Essa é a única explicação que encontro para sua fraqueza. Eu vejo nos seus olhos que você me quer também! Vamos jogar limpo aqui!

Virei de costas e fechei os olhos, apertei-os com força.

_Eu nunca devia ter vindo aqui! _disse.

_Igor? _ chamei.

Ouvi o estrondo da porta batendo. Atravessei a sala e a reabri. Alcancei-o no corredor a tempo de que não descesse as escadas. Puxei sua camisa até que esta se esticou ao máximo e ele voltou um passo atrás como uma corda elástica. Virei-o para mim e seus olhos eram duros e frios. Puxei-o pela mão para dentro do apartamento outra vez e ele veio trotando os pés, literalmente arrastado. Fechei a porta e ali Igor ficou de pé.

Recompus-me em uma distância de dois passos. Nós éramos um eclipse. Ele em minha frente irradiava a beleza e a vivacidade que sobrepunham minha covardia cinzenta. Minhas mãos transpiraram e o coração deixou a bomba detonar serotonina pelas veias.

_A gente pode voltar à cena? _ perguntei em um sorriso cândido e tímido.

Ele precipitou-se sobre mim e uniu sua boca à minha como se estas nunca tivessem sido separadas desde todos os tempos. Agarrei-lhe com cuidado os cabelos com os punhos fechados, experimentando a seda daquele toque. Senti-lhe as costas, os movimentos, o seu corpo de homem. O seu cheiro de perfume com odor emadeirado me inebriava desde as narinas até as entranhas.

Sua boca desceu pelo meu pescoço e fez a mistura dos deuses: pele, suor, saliva e sua língua. Revirei os olhos em um transe e senti a boca seca. Não pensem que meu superego não tentou todas as incriminações sobre aquele ato. Mas, eu não era cabeça, era um coração pulsando forte e dolorido de tanta potência que podia enfartar no peito. Então, que eu morresse assim, sentida, possuída, desejada, entranhada naquela possessão carnal.

Igor se livrou abruptamente dos botões da minha blusa e eu ainda relutei em um ato involuntário, quando vi, já não havia blusa mais. Era uma mágica de poucos gestos, alguma força e um alto teor de volúpia. Abracei seu pescoço e deixei que descesse o rosto para encontrar o que procurava. Suas mãos puxaram a camisa para o alto.

Eu era a única platéia.

Ele arremessou a camisa para longe e veio em músculos, peitoral e braços torneados se livrar do resto que me impedia de ser uma só com ele. Caí sobre o sofá com sua mão segurando minha nuca e entreguei-lhe os lábios, a alma, o corpo, o amor guardado.

Quando acordei daquele experiência espiritual pura e elevada, vi seu rosto suado e sonolento. Sorrimos. Permanecia quieta e acolhida no abraço confortável e seguro.

_Cris...

_Hum. _ apoiei a cabeça na mão e fiquei em posição de admiração.

_Você acha que vamos precisar refazer a cena?

Eu ri um riso leve, gostoso e feliz.

_Ahh, eu acho. Talvez, alternar os cenários, o figurino...

_Você está começando a pegar o jeito da coisa. _ sorriu e afastou meus cachos do cabelo para trás. _Sabe como me sinto?

_Com dor nas costas? _ ri e me levantei do sofá. _ Isso aqui é muito apertado. _ catei as nossas roupas do chão.

_Sinto que encontrei você.

Eu parei de empilhar as peças no braço e o olhei.

_Eu estava esperando achar você.

_Ah! Tirou isso de alguma fala, né? _ tentei levar para o lado da brincadeira.

_Nunca foi assim, nem desse jeito...

Eu fiquei séria e engoli em seco.

_Também para você? _ perguntou.

Sentei-me ao seu lado e o olhei longamente deitado em minhas almofadas, dentro do cenário da minha vida, me dizendo que eu era a atriz principal da sua história. Acariciei seu rosto com a mão esquerda e me inclinei sobre ele. Sussurrei:

_Foi único.



Bastidores= Cris e Igor decidiram romper as barreiras. Mas, virão muitas outras por aí e é agora que a história está prestes a começar para esses dois... Não percam!

22 de abr de 2008

Cap 39: Olhos que permitem (Igor)

Sentado no sofá de casa, eu tinha na cabeça a voz de Michele remota e frágil, longe, só um sussurro: “não deixe de lutar pelo que queira”. Era assim que me sentia agora: abdicando de fazer o que tinha vontade com medo de tudo que viria pela frente, se eu tomasse qualquer atitude. O sorriso de Cris não me saía da cabeça. Ele surgia no centro da minha mente, enquanto eu tentava me concentrar nas folhas do script em minha mão. Larguei a caneta marca-texto de lado e o bloco de folhas. Passei as mãos no rosto.

Karen despediu-se e eu só balbuciei um “tchau”. Ela me conhecia e sabia que eu estava descentrado como nunca. Ficou em silêncio, parada no canto da sala. Mas, saiu sem nenhuma pergunta.

Tamborilei com os dedos sobre as coxas e dei um impulso para levantar. Se já não tinha mais jeito e o fato era consumado, então, eu ia levá-lo a cabo. Desci até a garagem e tirei minha moto.

_Está chovendo, não quer ir de carro, senhor Igor? _ o segurança que ficava na portaria perguntou.

_Não, prefiro de moto. _ respondi-lhe e esperei que o portão automático abrisse.

No caminho da casa de Cris, eu até cogitei se minha necessidade de estar perto dela fosse uma vontade de recompensá-la pelo desprezo que lhe dei um dia. Seria pena? Não. Definitivamente, meu anseio em conquistar sua atenção era bem além de uma origem tão pequena e fraca. Havia uma energia e força no ímpeto de libertar o que se passava comigo que só o amor poderia ser a explicação.

Agora, não havia mais ninguém para me impedir de ficar com quem eu queria. Exceto eu mesmo e isso já era bastante coisa. Eu sabia que estar ao meu lado não era fácil, pois teria que me dividir com o mundo. Mas, eu não me deixaria ser o vilão da minha felicidade.

Aproveitei que uma moradora estava saindo para segurar o portão e passar. Subi as escadas e parei com a mão na porta. Respirei, pensei que já tinha chegado até ali... e toquei a campanhia.

Eu não tinha nada preparado para lhe dizer, não havia escrito roteiro algum. Enfiei as mãos nos bolsos do jeans e nunca estive tão nervoso. Vi o vulto de uma silhueta pela fresta, no chão da porta, depois o barulho da chave, o trinco em dois estalidos metálicos e a porta se afastando para dentro. Levantei meus olhos e eles se encontraram com os dela.

_Igor? _ ela franziu a testa.

_Oi.

Ficamos ali parados, fingindo uma surpresa e uma conveniência, quando na realidade tínhamos consciência de que não dava mais para esconder que a gente não era só amigos, ou “patrão e empregada”, como ela insistia em reafirmar.

_Se veio aqui sobre o livro...

_Se fosse sobre o livro, eu poderia esperar. _ interrompi-a.

Cris engoliu em seco, colocou o cabelo atrás das orelhas como gostava de fazer quando estava apreensiva.

_Entra... _ abaixou os olhos e ficou na mesma posição.

Eu me vi no centro de sua sala, pronto para falar-lhe o que não conseguia segurar por mais nenhum minuto na garganta e ela não ousava nem me olhar.

_Cris... _ chamei-a.

Ela levantou o rosto e descruzou os braços, quis fugir para a cozinha.

_Vou fazer um café...

_Não quero... _ não deixei que passasse, me posicionando entre os dois sofás. _ Você sabe o que eu quero...

Ela se afastou um passo atrás e pareceu nervosa.

_E o que você quer? _ levantou os olhos e vi que estavam brilhantes, cintilando um pavor que não entendi.

_... _ emudeci.

_Não dá, entende? _ meneou a cabeça para o lado e relutou.

_Não.

_Será que não vê, Igor? É tão claro. _ olhou dentro de mim, como se a pergunta fosse no universo do contexto de todo uma vida passada até então.

_Não vejo, não entendo e não me peça para entender, porque eu não vim aqui para isso.

_Para quê, então? _ ela pôs a mão direita na cintura.

Ouvi o barulho de alguém na cozinha. Senti pela primeira vez um medo de ter feito a coisa errada em vir até sua casa. Ela estava acompanhada de outro homem?

_Com licença. _ ouvi uma voz feminina atrás de mim. Virei e vi que era uma mulher. _ Prazer, sou a amiga de Cris.

_Prazer. _ estendi-lhe a mão, aliviado. _Igor.

_Já ouvi falar muito de você.

Olhei para Cris e captei um olhar de repreensão para a amiga que me fez rir.

_Quero dizer, está em todos os jornais. _ ela tentou se explicar.

_Sim, claro...

_Mas, não se preocupem comigo, finjam que nem passei por aqui. _ pegou a bolsa em cima do sofá e pôs sobre o ombro direito.

_Eu não queria atrapalhar... _ disse-lhe.

_Não se preocupe, tenho que buscar minha filha na casa da minha mãe. _ ela deu-me dois beijos e caminhou para a porta. _Depois nos falamos, Cris.

_Tá. Vai com Deus.

A porta se fechou e estávamos de vez à sós.

_Igor, eu tenho que trabalhar, sabe? _ ela caminhou para uma mesa no canto da sala, querendo se socorrer em qualquer papel que comprovasse uma desculpa para eu cair fora.

