24 de mai de 2008

Capítulo 54: Proteção (Igor e Cris)

Olhei para o lado e vi grades de ferro. A próxima coisa que consegui enxergar foi um policial um pouco desfocado. Apertei os olhos e, ao abri-los, constatei que não era sonho. Então, deveria ser um pesadelo real. Sentei-me assustado e constatei que havia sangue na minha blusa. A última coisa que lembrava era de estar brigando com Karen pela posse da faca. Senti uma mão agarrando minhas costas e depois um soco. Quem me trouxera para ali?

Perguntei ao policial, que mandou eu ficar quieto e esperar meu advogado. Hei! Eu precisava ser defendido de quê? Senti falta do celular para poder ligar e pedir socorro para alguém. Que ironia... Karen certamente era a primeira pessoa em quem eu pensaria há um ano. Bastava discar seu número mágico e pronto, haveria alguém para resolver tudo por mim. Agora, eu estava sozinho.

A primeira visita que recebi não fora do meu pai, acompanhado por um advogado.

_Eu sei que não seria capaz. _ sua primeira frase era mais um pedido de confirmação do que certeza. Havia uma reticência duvidosa em seu olhar e voz.

_Claro que não! Eu não iria matar ninguém...

_As coisas estão complicadas para o seu lado. _ disse o advogado.

_Eu não matei!

_Na justiça não basta o sim pelo não. Temos que provar. Só que existem muitos agravantes no meio dessa grande confusão que se armou.

_Grande confusão? _ senti que eu não estava tendo real noção da dimensão das coisas.

_O segurança ouviu você falar que a mataria.

_Foi uma força de expressão! _ expliquei.

_Acompanhada, claro, de vocês dois na cozinha engalfinhados no chão e a sua assessora com uma faca cravada na barriga. _ complementou.

_O que aconteceu com Karen, eu não lembro...

_Ela tentou se matar e te incriminar. _ meu pai me respondeu. _ Está em estado gravíssimo no hospital.

_Ah! Aquela pilantra, filha da mãe... _ dei um murro na mesa. _ Eu agora sim vou lá terminar de matar ela e com vontade!

_Não seja maluco! Cala essa boca! _ meu pai me segurou pelos braços. _ A imprensa inteira está aí fora contra você. Não complique as coisas.
_A Cris, meu Deus, a Cris! _ lembrei-me dela e senti vontade de protegê-la, mas não podia, estava também precisando de proteção de todas as acusações caluniosas.

_Eu não sei... Mas, depois de tudo que está passando na TV e na Internet eu até entendo que...

_Tv, Internet...?

_O vídeo...

_O vídeo? _ franzi a testa e um lampejo de lembrança me fez gelar o semblante. _ O vídeo foi divulgado?

_Já está na fase viral.

_Quem fez isso? _ perguntei. _ Karen! _ dei mais um murro na mesa. _ Agora eu vou matar aquela...

_Senta aí. _ meu pai me segurou na cadeira e me fez sentar.


***

Quando entrei em casa, senti-me fraca. Só queria meu travesseiro macio e o edredom fofo para me abrigar e chorar quieta minhas próprias dores. Não podia acreditar que Igor e Karen... Fechei os olhos com força. Afastei a lembrança das cenas da cozinha com força.

O telefone tocou. Primeiramente, pensei em não atender, mas depois conferi o número no visor.

_Oi, Rebeca.

_Não precisa dizer nada, eu te entendo...

_Ãnh?

_Eu vi. Todo mundo viu, aliás. Estou te ligando para saber...

_Do que está falando Rebeca?

_O vídeo.

_Qu... Como teve acesso?

_Está na rede.

_Rede? Quem pode...? A Karen!

_Não sei quem, mas está virando o vídeo do momento. Só se fala disso.

_Foi postado quando?

_Na madrugada de ontem. _ respondeu, depois de pedir um minuto para conferir o dado.

_Então, ela já tinha planejado? Isso quer dizer que o beijo da cozinha foi armação?

_Ãnh?

_Nada. Tanta coisa está acontecendo.

_Quer que eu vá para aí?

_Não precisa, agradeço. Quero ficar sozinha. _ respondi. Não sabia se Rebeca realmente queria falar comigo ou conseguir um grande furo de reportagem.

Eu podia me livrar gentilmente dela. Mas, o que dizer do batalhão de fotógrafos na portaria do meu prédio? O porteiro já não sabia como contê-los.

***

_Eu preciso falar com a Cris.

_Não será tão fácil trazê-la até aqui.

_Um papel e uma caneta. Anda, preciso escrever para ela. _ pedi para o advogado.

Ele me entregou o que eu queria e eu comecei a escrever freneticamente, antes que o tempo da visita acabasse. Entreguei-lhe a carta:

_Entregue em mãos para a Cris. Quero que tomem providências para tirá-la imediatamente do apartamento dela. Levem-na para um lugar reservado e longe da imprensa! Não quero ninguém vendendo jornal às custas do sofrimento dela.

_Nem parece estar preocupado em se defender. _ meu pai comentou.

_Eu posso me defender e conseguir que a justiça me perdoe. Mas, dificilmente, se apaga do coração de uma mulher a decepção que sentiu ao ver um ato de traição. Seja ele mentira ou verdade.

_A que ponto chegamos? _ meu pai estava desnorteado.

_A que ponto chegaremos? _ adiantou-se o advogado.

2 comentários:

Pink disse...

caramba Li!!! vc ta com a mente afiada eim fia!!! eita!!! tadinho deles!!!!! snif..

ana paula disse...

fui eu, ana paula que postou...rs!