9 de abr de 2008

Cap 31: Depois do trabalho (Cris)

A primeira pergunta que fiz na entrevista do dia seguinte para Igor estava martelando na minha cabeça:

_Quem tirou a foto de Rui e Michele?

Ele sorriu e cruzou a perna.

_Eu.

_Quê? Mas, ele era seu amigo!

_Tá, mas eu queria ajudá-lo.

_Propagando mais fofocas?

_Olha, eu sabia que isso iria motivar os dois a levar aquilo mais adiante. Ao acaso, liguei para o Rui e sua mãe me disse que tinha acabado de levar uma garota em casa. Como eu estava no celular, na rua, aproveitei para ver se achava eles e pegava a imagem a tempo.

_E o que fez com a foto?

_Pus no site. Os dois acabaram ficando muito mais vezes e eu consegui dar uma tacada de mestre em Thiago.

_Só que você não contou que a garota estava doente e se ofereceu para você?

_É... foi um grande rolo. Ela ainda não tinha se dado conta do quanto gostava do meu amigo e ficou com uns e outros. Mas, eu não iria ser o traíra. O problema é que estava em uma encruzilhada. Acabei fazendo a peça e ela forçou um beijo nos bastidores. Ele viu e foi uma briga das maiores...

_Nossa...

_O pior é que, depois, ela contou que fez isso para machucá-lo porque estava doente e queria vê-lo longe.

_Que piração. E estava mesmo?

_Não sei se realmente fez por causa desse motivo. Só que, de fato ficou muito mal e ele acabou sendo o único que lhe deu apoio.

_E, no fim...?

_No fim, ficaram juntos...

Anotei tudo.

_Você não disse que tinha que fazer uma prova? _ lembrei-me.

_Ah! Sim, uma prova para seguir a carreira militar. Fiz igual minha cara para não passar mesmo. Meu pai descobriu pela nota muito baixa e quis me esganar. _ riu.

_E o que isso tem a ver com sua carreira de artista?

_Eu falei para minha mãe que queria ser ator e fui para um teste. Nesse dia, encontrei com a Karen e ela me deu seu cartão. Depois, foi uma avalanche que me fez sair de casa, ganhar as telas e tudo o mais...

_Hum... _ anotei. Nossas conversas eram assim, primeiro Igor me contava por alto e, depois, aprofundávamos para que pudesse virar um enredo cheio de cenas e personagens.

_E você?_ perguntou.

_Como eu? _ sorri e voltei a olhar para o bloco de anotações.

_Fale de você, também.

_O livro não é sobre mim e combinamos que esse seria o meu trabalho.

_Você não conversa no ambiente de trabalho?

_Não com meu patrão.

Igor riu alto e levantou-se. Nessas horas, eu me sentia ridícula naquela posição de redatora de sua adolescência. Porém, me mantinha na postura de jornalista séria.

_Então, encerramos o dia de trabalho. _ anunciou.

_Ãnh?

Igor pegou o celular em cima do armário da sala e discou um número. Eu não acredito nisso, ele está me despachando? Enfiei o bloco na bolsa e quando já puxava o zíper, ouvi meu celular tocar. Era o número dele. Franzi a testa e atendi segurando um sorriso no canto da boca.

_Alô? _ eu disse.

_Oi. Sou eu, o Igor. Então, depois do trabalho você quer dar uma volta, conversar?

_Não sei se vai dar... _ parei de bancar aquela cena. _ Isso é ridículo. _ desliguei o aparelho e o joguei na bolsa. _ Eu não estou aqui para brincadeira, ok? _ levantei, olhando agora diretamente para ele.

_Nem eu. _ colocou seu celular de volta no armário e se aproximou do sofá novamente. _ Sabe por que as pessoas gostam tanto de novela? Para viverem por um momento a vida que não é real.

_Mas essa é a minha e ela é real.

_Por isso é tão chata. _ julgou.

_Está me chamando de chata? _ ri sarcástica.

_Não, a sua vida é chata.

_Talvez porque meu trabalho não seja um picadeiro. Eu não fico em camarins onde se servem salgadinhos na sua boca, Igor.

_Por que você me odeia tanto?

_Deixa de ser mimado, quem te garante que eu tenho qualquer sentimento por você?

_O fato de estar nervosa? _ levantou as sobrancelhas.

_Arrgghhhh. _ grunhi e tentei passar para ir embora.

_Calma. _ segurou meu braço.

_Ouça, Igor, eu não sou o seu tamagotchi. Imagino que tenha todo esse poder de influenciar a vida das pessoas, mas eu só quero...

_O que eu preciso fazer para ser uma pessoa normal para você?

_Não ser o meu patrão.

_Então, eu tenho que te despedir?

_Também não posso pedir isso.

_E se eu te garantir que será apenas e só uma conversa?

Respirei fundo e umedeci os lábios com a língua. Cocei a testa com o dedão.

_Eu sei o que quer, Igor.

_...

_Você quer alguém para escrever a sua história. Eu estou aqui. Mas, você quer uma companhia, enquanto não estiver trabalhando. Um alguém em quem possa confiar, já que essa pessoa depende de você. É quase uma amizade de aluguel.

_E você não teria pena de uma pessoa assim?

_Amizade não se tem por pena. _ ponderei.

_Tudo bem, estou tomando seu tempo... Boa tarde. _ ele fez menção a sair e foi minha vez de contê-lo.

_Tudo bem. Mas, em off! _ por fim aceitei.

_Claro. _ sorriu.

Sentamos novamente.

_Em vez de eu só falar, conte também sobre você. Pode ficar uma coisa menos engessada.

_Tudo bem. O que quer saber? _ perguntei ainda em tom profissional.