_Mentira! Você entregou o livro hoje para mim, o que vai fazer mais?

_Eu faço outras coisas além do seu livro, sabia? _ ela me falou sem qualquer tom de certeza.

Caminhei até ela, que ficou encostada na beirada da mesa, sem ter para onde mais escapar.

_Você não está na sua hora de trabalho. _ falei sério.

_E quem disse que existe hora para trabalhar?

_Você mesma.

Dei o último passo que faltava para nossos corpos se encostarem. Coloquei minhas mãos sobre as suas para que se tranqüilizasse. Toquei no seu cabelo e ela não levantou a cabeça. Eu esperaria, já tinha chegado até ali. Todos os anos para chegar até ela, eu esperaria...

_Igor, não é simples assim. Não com o meu coração... _ falou baixinho.

_Você nem deixou acontecer.

_Eu já deixei há muito tempo. _ Olhou-me em cheio e agora havia uma permissão em seus olhos.

Bastidores= E, agora Cris? Só amanhã saberemos...

20 de abr de 2008

Cap 38: Medo ou paixão? (Cris)

Deixei a bolsa cair sobre o sofá. Estava meio absorta. A imagem de Igor caminhando em minha direção não saía da minha cabeça. Esfreguei a mão na minha nuca por baixo do cabelo e respirei fundo de olhos fechados. A campainha do meu apartamento tocou.

Olhei para a porta por uns segundos. Quem seria? Franzi a testa e descobri através do olho mágico. Abri.

_Oi, amiga, você se esqueceu de mim, mas eu não esqueço de você! _ Rebeca abraçou-me.

_Minha vida anda tão corrida... _ eu tentei desculpar-me, fiz sinal para que entrasse.

_Se na redação a gente tinha tempo, sua vida deve estar um agito, hen? _ alfinetou.

_Desculpa... _ falei do fundo do coração e fiz uma cara de quem sabe que tem culpa.

_Tudo bem, eu aceito um copo d’água como desculpa. _ ela acariciou minha gata espreguiçada em uma almofada. _ Esse bicho está obeso, você está alimentando muito!

_Talvez... _ voltei da cozinha com a água. _ É que eu fico tanto tempo fora que temo deixar comida de menos.

_O que anda fazendo tanto, mocinha? _ perguntou.

_Tantas coisas aconteceram... _ olhei para a janela à minha direita.

_Eu imagino. Você agora virou a confidente daquele lindinho... _ colocou o copo na mesa de centro. _... Muitas festas, muita badalação...?

_Não, não. Quem faz isso é a assessora dele. Pelo contrário, eu estou mais no dia-a-dia dele como um cara normal... Conversamos muito. Acredita que hoje eu entrei no quarto do Igor feito uma louca?

_Agarrou ele e...

_Não! _ revirei os olhos. _ Eu estava irada, porque a chata da assessora falou que o livro era um passa tempo que não levaria a cabo de publicar. Aí, eu pirei e entrei sem bater, queria uma explicação...

_Eu lembro do seu lado explosivo.

Eu parei de dar mais detalhes, porque teria que lhe dizer sobre o impulso de Igor em me beijar.

_Sabe que eu vi esse dias? _ falei, para mudar de assunto. _ O Lucas.

_É? Mas, ele não viajou para longe? Pelo que me lembro de você ter contado, namoraram por 2 anos e ele te pediu em casamento, você disse não e ele sumiu.

_ Eu estava no shopping comprando um cartucho para minha impressora quando encontrei com ele de terno e gravata, junto com uma criança. Nós nos olhamos e ele me reconheceu. Como o mundo dá voltas! Ele tem um filho e está casado.

_Bom, a tendência natural das coisas...

_É. _ abaixei os olhos e suspirei. _ Ele me falou coisas muito duras.

_Tipo quais?

_Ele disse que eu só pensava no meu trabalho e que isso me tornaria uma mulher sozinha.

_Puro recalque!

_Ele está um pouco certo...

_Ahhh....

_É verdade! Eu não me arrisco a nada, tenho medo da minha vida tomar um rumo muito diferente, quando ela continua sempre nessa linha reta, entende? Só agora enxergo isso!

_Só agora enxerga isso por quê? Por causa do que Lucas falou ou está acontecendo alguma coisa a mais que te levou ao quarto de Igor?

_Não! Eu fui mesmo lá ver a questão do livro!

_Hum.

_Juro.

_Tudo bem! _ levantou as mãos para o ar, em rendição.

_Droga! _ levei as mãos ao rosto e me levantei. Fiquei de costas, com os braços cruzados.

_Cris...

Virei-me de frente para ela e senti que estava engasgada.

_Isso não podia ter acontecido... _ engoli em seco. _ ... Ele não é para mim. Quero dizer, eu não sou para ele...

_Cris, você e o Igor...

_Eu e ele nada! Nunca houve nada. Eu não sei, depois dessa manhã...

_Que droga aconteceu naquele quarto, você não vai me contar, pox...

_A gente quase se beijou!

_Quase?

_É, quase... _ andei de um lado para o outro da sala. _ Ele veio caminhando até mim e...

_Se você disser que fugiu...!

_Não... Eu fiquei ali parada, mas... a assessora chegou.

_Não acredito! _ Rebeca deu um soco na almofada.

_Ela sempre aparece...

_Eu não acredito que você não beijou antes de ela chegar!

_Não, não! Rebeca, eu não posso.

_Como não pode, garota? Você está com raiva, herpes, ou qualquer doença? Melhor, você deve está doente da cabeça! Não é o mendigo da esquina perebento, é o Igor!

_Eu sei! Eu seeeeeiiii! Pensa que eu não sei? _ sentei-me em sua frente. _ Acha que eu não sei mais que ninguém?

_Por que está tão descontrolada? Parece mais com medo que apaixonada!

_Olha para mim, olha para onde eu moro, o que eu faço... A imprensa vai fuçar a minha vida, eu vou ser o alvo de todos os julgamentos...

_Está preocupada com o que vão pensar? _ achou ridículo.

_Estou, estou, eu tenho o direito de não querer pagar esse preço!

_Continuo achando você maluca!

Ficamos em silêncio.

À noite, Rebeca e eu fazíamos um sanduíche na cozinha quando a campainha tocou.

Olhei em direção a sala e, ela, também. Larguei a faca que estava passando maionese no pão.

_Anda! O que está esperando? _ agoniou-se.

Passei a mão nas costas da calça para me livrar dos farelos e olhei pelo olho mágico. Rebeca da porta da cozinha fez uma cara de interrogação.

_É ele! _ sussurrei.

_Quer que eu me esconda? _ falou baixinho.

_Não! Vai parecer que você é meu amante!

Rimos juntas.

_Então?

_Fique lá na cozinha. _ pedi.

_Tudo bem.

Respirei fundo e abri a porta.

Bastidores = O que Igor foi fazer na casa de Cris que não poderia esperar para a manhã seguinte? Isso a gente só descobrirá... amanhã.

19 de abr de 2008

Cap 37: Zona limite (Cris)

Trilha Sonora da cena(clique aqui)

Eu estava ansiosa para mostrar ao Igor as páginas revisadas da primeira parte do livro que conta sua vida pessoal antes da carreira de ator. Nem sentei no sofá, esperei em pé mesmo no meio da sala, dando passinhos curtos sobre o tapete e mordendo o lábio. Olhei dinamicamente as páginas à procura de qualquer coisa que nem sei bem o quê para acalmar os ânimos.

_Já disse que é para você se sentar. _ Karen voltou do quarto de Igor. _ Ele ainda está dormindo, venha depois.

_Não.É importante, eu posso esperar...

_Tudo bem, o que quer que seja, deixa comigo. _ esticou a mão.

_É... Sabe, eu prefiro que eu mesma entregue.

_Sou a assessora dele, de um modo ou de outro eu terei que vistoriar.

_Se não se importa, eu insisto em fazer isso.

_É o quê? O livro? _ cruzou os braços e olhou-me por cima dos óculos de aros dourados e arredondados.

Aquela mulher mais parecia uma governanta má de algum filme infantil. Vestia uma saia preta justa até o joelho e uma blusa lilás de mangas comprida abotoada no pescoço e de babados. Não confiava nem um pouco nela.

_É. _ respondi, já que o fato era óbvio e não mudaria muita coisa, se soubesse.

_Eu não sei como ainda tenho paciência para essas diversões exóticas de Igor. _ ela comentou e sentou-se.

_Isso não é uma diversão.

_Ah! Não? _ olhou-me. _ Você já perguntou o que a psicóloga disse para ele?

_Bom... não entramos neste detalhe.

_Pois bem, ela disse que era bom que tivesse amigos confiáveis para se sentir mais seguro e que não tentasse esquecer o passado. Só não pensei que fosse pagar por isso.

_Não vejo dessa forma... _ engoli em seco, tentando a todo esforço não sentir que aquela revelação fora surpreendente para mim.

_Vê como? Ele paga para você ouvi-lo como paga ao psicólogo, como paga a mim, a empregada, o porteiro. Não está levando a sério que vá publicar isso, não é mesmo?

_Eu acho que é você que está enganada.

_Eu tenho anos cuidando da carreira dele e você só está aqui por um capricho. Quem será que conhece mais os impulsos de Igor? _ desafiou.

_Eu não quero medir forças, quero só fazer o meu trabalho.

_Isso eu não duvido, está fazendo seu trabalho. agora não pense que vai ser publicado. Ele mesmo já me mostrou isso.

