8 de abr de 2008

Cap 30: Sem hesitar (Cris)

Meus dedos hesitavam cada vez mais sobre o teclado a cada final de dia. Porque eu sentia que estava mais que nunca dentro daquele enredo no qual estava trabalhando. Era real, mas poderia ser um roteiro de um belo filme ou novela em que apenas eu tinha o privilégio de saber em primeira mão. Deleitava-me sozinha com o sabor de conhecer o passado daquele ator tão famoso. Eu tinha ânsia de voltar às cenas e torná-las viva não apenas em sua voz saindo do gravador, mas das pontas dos meus dedos...

Rui atravessou o corredor olhando para o chão. Não queria encarar as pessoas, mas aquela risada era inconfundível. Levantou o rosto e viu Michele na frente do seu armário do colégio, rodeada de amigas. Todos o olhavam ou era força do seu pânico? Lembrou-se em um relance de segundos a reunião que Igor fizera em sua casa para montar um plano de ação a fim de ignorá-la. Queria, muito pelo contrário, pedir para conversar, explicar que não fora culpa sua a postagem no blog. Mas, será que aquilo estava sendo tão relevante para ela quanto era para sua vida? Michele poderia ser adorada por qualquer um e sustentar mil boatos com graça e humor. Agora não era coisa comum à vida de Igor.

Talvez, Igor estivesse certo. Melhor fingir que nada aconteceu e diminuir a ênfase da questão.

_Hei! _ ouvi a voz de Michele atrás dele. _ Como assim?

Antes que Rui se virasse, ela já estava em sua frente.

_Não vai falar nada sobre o que está acontecendo? _ perguntou.

Ele a olhou e não captou se aquilo era raiva ou indignação.

_Não fui eu. E lamento, não queria meu nome envolvido nisso.

_Bom, eu não queria esse boato. _ ela riu.

_Ótimo, somos dois, então isso é um consenso. Eu vou por aquele corredor ali e você, pelo outro. _ ajeitou a mochila nas costas.

_Ou, ouuu. _ chamou-o mais uma vez, quando Rui virou-se para continuar seu caminho._ E o estudo? Combinamos que poderia me ajudar a melhorar minha nota. Se eu não fizer isso, estou arruinada. Vai virar uma bola de neve...

_Eu tenho um treino de futebol hoje à noite, no campo próximo à lanchonete da esquina. Termina às 20 horas.

_Quer que eu vá lá? _ ela franziu a testa.

_Desculpe, mas é quando eu posso.

_Tá... mas, vai ser ali? _ fez uma careta.

_Por mim, pode ser outro dia...

_Outro dia, não. A prova já tá aí...

_Olha, eu vou jogar e, se você quiser, depois passamos na minha casa. Lá é tranqüilo.

_Na sua casa? Está brincando?

_Você vê sua agenda porque estou sem tempo. _ Rui virou-se e esbarrou em Tiago. Seguiu pelo corredor antes que também tivesse que dar satisfação.

No fim do jogo, à noite, limpou o rosto com a toalha e bebeu a água da garrafa que estava na arquibancada. Despediu-se dos amigos e fechou sua mochila.

_Eu não consegui falar com você. _ ele ouviu uma voz feminina vindo do meio do campo.

Era Michele com o pé em cima da bola. Ele sorriu e deixou de lado as teorias de rejeição de Igor.

_E não ia conseguir mesmo. Não tem meu telefone.

_Quem disse? _ ela tentou fazer uma embaixadinha sem êxito.

_É, você tem muitos contatos.

_Não sou boa nisso. _ largou a bola.

Rui começou a quicar a bola com o pé sem a menor dificuldade.

_Aliás, não sou boa em muitas coisas.

_Você falando isso? _ riu, sem tirar o olho da bola.

_Tem coisas que você pode me ensinar.

_Tipo o quê? _ Rui parou a bola sob o pé e a olhou diretamente no rosto. Estava iluminado pela luz branca dos refletores.

_A matéria da prova, ora. Seria o quê?

_Nada. _ colocou a bola de baixo do braço. _ Vamos até a minha casa?

_Eu pensei na minha...

_Não se preocupe, minha mãe não sabe mexer em blogs.

_Tudo bem... _ coçou a cabeça.

_Eu preciso tomar um banho. _ comentou e eles caminharam lado a lado.

O estudo não foi nada motivante. Além do cansaço físico, havia o clima estranho pelas fofocas que minimizava o ímpeto de Rui tomar qualquer atitude. No fim, precisou levá-la de volta até onde haviam se encontrado para não andar sozinha à noite.

_Tem certeza que pode ir daqui? Se quiser, eu acompanho...

_Não! _ ela balançou a cabeça negativamente.

_Ok. _ Rui continuou com as mãos no bolso da calça jeans, parado sobre a grama.

_É estranho...

_O quê? _ perguntou ele.

Michele deu um pequeno pulo e se segurou nas traves do gol. Fez um movimento pendular de balanço.

_Tudo...

Rui teve medo de perguntar, só para ter o sabor de poder fazer suas próprias interpretações.

_... como sabe que já é tudo?

_... _ ela sorriu e tomou outra vez impulso para se segurar apenas nas barras, tirando os pés do chão.

Ele pensou que talvez nunca mais aquela chance voltaria e que um momento mágico não chegava duas vezes, principalmente depois de todos os anos admirando-a de longe. Não importava se ela estava curtindo a sensação de ser o assunto da vez, ele só queria saber como seria cometer aquela loucura.

Caminhou à frente, segurou seu rosto e colou sua boca na dela em um contato que lhe tirou o ar. Não queria saber se podia, alguns segundos a mais lhe bastava. Ela firmou os pés no chão e sentiu as mãos de Rui envolver-lhe as costas impedindo que fugisse. As mãos de Michele se soltaram vagarosamente e deslizaram até cair sobre os ombros do rapaz. Quis conter, mas o contato quente e forte era inebriante, beijou também. Ninguém ali podia vê-los, nem tinham que fingir nada. Era só a noite fresca e os lábios úmidos se provando com vontade.

Quando se afastou, Rui sorriu e sentiu um frio na barriga, um medo da rejeição.

_Uauuu. Não estava nos meus planos. _ ela riu e passou as mãos no cabelo. _ Será que foi por força do que andaram falando e...

_Não precisa de desculpas.

_Não é isso!

_Sério, tudo bem. Já está tarde. Vai mesmo sozinha?

_Claro, só atravessar duas ruas. _ Michele deu alguns passos de costas e depois virou-se para seu caminho.

Imaginou que seria só mais uma experiência em sua vidinha repleta de atos que sempre trazem novos personagens à cena. Só não imaginou que sempre há espectadores indiscretos que gostam de fazer um bom registro dos fatos.

Um comentário:

Aninha Barreto disse...

eita nós eim!!!!!!! que povim mequetrefe de fofoqueiros!!!! credo!!!!!!hehehehehe!!!!!!