_Conte do seu período de pré-vestibular.

_Ah! Não vai querer saber... _ ri e coloquei o cabelo atrás das orelhas.

_Fala... _ ele deitou no sofá.

_Deixa eu ver...

Larguei a bolsa de lado e tentei relaxar.

Eu era do tipo gordinha. E, quando uma garota lembra que era gordinha, ela quer dizer que não entrava em nenhum número 38 nas lojas de calça jeans e ficava pulando dentro das cabines feito uma competidora de corrida de saco. Gordinha tem espinha porque todo mundo sabe que comidas gordurosas deixa sua cara tão rugosa quanto pele de frango depenado. E ainda vem aquela dermatologista que te passa um creme de 90 reais e um esfoliante de 82 que não servem para porra nenhuma, a não ser para ela e o vendedor de laboratório e diz: “Nenhum estudo comprovou que chocolate faz mal para pele”.

Mas, não dava para não ser gordinha. Veja que minha mãe comprava para eu levar para escola Traquinas. Todo dia, quando a aula estava pior que a programação da TV Câmara, eu abria o biscoito e passava para toda a fileira comer. Mas, uma semana, um mês comendo traquinas é virar um profissional provador da Fábrica de Traquinas não remunerado. Estava quase sabendo a diferença de consistência crocrante entre uma banda do biscoito e a outra. E, todo dia, quando eu olhava para a gaveta de biscoito: Traquinas. Porque mãe é assim: não muda o time que está ganhando. Se o filho gosta de Traquinas vai comprar uma caixa fechada que dura um mês. Foi assim também no segundo ano, só que com Clube Social. É prático de comer, você corta naqueles pedacinhos pontilhados que dá vontade de pegar a tesoura. Daí, bate com o pacote para se livrar dos farelos. Qual clube social sobrevive na mochila de aluno, espremido no bolso da frente? Um dia minha mãe apareceu com uma novidade e eu perguntei: “qual?”. Agora há os pacotões econômicos com vários mini pacotinhos de clube social. Aproveitei a promoção e comprei uns oito!”. Eu vou entrar para alguma comunidade odeio traquinas e clube social.

Aliás, eu odeio muita coisa... Tipo pergunta de caderno de questionário. Todo mundo na vida já respondeu naqueles cadernos colocando seu nome e número. “Você ainda é bv?”. Deixar de ser BV é mais importante que passar no vestibular! Imagina uma puta dor de barriga que até banheiro de fundo de botequim serve? É o seu desespero de se livrar da boca virgem. Aí vem as amigas com técnicas fabulosas: “treine com a mão”. Veja o desespero! Você sabe qual é o símbolo das bv ? Já ouviu falar da Hello Kitty...

E na TV é tão fácil, né? É igual receita para ensinar fazer bonequinhos de biscuit. A professora monta coelhinhos lindos de páscoa e parece tão ridículo. Até que você gasta uma dinheirama para comprar os ingredientes e tudo que consegue fazer é uma bola com uma cabeça que mais parece um porco. Pois bem, a gente parte para o abate, quero dizer, para o primeiro beijo, achando que vai ser como no filme do Homem Aranha um: bem de vagar e lento, provando os lábios sem língua. Igual quem odeia vinho e fica bebericando na noite de natal para não parecer uma retardada-nerd para os priminhos.

Depois de dente trincado, babada, mordida e com menos um elástico do aparelho do dentes vem a pergunta do caderno: “como foi o seu primeiro beijo?”. Alguém merece isso? Só que não temos o que nos preocupar é só o primeiro passo para um dia dar uma de Xena. Eu não disse dar a, não... deixa para lá. Você pode chegar a ser tão sexy como um beijo de Xena e Ares. Claro que vai precisar de consultoria que pode encontrar em todas as edições da Revista Nova. Aliás, já viu o site da Nova? “1001 idéias de sexo”. Depois que chegar no cem você vai ser o quê? A professora da Pamela Anderson? E as dicas são feitas só para quem quer ser muito bom mesmo: “Pagamos ao gerente para que rodasse uma sessão só para nós. Transamos em todas as fileiras enquanto o filme rolava.” Se eles conseguiram transar em todas as fileiras ou ela é uma boneca inflável ou o cinema era uma sala de projeção do condomínio!

Mas tá, a parte do beijo é uma fatia da vida ativa além da rotina zumbi de estudar para aquelas provas de vestibular que irão testar os conhecimentos que você nunca mais usará na sua vida. Tudo bem, sempre tem um amigo chato que vai falar: “Claro que usa isso!”. Tudo bem, o banheiro lá de casa deu um problema na fiação e agora fico apertando o registro de abrir com direito a choquinho que mais parece pegadinha do programa do Sérgio Malandro. Alguém sabe onde o U=R.I conserta isso?

Bastidores= Parece que Cris tem muito a contar e Igor não vai querer voltar mais para o horário de trabalho. A continuação vocês vêem amanhã.



Li Mendi

3 comentários:

Laine disse...

kkkkkk!! Li, este capítulo está engraçadíssimo, ri demais, peguei o travesseiro para não acabar acordando o pessoal antes da hora!
Beijão!!!

Li disse...

Achou?
Quem diria? Acho que o Igor está se surpreendendo, afinal, ela toda sériaaa e agora se soltando.
Temos muito que conhecer dela, hen?
Quem sabe isso tb não faz Igor nos contar mais de nosso passado.
Beijocas!
Li

Li disse...

Achou?
Quem diria? Acho que o Igor está se surpreendendo, afinal, ela toda sériaaa e agora se soltando.
Temos muito que conhecer dela, hen?
Quem sabe isso tb não faz Igor nos contar mais de nosso passado.
Beijocas!
Li