_Mostrou? _ levantei as sobrancelhas.

_É, não me deu nenhuma instrução para procurar editora ou qualquer coisa do gênero. Não acha que é total desinteresse?

_... _ perdi as palavras e, pela primeira, vez senti uma sensação de ter passado o papel de idiota.

_ No fim, ele vai imprimir um exemplar, colocar capa dura e guardar. Não perca seu tempo, volte para o mercado, garota.

James Blunt - Same mistake


Caminhei em direção a escada que dava para o segundo andar, onde ficava o quarto de Igor. Ela não me seguiu, parecia feliz com o resultado de suas insinuações. Subi os degraus com passos fortes e entrei no quarto dele. Afastei um pouco a cortina e olhei-o deitado de bruços, apertando os olhos por causa da claridade.

_Cris? _ reconheceu-me.

_Me diz uma coisa, você está levando mesmo a sério o livro?

Igor sentou e reparou nas páginas em minhas mãos.

_Por que essa pergunta agora? _ levantou e foi até o banheiro.

_Eu quero ter certeza de que você vai levar o trabalho até o fim. _ disse-lhe do lado de fora da porta do banheiro.

Cinco minutos depois, ele aparece de cara lavada e dentes escovados.

_Eu não estou entendendo nada, Cris...

_A Karen me falou que...

_Ah! _ revirou os olhos. _ Eu estou entendendo tudo agora. _ ironizou. _ Não dê ouvidos a ela.

_Como posso acreditar que você não está só se divertindo com essa história de livro? _ comecei a falar em um tom irritado.

Igor, que estava de costas para mim, olhando PELA janela. Vestia apenas um calção quadriculado e estava descalço, sem camisa. Caminhou em minha direção e eu dei um passo atrás, mas já era o limite da parede. Meu coração disparou indicando perigo. Já havia adrenalina suficiente para eu correr, mas meu corpo se manteve no mesmo lugar. Entreabri a boca para respirar mais rápido. Aquilo não era uma cena em que o diretor pudesse dizer “corta” e ele não pararia. Eu mesma teria que interromper o curso das coisas se quisesse manter tudo no lado profissional.

Afastei o cabelo do rosto e olhei para baixo. Igor acelerou os passos e puxou com a mão minhas costas. As folhas caíram de minha mão que perderam os reflexos. Ele ameaçou, mas esperou um pouco mais com o rosto a poucos centímetros acima do meu. Engoli em seco, sofrendo minha luta interior entre a que recusa e a que pede. Sua mão fechou o punho no cabelo da minha nuca com carinho e firmeza. Seus olhos anunciaram o que se romperia em segundos. Pus minhas mãos em seu braço delicadamente em posição de quem vai afastar, mas não ousa evitar. Igor me encostou completamente na parede, ou não sei se fui eu que não achei mais nenhum limite para escapar. Puxei pela última vez o ar dos pulmões.

_Igor, Igor... _ ouvimos as três pancadas de Karen na porta.

Deslizei para o lado esquerdo e corri para o centro do quarto, trêmula com o susto. Evitei que ela visse meu rosto quando entrou.

_Tudo bem aqui? _ perguntou.

_O que acha? _ Igor demonstrou que não estava satisfeito.

_Ela subiu e... você estava dormindo... _ tentou explicar.

Virei-me e Karen procurou em meus olhos qualquer coisa que me denunciasse. Igor de costas a dispensou:

_Vou descer e te vejo lá embaixo.

_Tudo bem... _ ela encarou-nos por um tempo, reparou nas folhas espalhadas pelo chão, mas decidiu acatar a ordem.

Aproveitei a deixa e a porta ainda aberta e tomei o impulso de sair também. Igor conteve-me pelo braço em um puxão, quando passei por ele e meu cabelo caiu sobre o rosto.

_Eu não disse que você precisava ir. _ falou-me.

_Desculpe, preciso... _ dei um passo atrás, ainda pensei em recolher as folhas, mas o livro se tornara uma questão menor. Tomei o corredor e desci as escadas rapidamente.

Bastidores = É leitoras, não adianta correr muito. Uma hora não escapa. Será no próximo? Estão tão ansiosas quanto? Beijos! Deixem seus recadinhos.

16 de abr de 2008

Cap 36: Levando a vida com bom humor (Igor)

_Por que você contou para Cris sobre Rui e Michele? _ perguntei a minha irmã, no café da manhã. Servi-me de suco.

_Hum... _ ela terminou de mastigar o pão. _ Achei que ela deveria saber que você foi um cara legal.

_Ela não tinha essa opinião?

_Eu quis reforçar. _ piscou o olho. _ Tenho que ir. _ pegou a mochila e se mandou antes que lhe perguntasse mais alguma coisa.

_A sua escritora vem hoje? _ perguntou Karen, chegando com sua agenda.

_A Cris... _ consertei. _ ...vem hoje sim.

_Já sei que não terá a manhã livre... _ resmungou.

_Falando nela... _ sorri e vi Cris entrar pela porta da sala.

Karen levantou e empurrou a cadeira com força. Cris olhou-a estranhando sua reação brusca e depois voltou a sorrir para mim.

_Tomando suco? Pensei que precisasse de uma xícara dupla de café preto.

_Hei, eu não bebi tanto assim!_ ri. _ Apesar disso aqui ter ficado uma loucura ontem...

_Ah! Eu pude ver... _ falou pejorativamente.

_Você não quis ficar... _observei.

_Não era meu trabalho.

_Você é muito durona. _ levantei-me e caminhei para sala.

_Prefiro que me chame de profissional. _ riu.

_Então, hoje é a sua vez. _ joguei-me nas almofadas. Aquelas nossas conversas eram as melhores sessões de terapia que eu podia querer.

_Minha nada, já falei demais. Vamos continuar com... _ abriu seu caderno.

_Por favor. Conte sobre você.

_Tudo bem. _ sorriu e desligou o gravador. _ O que quer saber?

_Fale também de algum relacionamento seu.

_Cruzes, você vai dormir. _ revirou os olhos.

_O meu não deu certo e os seus?

_Também não, a diferença é que eles não eram grandes astros pops. _levantou as sobrancelhas. _ Mas... _ riu. _... Estou lembrando aqui de um.

_Conta.

_Nãooo.

_Já começou!

_Estou lembrando de um carinha que conheci na redação onde trabalhei. Estava super interessada nele. Parecia o cara perfeito. Só que cara perfeito com 35 anos solteiro é suspeito.

_Suspeito de quê?

_Se ele tem essa idade e não foi fisgado por ninguém é preocupante. Mas, eu deveria ter nascido cientista, sempre querendo subverter todas as teses pré-existentes. Foi aí que eu fiz de tudo para chamar a atenção. Comecei fazendo uma escova no cabelo. Interessante que homem não dá a mínima para o cabelo... da sua cabeça. Mas, você pensa que fazer uma escova vai te tornar a Angeline Jolie. Entra naquele salão que custa metade do seu salário e vê que seu cabelo até cresce. Eles puxam tanto os fios do couro cabeludo que não tem como cair depois, os pobres ficam presos pela ponta! Depois, chega em casa e coloca um perfume muito forte para marcar presença, que deixa um gosto horrível na boca do cara, quando ele te beija. Põe um creme que é pior ainda, vai fazer o pobre espumar feito um Pastor Alemão raivento. Então, pô, você quer que ele chegue junto ou cuspa? Não adianta interromper o processo. Um gloss para dar um brilho labial. Na sua boca e na dele, porque gloss é uma coisa que se usa junto. Mesmo que ele se sinta um bebê babão que está perdendo os dentes.

Eu entro no Motel e vejo aquela banheira de hidromassagem enorme. Ele esfrega as mãos e parece que é a primeira vez que está indo a um parque aquático. De repente, me sinto desesperada. Toda mulher que faz escova deveria escolher a opção de quarto Standart, sem banheira. Depois de 60 reais você tem que não parecer com frescura e molhar o cabelo ou parte dele. Aí, você passa do liso paquita ao black power em poucos minutos!

Só que não valeu a pena...

_Por quê?

_Porque, no fim, ele perguntou se eu queria subir de cargo, ou seja, ele pensou que eu era uma interesseira.

_Que idiota.

_Tivesse falado antes, eu não teria fingido o orgasmo.

Ri e ela também.

_Você tira sarro de si mesma.

_Se a pessoa levar a vida muito a sério, ela acaba deixando a ansiedade matar as células do corpo e envelhecemos mais rápido. Está comprovado!

_É mais difícil fazer as pessoas chorarem que rirem. Pelo menos é assim para nós atores.

_Você já fez as duas coisas comigo. Acho que é um bom ator, então.

_Eu não atuo com você.

Cris ligou imediatamente o gravador. Bastava um descuido meu e ela voltava ao bendito profissionalismo.

Bastidores= Acho que Igor está como no conto das Mil e uma Noites... sendo fisgado pelo bom papo de Cris. Mas, e ela? Vamos ver no capítulo de amanhã.

14 de abr de 2008

Cap 35: A confiança é uma moeda de troca (Cris)

Eu senti que Luísa guardava parte da história que Igor omitira. Como jornalista, isso significa que não fiz um bom trabalho e deixei alguma informação pendente. Não era nenhuma matéria de jornal que demandasse um furo, mas meu lado profissional havia falhado. Eu não perderia a chance de reparar isso:

_O que aconteceu com Igor, Michele e Rui?

_Eu não compreendia bem o que estava acontecendo porque era muito pequena. Mas, depois, Igor me contou em detalhes. Para mim, pareceu uma incrível história de filmes, só que, mais tarde, eu fui vendo que barra ele enfrentou. A gente só sabe o que é gostar de alguém quando gosta, né?

O que ela sabia de gostar? Mas, seja lá qual fosse sua concepção ou experiência, convencia por sua segurança.

_Me conta, então... _ pedi. _ Estou louca para saber... _ fiz um ar de adolescente para tentar persuadi-la.

_Bom, Igor lhe disse que Rui gostava de Michele e acredito que se referiu a uma peça.

_Isso sim...

_Só que nem tudo saiu como os planos dele. Igor conseguiu vingar-se de Thiago, que perdeu para sempre o título de “Namorado de Michele”. Mas, como na vida a gente ganha em alguns quesitos e perde em outros, meu irmão não soube beber a dose certa do veneno. O que era para curar foi causa da “sua própria morte”.

Ela estava sendo dramática demais! Tentei não esboçar qualquer reação.

_Igor fez tantas postagens naquele blog sobre o amigo, sem que esse soubesse que era ele o autor, que, de repente, o colégio só falava nisso e a popularidade do amigo cresceu vertiginosamente. Michele ficou tão encantada pelo fato de ser parte de uma novela virtual contada por um olho anônimo que não queria mais deixar de estar no foco das atenções. Ela começou a gostar do mito Rui, o garoto sem graça que, sem mais nem menos, se tornou a fonte de todos os assuntos. Só, que ela seu deu conta disso justamente quando Igor entra em cena na vida real por um acaso do destino.

_Pelo que me lembro ela estava doente e pediu para que Igor fizesse parte de uma peça que arrecadaria fundos para seu tratamento... _ tentei me lembrar dos detalhes que sabia para situá-la até onde eu tinha ciência. _ Como estava tão envolvida com Rui se deu em cima de Igor?

_Pelo visto meu irmão não contou os mínimos detalhes... _ Luísa sentou-se e pareceu mais disposta a não deixar passar nada que sua memória pudesse recordar. _ Seguinte... a Michele, quando descobriu que estava com uma infecção séria no fígado, se deu conta de que poderia morrer. Igor começou a ensaiar a peça com ela e formaram um par perfeito em todos os quesitos. Dançavam, atuavam, gastavam todo o tempo fora de sala juntos. Não deu outra, se apaixonaram. Só que Igor sabia que não poderia trair o amigo de modo algum.

_E o Rui descobriu? _ perguntei ansiosa e completamente envolvida por sua narrativa.

_Não... mas Igor não agüentou e traiu a amizade dele. Em um dos dias da peça, ele estava sozinho com Michele na sala onde se arrumavam. Ela parecia muito nervosa e meu irmão resolveu animá-la com algumas piadas. Quando estavam completamente soltos e perceberam que ninguém ali poderia ser testemunha de nada que fizessem, Igor a beijou impetuosamente. Eles se afastaram e se deram conta do que acabavam de fazer. Depois da peça, na saída, Igor correu atrás dela e pediu que fingisse que nada aconteceu porque não gostaria de perder o amigo. Michele ficou muito chateada, pois pareceu que o beijo não tinha significado nada para ele. Igor havia provocado um verdadeiro epicentro de um terremoto. Michele perguntou se ele teria coragem de ficar com ela.

_Igor disse o quê?

_Que gostaria, mas que isso dependeria de trair o amigo, então, era melhor não tentarem. Foi aí que Michele entrou na fase de cirurgia e ficou no hospital. Ela terminou com Rui, mas ele não cansava de visitá-la e fazia tudo para estar ao seu lado. Igor se afastou totalmente e sofreu pra caramba.

_Que horrível.

_O pior é que ela não aceitava receber suas visitas porque dizia que ele era um covarde.

_Nossa, que cruel!

_Eu a entendo. Ela já sabia que não resistiria e preferiu ferí-lo a mantê-lo longe.

_Michele morreu? _ perguntei.

_Morreu. Mas, antes, pediu que Igor fosse visitá-la. Ele correu para vê-la, claro. Ela lhe disse que não deveria desistir das coisas, mesmo que implicasse perdas. Meu irmão não resistiu e a beijou. Ela falou que admirava a atitude dele com o amigo.

_Pelo menos, Igor não perdeu a amizade de Rui.

_É... só que a história não pára aí. Rui ficou muito mal após a morte da ex-namorada e começou a sair muito e beber. Ele morreu poucos meses depois em um acidente de carro.

_Não diz isso! _ senti um nó na garganta.

_Aquilo foi o fim para o meu irmão. O Rui pelo menos nunca saberia que Igor ficou com sua namorada. Essa era a compensação para meu irmão não ter lutado por Michele. Agora, com a morte dos dois, não ficou nada... Aaliás, ficou só uma coisa.

_O quê?

_O palco. _ Luísa sorriu e vi seus olhos cintilantes. _ Os dois se foram, mas a experiência de atuar tornou-se a única coisa boa e viva para Igor. Isso o fez sero sucesso que é hoje.

_Uauu! _ ri. _ Isso tudo é incrível... é tão louco... _ soltei os ombros, estava tensa com toda a história.

Eu precisava sair e respirar. Aquelas cenas eram muito fortes e surpreendentes. Quando encontrei Igor na saída, perguntei por que não me dissera tudo.

_Não estou entendendo. _ ele disse.

_Igor, há uns amigos seus chegando agora... _ Karen aproximou-se, não queria que ninguém nos pegasse conversando.

_Depois cumprimento eles. _ Igor respondeu, sem olhá-la. _ Vamos para cá. _ seguiu pelo corredor lateral que dava para os fundos da casa.

_Não fiquem em um canto isolado. Por favor, prefiram um lugar público. _ a voz de Karen já longe não o fez parar de andar.

_Como sabe?... _ Igor olhou nos meus olhos.

_Luísa... _ revelei.

_Hum. _ ele respirou fundo. _ Não precisa sentir pena, ok?

_Pena? Não! Eu fiquei admirada... achei muito diferente...

_Às vezes, eu prefiro que fique assim: meu amigo amando a garota que também amei. Os dois vivos em algum ponto feliz do passado. _ falou.

_E você?

_Eu? Nem sempre há espaço para nós em todas as cenas. Às vezes, devemos nos contentar com uma ponta, um papel menor.

_É que olho para você e... não posso crer que enfrentou tantas coisas.

_Imagino que você também já passou por outras tantas. Amanhã a gente continua?

_Ah, claro, claro... se você não me esconder mais nada. _ ri e falei em um tom amistoso.

_Confiança é uma moeda de troca.

_Eu já vou. _ disse-lhe.

_Fica? _ pediu.

_Eu não combino muito com a festa... _ disse-lhe.

_Mas nem está na sua hora de trabalho.

_É, não estou. _ achei graça.

_Sem contar que eu ainda não derrubei nada na sua roupa. _ brincou.

Ri e balancei a cabeça para os lados.

_Preciso ir mesmo. _ sorri e caminhei para o portão.

Assim como Igor criara um Rui para as pessoas de forma que elas passaram a amá-lo através daquela narrativa anônima, Luísa conseguiu me fazer admirar seu irmão depois das revelações. Aquele que pedia para eu ficar era alguém que perdera um grande amor, um grande amigo e uma grande chance de ser feliz, mas ainda estava de pé.

Li Mendi

Bastidores: Se a confiança é uma moeda de troca, depois de ouvir tantas revelações, o que Cris vai contar também? Hummm, é o que vamos ver!

**Se você quiser receber informe por email de que o capítulo foi publicado, deixe seu e-mail no comentário abaixo. Beijos da Autora Li Mendi

11 de abr de 2008

Cap 34: Surpresinha (Cris)

Havia grande movimentação na frente da casa de Igor e, pelo telefonema de uma amiga que trabalha ainda na redação, era dia de festa. Ele era o mestre em promover baladinhas em sua casa capazes de reunir os stars mais famosos em um único lugar. A imprensa dessa vez ficou de fora para aumentar o frisson. Usei minha influência sobre o porteiro e expliquei que era só mais um dia de entrevista sobre o livro.

Ao chegar na sala já lotada e com uma música Techno nas alturas, fui inspecionada por Karen querendo saber se eu tinha credenciais. Como ela podia ainda se preocupar com isso? Não estava mais que comprovado que eu não era uma intrusa?

_Oi, Cris. _ ouvi alguém ao meu lado.

_Luísa? _ sorri.

_O que está fazendo aqui? _ Karen brigou. _ Seu irmão deu ordens para você ir para casa dos seus pais. Onde está o táxi que eu chamei?

_Eu mandei ele voltar.

_Seu irmão não vai gostar de saber nada disso.

_Eu vou dormir aqui. _ ela cruzou os braços e olhou para as pessoas andando ao seu redor iluminadas pelas luzes coloridas.

_Dormir como? Isso não é lugar para você.

_Eu já estou bem grande. Qual é? Vai rolar droga?

_Não! _ horrorizou-se e conferiu se eu estava registrando a pergunta da garota. Eu revirei os olhos. Que patético. _ Está louca? _ falou mais baixo para que eu não pudesse ouvir.

_Tudo bem, ela vai dormir. _ peguei Luísa pelo braço.

_Eu não vou! _ ela tentou se soltar.

_Fique quietinha, boba! _ disse-lhe.

_Ãnh?

_Você não vai querer perder essa festa, vai?

_Nunca!

_Nem eu... _ falei baixinho para mim mesma.

Subimos a escada que dava para o segundo andar.

_Vamos ficar aqui em cima. _ instrui-lhe. _ Daqui a pouco as pessoas já vão estar bem altinhas e não vão dar conta de nós.

_O cão de guarda sabe que estamos aqui.

_A Karen? Não ligue, ela vai ter muito trabalho para manter tudo sob controle.

_Tomara. _ Luísa riu. _ Você já imaginou não poder entrar em nenhuma boate e, de repente, morar dentro de uma? É o máximo.

_Oh, deve ser! _ cruzei os braços e olhamos para baixo.

_Meu irmão sempre apronta uma. Uma vez pediu para as garçonetes virem vestidas de coelhinha. Em outra, trouxe dançarinas do ventre... todo mundo fica esperando qual será a graça da vez.

_E qual será? _ perguntei.

_Não vou estragar a surpresa. _ piscou o olho para mim e continuou olhando para baixo.

_Ah! Está me devendo uma! _ cobrei.

_Hum... vai perder o impacto.

_Qual é? _ fiz uma careta de pouco caso. _ Ele vai trazer animais de um jardim zoológico?

_Não exatamente... mas elas vão perder a razão.

_Ãnh? _ franzi a testa. _ Aliás, cadê seu irmão? Eu tinha umas páginas do livro para mostrar para ele. Não sabia da festa.

_Ah! Depois você mostra. _ fez um gesto com a mão para eu adiar o plano.

_Hum... _ suspirei e voltei a olhar para baixo. _ Acho que vou embora agora...

_Embora? Tá louca?

_Eu sou uma jornalista, Luísa. Não vou ficar aqui para ver o que já sei.

_Será que pode saber de tudo só pelo que vê? _ me perguntou, olhando em cheio.

_... _ fiquei sem saber o que responder. _ ...e o que diria do que vai ver? _ fez um aceno com a cabeça para baixo. Aproximei-me do parapeito do segundo andar e ouvi os gritinhos começando a surgir lá embaixo.

As pessoas começaram a olhar para a porta principal e a aplaudir. A música parou por alguns segundos. Eu não estava entendendo nada.

_Ele contratou algum convidado especial? _ perguntei à Luísa, mas ela já não me dava ouvidos. _ Vai ter música ao vivo? _ insisti e acabei desistindo.

Clique aqui para ouvir a trilha sonora

_O que é a-qui-lo? _ perguntei lentamente e arregalei os olhos com a boca levemente entreaberta.

Um homem vestido de roupa preta, coturno e quepe entrou com passos firmes. As mulheres fizeram um corredor por onde ele passou a passos firmes.

_Não é o seu irmão é? _ perguntei incrédula.

_Metade da minha escola se mataria por isso. _ ela riu eletrizada.

Ele subiu em cima de um pequeno palco e só pude ouvir os gritos. Igor virou de costas e rebolou para o delírio esquizofrênico das mulheres. Depois, olhou para o lado e ameaçou a tirar os óculos escuros, mas não o fez, virou-se de frente e despiu o colete onde estava escrito “pede para tirar”.
_Tira!!! _ elas gritavam eufóricas.

Igor jogou a camisa preta para elas e deixou amostra a tatuagem de dragão cinza nas costa. Seu corpo moveu-se sensualmente ao som da música e foi a vez de ameaçar abaixar o cóz da calça preta apertada. Eu não sabia se ali era o ator ou a pessoa Igor, mas não conseguia acreditar que podia mudar tão rapidamente de personalidade. Saindo do jovem sentado no sofá de casa para aquele go go boy profissional.

Procurei imediatamente onde estava Karen. Ela o olhava admirada também. Impassiva, em pé como uma estátua. Karen sabia que aquilo pararia no youtube e seria um estrondo total na mídia. Ela media até onde o seu pupilo poderia barbarizar.

_Ele é seu irmão! _ falei para Luísa.

_Mas, eles não... _ ela apontou para a porta e deu um gritinho.

Surgiram, para o frenezi total das mulheres, um zorro, um salva-vidas e, claro, um bombeiro.

_Seus pais vão te matar... _ balancei a cabeça para os lados.

_Para que estar na cama sonhando se tem ao vivo e à cores? _ ela piscou o olho.

A festa lá embaixo pegava fogo com os dançarinos, mas Luísa viu que era hora de escapar.

_Meu irmão parou de dançar, vamos sair daqui. _ me puxou pela mão.

Fomos parar no quarto de Igor, fugindo como adolescentes.

_É uma pena que não posso descer. _ jogou-se na cama de costas. _ Eles são gatos, né?

_Humm...

_Alouuu? _ ergueu a cabeça para verificar minha reação.

_Tá. _ revirei meus olhos. _ Eles são... sexys.

_Inclusive meu irmão?

_Ãnh... _ sentei-me na beira da cama e tentei ganhar tempo. _ Se não se importa, prefiro não falar do seu irmão. Ele paga meu salário, sabe?

_Tudo bem, seu corpo fala.

_Como assim?

_Deveria usar uma blusa menos fina. _ aconselhou.

_É o ar condicionado. _ garanti, virando-me de lado.

_Ah! Claro. Como vai o livro?

_Bem.

_Posso ver? _ pediu.

Dei-lhe as folhas. Ela revirou algumas e parou na última com cara de dúvida.

_Ele ainda vai contar o resto?

_O resto?

_Tudo bem, melhor ele dizer... _ despistou.

_Na verdade, ele não quis detalhar a parte do namoro da Michele com o Rui, disse que seria sem graça.

_ Ele disse que seria sem graça? Não acredito! _ fez uma pausa. _ Tá, tudo bem, é compreensível...

_Alguém está me escondendo uma parte da história que eu não sei?

Luísa voltou a olhar para as folhas e ficou hesitante.

Depois do que contou-me, eu estava totalmente assombrada. Levantei e disse que precisava ir embora. Na porta de saída, esbarrei em Igor.

_Você está aqui? _ sorriu.

Eu ainda estava com a cabeça revirada pelas últimas informações.

_Estou e vou embora.

_Espera, pode ficar... _ abriu os braços com o copo de bebida com gelo na mão direita. _ Gostou dos animadores da festa?

_... _ não respondi. Olhei-o longamente. _ Deixa-me ir. _ olhei para baixo e caminhei para a varanda.

_Cris. _ segurou-me pela mão. _ Alguém te tratou mal?

_Por que não me falou? _ perguntei. _ Pensei que a gente ia abrir o jogo todo, entrando no livro ou não.

_Não estou entendendo... _ balançou a cabeça para os lados.

Bastidores= Eu também não estou entendendo, Cris. Conte para nós o que a Luísa revelou!

10 de abr de 2008

Cap 32: Anos de colégio, nem tão velha assim (Cris)

_Você falando isso me lembra meus tempos de adolescência. _ Igor riu.

_Fez parecer como se fôssemos dois velhos!

_Você que é. _ riu e eu não achei a mesma graça. _ Estou brincando, hen?

_...

_Continua. Fala! _ pediu.

_Sobre o colégio?

Hum. Eu não era boa aluna. Mas, não era medíocre... aliás, uma coisa que eu sabia fazer eram contas. Por exemplo, quando você tem uma prova na sexta e em plena quinta-feira, oito horas da noite, você está lendo pela primeira vez o 15º capítulo de história que vai cair no dia seguinte: não tem por que se desesperar, são 45 capítulos e ainda nem começou o Jornal Nacional.


Na segunda-feira, você acha que é dia de relaxar, é aquele dia da semana que é seu. Na terça, enche o peito de confiança e diz que pode deixar para estudar na quarta. Na quarta, começa a arrumar o material de estudo. É um ritual religioso completo. Primeiramente um pouco de luz, você liga a lâmpada da escrivaninha. Aí, resolve procurar um lápis na gaveta e descobre que precisa arrumá-la. Se você pode demorar mais um pouquinho, faça esse “esforço”. Três horas depois, arruma os livros, um em cima do outro, empilhados perfeitamente. Aquilo não é uma biblioteca! Depois, abre um a um. Putz, para que arrumá-los, então, caramba? É um ritual, ora! Aí saca as folhas que servirão de resumo. Aliás, resumo é uma coisa fantástica, ali entra tudo o que você não sabe e vai ler no ônibus, uma hora antes da prova. Caramba, se não aprendeu até ali, por que perder o tempo escrevendo a droga do resumo? Não conteste as crenças...

Bom, você respira fundo e começa a ler com vontade, calma e paciência. Aí, dá aquele grito básico para quem estiver na sala abaixar o volume, faz uma ceninha de que você é a pessoa mais importante no mundo porque estuda. Lá pela décima página, você já domina a leitura dinâmica, que consiste em olhar as palavras chaves em uma velocidade de uma página por trinta segundos. De repente, seus olhos se desviam para a unha. Está rachada no canto. Aí, você larga o livro e procura a lixa. Sempre naquele pensamento de que “vai dar tempo”.

Faz uma parada na geladeira. E quando digo parada é ficar em pé olhando para a manteiga, água e pote de feijão por 2 minutos com cara de quem escolhe o cardápio de 20 opções de molho do Espoleto. No fim, você fecha a geladeira e pega um pacote de biscoito da gaveta. Abre aquele lacre como um bambolê, dando uma bela volta com os dedos em posição de pinça e oferece o primeiro todo esfarelado e quebrado para o seu irmão.

Caminha para o quarto e senta novamente diante do livro. Bate um sono e você dorme, sempre deixando as páginas abertas ao lado do corpo para seus pais pensarem: “Nossa, como essa garota é tão esforçada, né?”. Na véspera, aí entra minha capacidade única de contar. É assim, você começa na dança das folhas, passando freneticamente uma a uma. Mas a técnica é: a cada vez que começar uma página conta quantas faltam. Você pode não lembrar porra nenhuma do que leu, mas ninguém vai poder duvidar que havia 42 páginas e meia, sem contar as figuras. Porque tem essa também: quando há gravuras você respira aliviada, vai ser mais rápido.

Agora, sabendo que você estudou tanto, mas tanto, seria injusto tirar uma nota baixa. Aí, você começa a corrente. Pede para sua mãe, sua tia, sua avó que escuta o Padre Marcelo, a mãe de santo da faxineira, todo mundo tem que rezar por aquela prova! Se você fosse um filme, sem dúvida seria “A espera de um milagre”.

E, depois de 759 vezes fazendo isso, você passa no vestibular e pronto, pode jogar o HD fora e colocar uma nova memória. É legal. No ensino médio todo os professores falam: “Preste atenção, porque você vai precisar disso!”. O que seu professor diz no primeiro dia de aula na faculdade? “Esqueçam tudo que aprenderam na escola”. Estudo é assim descartável, jogue naquelas latas coloridas e pronto.

Sem brincadeiras, agora. A faculdade de comunicação é totalmente diferente. Você tem vários tipos de professores. O fantasma, o estagiário e o artista. O fantasma é aquele que nunca vem e, quando vem, só dá susto com alguma prova. O estagiário é o que acabou de passar no concurso e quer mostrar tudo o que sabe como um google ambulante que cospe dados confiáveis (ou não) e a cada frase sua diz “eu acho que você queria dizer...”. Mas, o fantástico é o artista. Esse aparece um dia vestido de abóbora- gari com um colar redondo enorme que te faz ter medo de olhar e ser puxado pela mulher de O Chamado. Aí, ele fala que você vai dar a sua própria nota, porque ele não é repressor e acredita que cada um constrói seu conhecimento. Na verdade mesmo, ele finge que dá aula, você finge que presta atenção (mas está escrevendo um bilhete para a amiga do lado) e o curso finge que é bom. Como você não é uma pessoa arrogante e é muito autocrítica, vai se dar 9,0.



Li Mendi

9 de abr de 2008

Cap 31: Depois do trabalho (Cris)

A primeira pergunta que fiz na entrevista do dia seguinte para Igor estava martelando na minha cabeça:

_Quem tirou a foto de Rui e Michele?

Ele sorriu e cruzou a perna.

_Eu.

_Quê? Mas, ele era seu amigo!

_Tá, mas eu queria ajudá-lo.

_Propagando mais fofocas?

_Olha, eu sabia que isso iria motivar os dois a levar aquilo mais adiante. Ao acaso, liguei para o Rui e sua mãe me disse que tinha acabado de levar uma garota em casa. Como eu estava no celular, na rua, aproveitei para ver se achava eles e pegava a imagem a tempo.

_E o que fez com a foto?

_Pus no site. Os dois acabaram ficando muito mais vezes e eu consegui dar uma tacada de mestre em Thiago.

_Só que você não contou que a garota estava doente e se ofereceu para você?

_É... foi um grande rolo. Ela ainda não tinha se dado conta do quanto gostava do meu amigo e ficou com uns e outros. Mas, eu não iria ser o traíra. O problema é que estava em uma encruzilhada. Acabei fazendo a peça e ela forçou um beijo nos bastidores. Ele viu e foi uma briga das maiores...

_Nossa...

_O pior é que, depois, ela contou que fez isso para machucá-lo porque estava doente e queria vê-lo longe.

_Que piração. E estava mesmo?

_Não sei se realmente fez por causa desse motivo. Só que, de fato ficou muito mal e ele acabou sendo o único que lhe deu apoio.

_E, no fim...?

_No fim, ficaram juntos...

Anotei tudo.

_Você não disse que tinha que fazer uma prova? _ lembrei-me.

_Ah! Sim, uma prova para seguir a carreira militar. Fiz igual minha cara para não passar mesmo. Meu pai descobriu pela nota muito baixa e quis me esganar. _ riu.

_E o que isso tem a ver com sua carreira de artista?

_Eu falei para minha mãe que queria ser ator e fui para um teste. Nesse dia, encontrei com a Karen e ela me deu seu cartão. Depois, foi uma avalanche que me fez sair de casa, ganhar as telas e tudo o mais...

_Hum... _ anotei. Nossas conversas eram assim, primeiro Igor me contava por alto e, depois, aprofundávamos para que pudesse virar um enredo cheio de cenas e personagens.

_E você?_ perguntou.

_Como eu? _ sorri e voltei a olhar para o bloco de anotações.

_Fale de você, também.

_O livro não é sobre mim e combinamos que esse seria o meu trabalho.

_Você não conversa no ambiente de trabalho?

_Não com meu patrão.

Igor riu alto e levantou-se. Nessas horas, eu me sentia ridícula naquela posição de redatora de sua adolescência. Porém, me mantinha na postura de jornalista séria.

_Então, encerramos o dia de trabalho. _ anunciou.

_Ãnh?

Igor pegou o celular em cima do armário da sala e discou um número. Eu não acredito nisso, ele está me despachando? Enfiei o bloco na bolsa e quando já puxava o zíper, ouvi meu celular tocar. Era o número dele. Franzi a testa e atendi segurando um sorriso no canto da boca.

_Alô? _ eu disse.

_Oi. Sou eu, o Igor. Então, depois do trabalho você quer dar uma volta, conversar?

_Não sei se vai dar... _ parei de bancar aquela cena. _ Isso é ridículo. _ desliguei o aparelho e o joguei na bolsa. _ Eu não estou aqui para brincadeira, ok? _ levantei, olhando agora diretamente para ele.

_Nem eu. _ colocou seu celular de volta no armário e se aproximou do sofá novamente. _ Sabe por que as pessoas gostam tanto de novela? Para viverem por um momento a vida que não é real.

_Mas essa é a minha e ela é real.

_Por isso é tão chata. _ julgou.

_Está me chamando de chata? _ ri sarcástica.

_Não, a sua vida é chata.

_Talvez porque meu trabalho não seja um picadeiro. Eu não fico em camarins onde se servem salgadinhos na sua boca, Igor.

_Por que você me odeia tanto?

_Deixa de ser mimado, quem te garante que eu tenho qualquer sentimento por você?

_O fato de estar nervosa? _ levantou as sobrancelhas.

_Arrgghhhh. _ grunhi e tentei passar para ir embora.

_Calma. _ segurou meu braço.

_Ouça, Igor, eu não sou o seu tamagotchi. Imagino que tenha todo esse poder de influenciar a vida das pessoas, mas eu só quero...

_O que eu preciso fazer para ser uma pessoa normal para você?

_Não ser o meu patrão.

_Então, eu tenho que te despedir?

_Também não posso pedir isso.

_E se eu te garantir que será apenas e só uma conversa?

Respirei fundo e umedeci os lábios com a língua. Cocei a testa com o dedão.

_Eu sei o que quer, Igor.

_...

_Você quer alguém para escrever a sua história. Eu estou aqui. Mas, você quer uma companhia, enquanto não estiver trabalhando. Um alguém em quem possa confiar, já que essa pessoa depende de você. É quase uma amizade de aluguel.

_E você não teria pena de uma pessoa assim?

_Amizade não se tem por pena. _ ponderei.

_Tudo bem, estou tomando seu tempo... Boa tarde. _ ele fez menção a sair e foi minha vez de contê-lo.

_Tudo bem. Mas, em off! _ por fim aceitei.

_Claro. _ sorriu.

Sentamos novamente.

_Em vez de eu só falar, conte também sobre você. Pode ficar uma coisa menos engessada.

_Tudo bem. O que quer saber? _ perguntei ainda em tom profissional.

_Conte do seu período de pré-vestibular.

_Ah! Não vai querer saber... _ ri e coloquei o cabelo atrás das orelhas.

_Fala... _ ele deitou no sofá.

_Deixa eu ver...

Larguei a bolsa de lado e tentei relaxar.

Eu era do tipo gordinha. E, quando uma garota lembra que era gordinha, ela quer dizer que não entrava em nenhum número 38 nas lojas de calça jeans e ficava pulando dentro das cabines feito uma competidora de corrida de saco. Gordinha tem espinha porque todo mundo sabe que comidas gordurosas deixa sua cara tão rugosa quanto pele de frango depenado. E ainda vem aquela dermatologista que te passa um creme de 90 reais e um esfoliante de 82 que não servem para porra nenhuma, a não ser para ela e o vendedor de laboratório e diz: “Nenhum estudo comprovou que chocolate faz mal para pele”.

Mas, não dava para não ser gordinha. Veja que minha mãe comprava para eu levar para escola Traquinas. Todo dia, quando a aula estava pior que a programação da TV Câmara, eu abria o biscoito e passava para toda a fileira comer. Mas, uma semana, um mês comendo traquinas é virar um profissional provador da Fábrica de Traquinas não remunerado. Estava quase sabendo a diferença de consistência crocrante entre uma banda do biscoito e a outra. E, todo dia, quando eu olhava para a gaveta de biscoito: Traquinas. Porque mãe é assim: não muda o time que está ganhando. Se o filho gosta de Traquinas vai comprar uma caixa fechada que dura um mês. Foi assim também no segundo ano, só que com Clube Social. É prático de comer, você corta naqueles pedacinhos pontilhados que dá vontade de pegar a tesoura. Daí, bate com o pacote para se livrar dos farelos. Qual clube social sobrevive na mochila de aluno, espremido no bolso da frente? Um dia minha mãe apareceu com uma novidade e eu perguntei: “qual?”. Agora há os pacotões econômicos com vários mini pacotinhos de clube social. Aproveitei a promoção e comprei uns oito!”. Eu vou entrar para alguma comunidade odeio traquinas e clube social.

Aliás, eu odeio muita coisa... Tipo pergunta de caderno de questionário. Todo mundo na vida já respondeu naqueles cadernos colocando seu nome e número. “Você ainda é bv?”. Deixar de ser BV é mais importante que passar no vestibular! Imagina uma puta dor de barriga que até banheiro de fundo de botequim serve? É o seu desespero de se livrar da boca virgem. Aí vem as amigas com técnicas fabulosas: “treine com a mão”. Veja o desespero! Você sabe qual é o símbolo das bv ? Já ouviu falar da Hello Kitty...

E na TV é tão fácil, né? É igual receita para ensinar fazer bonequinhos de biscuit. A professora monta coelhinhos lindos de páscoa e parece tão ridículo. Até que você gasta uma dinheirama para comprar os ingredientes e tudo que consegue fazer é uma bola com uma cabeça que mais parece um porco. Pois bem, a gente parte para o abate, quero dizer, para o primeiro beijo, achando que vai ser como no filme do Homem Aranha um: bem de vagar e lento, provando os lábios sem língua. Igual quem odeia vinho e fica bebericando na noite de natal para não parecer uma retardada-nerd para os priminhos.

Depois de dente trincado, babada, mordida e com menos um elástico do aparelho do dentes vem a pergunta do caderno: “como foi o seu primeiro beijo?”. Alguém merece isso? Só que não temos o que nos preocupar é só o primeiro passo para um dia dar uma de Xena. Eu não disse dar a, não... deixa para lá. Você pode chegar a ser tão sexy como um beijo de Xena e Ares. Claro que vai precisar de consultoria que pode encontrar em todas as edições da Revista Nova. Aliás, já viu o site da Nova? “1001 idéias de sexo”. Depois que chegar no cem você vai ser o quê? A professora da Pamela Anderson? E as dicas são feitas só para quem quer ser muito bom mesmo: “Pagamos ao gerente para que rodasse uma sessão só para nós. Transamos em todas as fileiras enquanto o filme rolava.” Se eles conseguiram transar em todas as fileiras ou ela é uma boneca inflável ou o cinema era uma sala de projeção do condomínio!

Mas tá, a parte do beijo é uma fatia da vida ativa além da rotina zumbi de estudar para aquelas provas de vestibular que irão testar os conhecimentos que você nunca mais usará na sua vida. Tudo bem, sempre tem um amigo chato que vai falar: “Claro que usa isso!”. Tudo bem, o banheiro lá de casa deu um problema na fiação e agora fico apertando o registro de abrir com direito a choquinho que mais parece pegadinha do programa do Sérgio Malandro. Alguém sabe onde o U=R.I conserta isso?

Bastidores= Parece que Cris tem muito a contar e Igor não vai querer voltar mais para o horário de trabalho. A continuação vocês vêem amanhã.



Li Mendi

8 de abr de 2008

Cap 30: Sem hesitar (Cris)

Meus dedos hesitavam cada vez mais sobre o teclado a cada final de dia. Porque eu sentia que estava mais que nunca dentro daquele enredo no qual estava trabalhando. Era real, mas poderia ser um roteiro de um belo filme ou novela em que apenas eu tinha o privilégio de saber em primeira mão. Deleitava-me sozinha com o sabor de conhecer o passado daquele ator tão famoso. Eu tinha ânsia de voltar às cenas e torná-las viva não apenas em sua voz saindo do gravador, mas das pontas dos meus dedos...

Rui atravessou o corredor olhando para o chão. Não queria encarar as pessoas, mas aquela risada era inconfundível. Levantou o rosto e viu Michele na frente do seu armário do colégio, rodeada de amigas. Todos o olhavam ou era força do seu pânico? Lembrou-se em um relance de segundos a reunião que Igor fizera em sua casa para montar um plano de ação a fim de ignorá-la. Queria, muito pelo contrário, pedir para conversar, explicar que não fora culpa sua a postagem no blog. Mas, será que aquilo estava sendo tão relevante para ela quanto era para sua vida? Michele poderia ser adorada por qualquer um e sustentar mil boatos com graça e humor. Agora não era coisa comum à vida de Igor.

Talvez, Igor estivesse certo. Melhor fingir que nada aconteceu e diminuir a ênfase da questão.

_Hei! _ ouvi a voz de Michele atrás dele. _ Como assim?

Antes que Rui se virasse, ela já estava em sua frente.

_Não vai falar nada sobre o que está acontecendo? _ perguntou.

Ele a olhou e não captou se aquilo era raiva ou indignação.

_Não fui eu. E lamento, não queria meu nome envolvido nisso.

_Bom, eu não queria esse boato. _ ela riu.

_Ótimo, somos dois, então isso é um consenso. Eu vou por aquele corredor ali e você, pelo outro. _ ajeitou a mochila nas costas.

_Ou, ouuu. _ chamou-o mais uma vez, quando Rui virou-se para continuar seu caminho._ E o estudo? Combinamos que poderia me ajudar a melhorar minha nota. Se eu não fizer isso, estou arruinada. Vai virar uma bola de neve...

_Eu tenho um treino de futebol hoje à noite, no campo próximo à lanchonete da esquina. Termina às 20 horas.

_Quer que eu vá lá? _ ela franziu a testa.

_Desculpe, mas é quando eu posso.

_Tá... mas, vai ser ali? _ fez uma careta.

_Por mim, pode ser outro dia...

_Outro dia, não. A prova já tá aí...

_Olha, eu vou jogar e, se você quiser, depois passamos na minha casa. Lá é tranqüilo.

_Na sua casa? Está brincando?

_Você vê sua agenda porque estou sem tempo. _ Rui virou-se e esbarrou em Tiago. Seguiu pelo corredor antes que também tivesse que dar satisfação.

No fim do jogo, à noite, limpou o rosto com a toalha e bebeu a água da garrafa que estava na arquibancada. Despediu-se dos amigos e fechou sua mochila.

_Eu não consegui falar com você. _ ele ouviu uma voz feminina vindo do meio do campo.

Era Michele com o pé em cima da bola. Ele sorriu e deixou de lado as teorias de rejeição de Igor.

_E não ia conseguir mesmo. Não tem meu telefone.

_Quem disse? _ ela tentou fazer uma embaixadinha sem êxito.

_É, você tem muitos contatos.

_Não sou boa nisso. _ largou a bola.

Rui começou a quicar a bola com o pé sem a menor dificuldade.

_Aliás, não sou boa em muitas coisas.

_Você falando isso? _ riu, sem tirar o olho da bola.

_Tem coisas que você pode me ensinar.

_Tipo o quê? _ Rui parou a bola sob o pé e a olhou diretamente no rosto. Estava iluminado pela luz branca dos refletores.

_A matéria da prova, ora. Seria o quê?

_Nada. _ colocou a bola de baixo do braço. _ Vamos até a minha casa?

_Eu pensei na minha...

_Não se preocupe, minha mãe não sabe mexer em blogs.

_Tudo bem... _ coçou a cabeça.

_Eu preciso tomar um banho. _ comentou e eles caminharam lado a lado.

O estudo não foi nada motivante. Além do cansaço físico, havia o clima estranho pelas fofocas que minimizava o ímpeto de Rui tomar qualquer atitude. No fim, precisou levá-la de volta até onde haviam se encontrado para não andar sozinha à noite.

_Tem certeza que pode ir daqui? Se quiser, eu acompanho...

_Não! _ ela balançou a cabeça negativamente.

_Ok. _ Rui continuou com as mãos no bolso da calça jeans, parado sobre a grama.

_É estranho...

_O quê? _ perguntou ele.

Michele deu um pequeno pulo e se segurou nas traves do gol. Fez um movimento pendular de balanço.

_Tudo...

Rui teve medo de perguntar, só para ter o sabor de poder fazer suas próprias interpretações.

_... como sabe que já é tudo?

_... _ ela sorriu e tomou outra vez impulso para se segurar apenas nas barras, tirando os pés do chão.

Ele pensou que talvez nunca mais aquela chance voltaria e que um momento mágico não chegava duas vezes, principalmente depois de todos os anos admirando-a de longe. Não importava se ela estava curtindo a sensação de ser o assunto da vez, ele só queria saber como seria cometer aquela loucura.

Caminhou à frente, segurou seu rosto e colou sua boca na dela em um contato que lhe tirou o ar. Não queria saber se podia, alguns segundos a mais lhe bastava. Ela firmou os pés no chão e sentiu as mãos de Rui envolver-lhe as costas impedindo que fugisse. As mãos de Michele se soltaram vagarosamente e deslizaram até cair sobre os ombros do rapaz. Quis conter, mas o contato quente e forte era inebriante, beijou também. Ninguém ali podia vê-los, nem tinham que fingir nada. Era só a noite fresca e os lábios úmidos se provando com vontade.

Quando se afastou, Rui sorriu e sentiu um frio na barriga, um medo da rejeição.

_Uauuu. Não estava nos meus planos. _ ela riu e passou as mãos no cabelo. _ Será que foi por força do que andaram falando e...

_Não precisa de desculpas.

_Não é isso!

_Sério, tudo bem. Já está tarde. Vai mesmo sozinha?

_Claro, só atravessar duas ruas. _ Michele deu alguns passos de costas e depois virou-se para seu caminho.

Imaginou que seria só mais uma experiência em sua vidinha repleta de atos que sempre trazem novos personagens à cena. Só não imaginou que sempre há espectadores indiscretos que gostam de fazer um bom registro dos fatos.

2 de abr de 2008

Cap 29: Seja ridículo, mas seja positivo (Igor)

Rui ficou tão desesperado com o que leu que eu comecei, rapidamente, a pensar em uma solução para consertar o que havia feito.

_Eu aposto que foi aquela garota que trabalha na biblioteca que descobriu! _ vociferou.

Rui se referia ao comentário que acabávamos de abrir no blog: “Reparem que, na foto, há um relógio na parede marcando 3 horas da tarde e, nesse horário, o único garoto que assinou o livro para ficar ali estudando foi o Rui...”

_Qualquer pessoa poderia ter ido lá e visto o livro de presença. _ lembrei-o. _ Não precisa, necessariamente, ser a bibliotecária.

_O que é isso?! Repararam no relógio da parede e foram fuçar o livro?! Ela é alguma dissecadora de corpos nas horas vagas ou muito fanática por CSI? _ ironizou. _ Como vou agora colocar a cara na escola?

_Parece até que estava transando com ela em cima das prateleiras! Peraí que não é para tanto! Por que não leva adiante a idéia de roubar a gatinha do Tiago?

_Você acha que eu não tenho medo de morrer ou quer me usar como a bola da vez para atingi-lo?_ alfinetou.

_Como não me conhece bem ainda, vou te dar a licença para desconfiar de mim. Só que eu não seria capaz disso e, com o tempo, posso te provar. Sou muito leal aos meus amigos. E estou disposto a consertar...

_Não, não... Se você sabe bagunçar, nem quero ver seus métodos para compensar o erro. _balançou as mãos no ar.

_Às vezes, as pessoas não estão abertas a gostar de alguém... até que, de repente, os outros despertam a atenção para fulano e ela começa a olhar diferente.

_E esse fulano sou eu? Porque se for, não tem a ver com a Michele.

_Ãnh? Mas não gosta dela? _ fiquei totalmente confuso.

_Gosto, agora o que é tão provável quanto eu fazer sinal para um ônibus escrito: “Lua-Parador” é ela despertar o seu olhar de rímel purpurinado de rosa para mim.

_Qual o problema com você? _perguntei.

_Comigo nenhum, mas o problema que ela tem comigo. _levantou o dedo indicador e apontou para o próprio peito.

_Eu ainda acho que posso fazer alguma coisa para ajudar. _inquietei-me.

_Não diz isso que eu já fico com urticária... _ fingiu se coçar.

_E se eu conseguir? _ desafiei.

_Eu fico com ela, o Tiago se ferra e, de quebra, vou ter que dizer que você tinha razão. Bom, no dia seguinte, eu jogo na loto, afinal, isso conseguirá ser uma probabilidade tão impossível de acontecer quanto eu ser o próximo milionário deste país.

_Eu sou uma pessoa positiva. _ disse-lhe.

_Aaaah! Super. Todas as opções: “Tiago vai quebrar o meu nariz”, “Michele não vai olhar na minha cara amanhã”, “o colégio inteiro vai me achar pretensioso” podem ser entendidas como resposta “positiva”.

_Não seja ridículo!

_Eu sou um ridículo consciente! _ Rui riu sarcástico.

_Eu não vou sossegar...

_Esse é meu medo!

Bastidores: Igor pelo visto não vai deixar o amigo na pior. Mas, que idéia você daria para ele ajudar Rui a conseguir ficar com Michele?

1 de abr de 2008

Cap 28: Verdades e anonimato (Igor)

Meu pai estava decepcionado comigo até as próximas gerações. Dizia que a família teria que abafar o caso para que isso não afetasse a minha reputação futura. Na verdade, eu estava preocupado era com a imagem de outra pessoa. Sentado na varanda, ouvindo música com os fones de ouvido, eu podia sentir a satisfação de trabalho cumprido. A mina estava enterrada e eu ficava à espreita de ouvir o barulho da explosão.

_Rui? _ franzi a testa ao vê-lo no meu portão. _ Entra aí, tá aberto.

_Você está louco? _ ele subiu os dois degraus aos pulos, aproximou-se afoito e me pegou pela camisa. _ O que tem na cabeça? Como pode...?

_O que foi? _ arregalei os olhos e meus fones caíram do ouvido, deixando a música abafada no ar.
_Como me pergunta? Eu te dei a senha.

_Tá, mas eu não sabia que tinha que te dar satisfações do que escreveria!

_Algum problema? _ minha mãe apareceu na porta, atraída pela nossa briga.

_Não! A gente só estava falando alto. _ disse-lhe e ela ainda olhou por um tempo para mim que me afastara dois passos atrás e olhava o chão de madeira.

_Hum... Então, procurem não fazer barulho porque sua irmã está dormindo.

_Tudo bem, mãe.

Ela entrou e Rui passou a mão na cabeça.

_Aquele idiota precisa saber que não é o todo poderoso. Ele me ferrou.

_E pensa que vai ficar quieto depois do que publicou? _ perguntou-me.

_Mas não é anônimo? Há algum número de IP que possa ficar registrado ou algo assim?

_Não, não...

_Então pronto, até parece que está querendo defendê-lo! Ficou com pena agora? Aquele babaca me fez quase ser expulso por uma falsa cola e agora meu pai não sabe se acredita em mim ou me condena como pior filho do mundo. O que escrevi não foi nada, é um beliscão em comparação ao estrago que ele fez. _ expliquei-lhe.

_Você não entende como funciona aquela escola, cara. _ subestimou-me. _ Você não entende nada...

_Tá. Deixa eu recapitular. Há dois blogs de turmas rivais desde a quinta série. Eu simplesmente loguei e escrevi umas coisas. O que tem de complexo nisso?

_Acha que todos podem escrever e ficarem anônimos?

_Mas é anônimo ou não é caramba?! _ comecei a ficar com medo de que o sigilo da fonte ficasse apenas na palavra-chave da senha.

_Se apagar talvez seja pior. Ou não... _ ficou devagando e não me respondeu diretamente.

_Olha, eu estou agradecido por tanta preocupação. Mas acha mesmo que o Tiago vai querer me bater de novo...? É, acho melhor eu apagar. Só tem 2 horas no ar. _ levantei-me. _ Quer entrar?

Ele acompanhou-me até o quarto. O meu computador estava na tela de proteção. Mexi o mouse e abri a página do blog para uma última olhada.

_Está cheio de comentários. Não posso apagar. Vai ser pior, aí que vão falar mesmo... _ comentei baixinho e ele ao lado, sentado na beirada da cama, nada acrescentou.

Li mentalmente de novo a pequena nota que escrevi: “Michele não anda almoçando ultimamente e isso não faz parte de uma nova dieta revolucionária. Ela está se exercitando e também não me refiro a academia. Seu cérebro anda trabalhando como nunca. Veja que até arranjou um parceiro de estudo. Será que vai terminar como nos filmes e as mãos se encontrarem debaixo da mesa? O que sabemos é que Tiago não seria nada bom para esse papel, seu cérebro ainda não foi tirado da embalagem”.

_O que acha mais perigoso? A parte do cérebro intacto ou as mãos debaixo da mesa? _ perguntei.

_A parte que mais me preocupa é... _ esticou o pescoço e procurou na tela a linha do texto que queria. _ ...“Veja que arranjou até um parceiro de estudo”.

Eu o olhei por alguns segundos e gelei.

_Não era você... era?

_Obrigado por me enfiar em uma roubada! _ falou irônico e aborrecido comigo.

_Putz... _ levei a mão à testa.

_Mas, você está de costas na foto e o armário tampa metade do seu corpo. Relaxa.

_Acha mesmo que vai ficar barato? Dessa vez não vou precisar do meu cachorro Rex, mas de um Tiranossauro Rex!

_Quer que eu apague ou não?

_Agora já era... Eu não queria que ninguém soubesse.

_Desculpe, cara. Não sabia que o lance do estudo era segredo.

_Se fosse só isso...

_Vocês fizeram alguma coisa? _ arregalei os olhos.

_Não! _ balançou a cabeça. _ Mas, essa era a idéia.

_Droga, estraguei tudo. Estou com raiva de mim mesmo.

_Mas, como você disse, quem sabe ninguém descubra...

Enquanto ele tentava se acalmar, abri o link dos comentários e logo nas primeiras linhas senti que não dava mais para voltar atrás.

_O que está escrito aí? _ perguntou.

Afastei a cabeça para que pudesse ler, pois eu não queria lhe dar aquele golpe.

Bastidores: O que as pessoas escreveram nos comentários? Afasta mais que eu quero verrr! Hunf, só amanhã. Então, a gente espera, né?

Autora: Li Mendi (leia outros textos da autora em Trilhas da Vida)